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A pernada de Arnaldinho Borgo 

29/05/2025 00:01
A pernada de Arnaldinho Borgo 
*Por Marcelo Rossoni Nos bastidores da política capixaba, uma movimentação recente provocou desconforto, tensões internas e até certo ressentimento entre aliados. O epicentro do abalo político foi provocado pelo o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (ex-Podemos), e sua articulação direta com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, para uma possível filiação visando as eleições de 2026. A estratégia de Arnaldinho Borgo contornou completamente a executiva estadual do partido, presidida pelo atual prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, um político de ficha limpa e de grande prestígio no Norte do Espírito Santo, e foi vista por muitos como uma jogada de xadrez que deixou o PSD-ES sem rei, sem torre e sem aviso prévio. A movimentação, que vinha sendo gestada nos bastidores, pegou a cúpula regional de surpresa e escancarou a fragilidade da estrutura partidária no Espírito Santo. Mais que uma filiação em construção, a ação expôs um racha, ou pelo menos, uma linha de fratura entre o comando nacional e o diretório regional da legenda. Arnaldinho não é novato em articulações políticas discretas. Desde que assumiu a prefeitura de Vila Velha, em 2021, vem sendo apontado como uma das lideranças em ascensão no cenário político, com ambições que ultrapassam os limites municipais. Segundo fontes próximas, as conversas com Kassab começaram ainda em 2023, com encontros reservados e sem qualquer intermediação do diretório estadual. Enquanto Renzo Vasconcelos trabalhava para reestruturar o partido no Espírito Santo, buscando nomes competitivos e tentando projetar sua própria imagem como liderança estadual, Arnaldinho costurava nos bastidores, com apoio de interlocutores influentes em Brasília, um caminho alternativo. A estratégia: filiar-se ao PSD sem submeter-se à chancela estadual, ancorando sua entrada diretamente no prestígio que tem com Kassab. A notícia da articulação foi revelada primeiro pela imprensa, e causou estupefação entre os dirigentes locais. Renzo Vasconcelos teria sido informado apenas depois da publicação das matérias, o que foi visto como um “desprezo institucional” por membros do partido. A reação? Um silêncio público constrangedor — e, nos bastidores, um clima de desconfiança. A postura de Kassab, segundo aliados, tem como base um raciocínio pragmático: o PSD quer crescer nos estados, especialmente na Região Sudeste, e isso exige quadros com densidade eleitoral comprovada. Arnaldinho, reeleito prefeito da segunda maior cidade do Espírito Santo, com boa avaliação de governo e trânsito entre várias correntes políticas, encaixa-se nesse perfil. Do ponto de vista do comando nacional, o prefeito representa mais capital político do que Renzo, que, apesar de controlar formalmente o partido no estado, ainda patina na construção de uma liderança consolidada. Para Kassab, pragmático, o cálculo é claro: fortalecer o PSD com nomes viáveis eleitoralmente, mesmo que isso custe o desgaste com lideranças regionais. Essa lógica, porém, rompe com a tradição dos partidos de respeitarem as instâncias estaduais, especialmente em decisões sobre filiações de peso. A operação, ao ignorar a direção local, revela o grau de centralização do poder no PSD — e o tamanho da aposta em Arnaldinho como futuro protagonista estadual. A aproximação de Arnaldinho com Kassab não ocorre em um vácuo. Ela se insere num contexto de intensa movimentação partidária no Espírito Santo, onde nomes fortes já se posicionam para as eleições de 2026. A possibilidade de o prefeito de Vila Velha entrar na disputa pelo Palácio Anchieta, ou mesmo compor uma chapa majoritária, é levada a sério por aliados e adversários. A filiação ao PSD, se confirmada, daria a ele estrutura partidária robusta, acesso ao fundo eleitoral, tempo de TV e palanque nacional — ingredientes fundamentais para um projeto estadual competitivo. E mais: o gesto reforçaria sua imagem como político independente, que atua acima das disputas locais e tem interlocução direta com Brasília. O movimento também pode afetar o redesenho das alianças locais. Com Arnaldinho dentro do PSD, o partido se torna uma peça-chave para coligações futuras, deslocando o eixo das conversas e, possivelmente, reconfigurando o mapa de forças no estado. Partidos como MDB, PSDB e até o PL, que hoje ensaiam aproximações diversas, podem ter que rever suas estratégias. Para Renzo Vasconcelos, o episódio é um baque. Desde que assumiu a presidência do PSD-ES, ele vinha tentando projetar uma imagem de modernização e fortalecimento da legenda. No entanto, a articulação de Kassab com Arnaldinho, à revelia da executiva estadual, escancarou a falta de prestígio do dirigente local dentro da estrutura nacional. Pior: ao se manter em silêncio público, Renzo deu espaço para que a narrativa da “pernada” se consolidasse. Mesmo que internamente o presidente estadual tenha buscado explicações ou conversas com Brasília, o fato de ter sido surpreendido como um coadjuvante no processo manchou sua autoridade. Aliados afirmam que Renzo teria considerado entregar o cargo, mas que, por enquanto, a tendência é resistir — embora em situação enfraquecida. A incógnita agora é saber se ele conseguirá manter a liderança do PSD no estado ou se a entrada de Arnaldinho virá acompanhada de uma reorganização total do partido, com nova presidência e nova linha política. O mal-estar causado pela movimentação de Arnaldinho já se espalha pela base do PSD do Espírito Santo. Dirigentes municipais e quadros médios do partido relatam desconforto com a forma como a negociação foi conduzida e temem que o diretório estadual perca autonomia de vez. Alguns falam, nos bastidores, em “intervenção branca” articulada por Kassab, que estaria redesenhando o partido no Espírito Santo sem consulta às instâncias locais. Outros, porém, veem na chegada de Arnaldinho uma oportunidade. Argumentam que a presença de um nome forte pode atrair filiados, dar visibilidade ao partido e garantir protagonismo nas eleições estaduais — algo que o PSD-ES vinha buscando sem muito sucesso desde sua fundação. Seja como for, o clima é de divisão. Há quem defenda uma recomposição interna, com diálogo entre Renzo, Kassab e Arnaldinho. Mas há também quem aposte numa ruptura, com a saída do atual presidente estadual e a instalação de uma nova direção sob influência direta do prefeito de Vila Velha. A operação silenciosa de Arnaldinho Borgo é, em muitos aspectos, uma jogada de mestre. Ao articular diretamente com Kassab, ele demonstrou força política, capacidade de articulação nacional e um apetite claro por voos mais altos. Ignorar a instância estadual não foi apenas um gesto de desconfiança - foi também um sinal de que o prefeito pretende ditar os próprios termos no jogo político que se avizinha. Se sua filiação ao PSD se concretizar nos próximos meses, é provável que o partido passe a orbitar ao redor de sua figura, tornando-se uma plataforma para seu projeto estadual. Nesse cenário, Renzo e sua turma terão de decidir: resistem e enfrentam a força centrífuga de Arnaldinho - ou cedem espaço e se alinham ao novo comando de fato. O caso expõe, mais uma vez, a tensão entre o poder nacional dos partidos e a autonomia regional. E coloca em xeque a efetividade das lideranças estaduais quando confrontadas com a lógica das articulações de cúpula. No final das contas, a “pernada” de Arnaldinho é mais do que um episódio isolado: é sintoma de um modelo político onde prestígio, voto e acesso direto ao poder central valem mais que qualquer diretório local. Arnaldinho, o segundo preferido de Renato Casagrande, sabe que o muro da sucessão  é baixo, não precisando de escada para ultrapassá-lo, e aposta no insucesso de Ricardo Ferraço, vice-governador que é o primeiro preferido do governador. Ao contrário de Arnaldinho Borgo, Ricardo Ferraço tem DNA político forte e pode surpreender muita gente. Agora, é só aguardar os acontecimentos e a decisão de Paulo Hartung. Se vem candidato ao Governo ao Senado ou a vice-presidente da república. Tudo depende da conjuntura. Mas como dizia o saudoso deputado Vicente Silveira, “política é igual às nuvens: muda de forma a todo instante”.   *Marcelo Rossoni é jornalista  
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