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A origem da violência e das favelas no Rio de Janeiro e em outras praças

04/11/2025 00:03
A origem da violência e das favelas no Rio de Janeiro e em outras praças
*Por Marcelo RossoniFoi o amigo jornalista Roberto Junquilho quem me enviou o vídeo. Nele, Wilson das Neves, com aquele sorriso de quem já entendeu que o Brasil não tem conserto, canta sua parceria com Paulo César Pinheiro, O Dia em Que o Morro Descer e Não For Carnaval. “Quando o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar pra assistir o desfile final...”O samba é uma dessas obras que misturam açúcar e pólvora: parece convite pra festa, mas anuncia um motim. É a alegria com cheiro de pólvora — o retrato fiel de um país que transforma a dor em ritmo e o abandono em tradição.A música, lançada em 1997, soa como profecia com refrão. “Quando o morro descer, vai ser infernal...”, canta Wilson, e o verso ecoa com a serenidade de quem não ameaça — apenas descreve. Afinal, o morro só desce porque o país o empurrou para cima.Tudo começou com a Guerra do Paraguai (1864–1870). Milhares de homens pobres, negros e escravizados foram enviados pra morrer por uma pátria que nem sabia o nome deles. Voltaram mutilados, sem soldo, sem glória — e sem lugar. Subiram os morros da capital imperial e ergueram barracos improvisados, inaugurando o Brasil que se dividiria entre o asfalto bem-posto e a ladeira malvista.“Vai ter muito mais gente pedindo passagem, vai ter muito mais gente pedindo coragem...” — e o samba, sem saber, narrava o retorno desses soldados sem farda, empurrados à margem de um país que sempre preferiu o espelho à rua.Décadas depois, vieram os sobreviventes de Canudos. Trouxeram o nome da planta agreste do sertão baiano — a favela — e o plantaram nas encostas cariocas. Assim nasceu o primeiro território da exclusão: não por invasão, mas por devolução.O Rio queria ser Paris, mas só conseguiu ser uma versão tropical da desigualdade. Cada “reforma urbana” foi uma operação de despejo; cada avenida nova, um exílio. O morro virou sinônimo de problema, o asfalto, de virtude. “Vai ter batuque, mas não vai ter tamborim”, diria o verso, se falasse de Pereira Passos, o prefeito do Rio entre 1902 e 1906, que acreditava piamente que demolir cortiços era o mesmo que civilizar a cidade. Era o bota-abaixo, a versão carioca da faxina social — eufemismo para expulsar pobres e fingir que o problema era estético, não humano. O Exército deu lugar à Polícia Militar, herdeira natural da lógica de guerra. O inimigo agora é o cidadão comum. O Estado, que nunca sobe o morro com escola ou posto de saúde, sobe com caveirão — o veículo blindado que leva o brasão da República e a pontaria da guerra. Para completar a ironia, as armas usadas nas favelas — e nas operações — costumam vir do mesmo fornecedor: os quartéis. Boa parte dos fuzis apreendidos é de origem estatal, desviada, revendida ou “extraviada”, palavra delicada para roubo autorizado. O Brasil é o único país que se mata com o próprio estoque.“Vai ter sangue e suor nesse chão varonil, vai ter gente sambando na ponta do fuzil...” — e não há exagero: é o balé macabro de um país que transformou o tiroteio em trilha sonora.Enquanto isso, os traficantes de verdade continuam longe do barulho. Nenhum deles mora em barraco. Vivem em condomínios fechados, de frente pro mar, com vizinho ilustre, onde o único tiro que se ouve é o da rolha do champagne. O playboy que cheira no Leblon não sobe o morro pra comprar — se tentasse, morreria antes da primeira “cafungada”. A banda podre da PM descobriu que o crime podia ser negócio. Os policiais expulsos ou apenas cansados de fingir que combatem o mal criaram as milícias — essa mistura de empresa de segurança, cartel e diretório eleitoral. Cobram por proteção, exploram transporte, dominam bairros e elegem políticos. É crime com CNPJ e discurso de ordem.Quando o Estado decide “reagir”, o faz com chacinas. Operações vendidas como combate ao tráfico terminam como massacres. Os governadores do chamado Consórcio da Paz — melhor seria Paz Eterna — disputam quem mata mais “suspeitos” em nome da lei. No noticiário, chamam de eficiência; nos becos, de luto.“E o couro vai comer até o amanhecer, até ninguém mais se lembrar do porquê...” — o samba já previa o esquecimento. O Brasil é craque nisso: cada chacina vira estatística antes mesmo de ser velório, e cada velório vira silêncio antes de ser lembrado.Os amiguinhos da milícia, o pessoal da rachadinha e os traficantes de armas não vão gostar deste texto. Vão dizer que é “coisa de comunista”, “defesa de bandido”, como se pedir que o Estado pare de matar fosse ideologia — e não simples higiene moral.Mas o samba de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro continua tocando. “Ninguém vai fingir que não viu...” — e é justamente esse o medo dos poderosos: o dia em que o morro descer, não para atacar, mas para ser visto.No vídeo que Roberto Junquilho me mandou, Wilson encerra sorrindo, tamborim na mão, como quem sabe que o Brasil ainda dança sobre o próprio abismo. E, enquanto houver quem bata palma, a tragédia segue no ritmo certo. O desfile final talvez não demore — e, como ele avisou, não será carnaval.Bob, obrigado pelo vídeo!*Marcelo Rossoni é jornalista

 

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