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A narina que financia o império

21/06/2026 07:17
A narina que financia o império

Por Marcelo Rossoni


Há uma curiosa tradição política que atravessa décadas: quando toneladas de cocaína cruzam fronteiras, atravessam oceanos e desembarcam em portos, aeroportos e ruas dos Estados Unidos, a culpa costuma morar sempre do lado de fora. Está nos países produtores, nos países de trânsito, nos cartéis, nas selvas, nos desertos e, se necessário, até na fase da lua. Raramente é encontrada no espelho.

A lógica econômica, entretanto, possui um defeito incômodo: ela não costuma respeitar discursos. Onde existe mercado, existe consumo. E onde existe consumo abundante, existe alguém disposto a produzir e vender. A história da cocaína e da maconha nas Américas é, antes de tudo, a história da oferta encontrando a demanda. Não há mistério sociológico capaz de alterar essa equação elementar.

Os países da América Latina, do Oriente Médio e da Ásia carregam, sem dúvida, enormes responsabilidades. Cartéis violentos, corrupção, lavagem de dinheiro e organizações criminosas transformaram regiões inteiras em territórios de guerra não declarada. Mas nenhuma dessas estruturas teria alcançado tamanho poder se não existisse, do outro lado da cadeia comercial, um consumidor disposto a pagar cifras bilionárias para alimentar o próprio vício.

Durante décadas, os Estados Unidos investiram montanhas de dólares em operações de combate ao narcotráfico. Satélites monitoram plantações, agentes infiltraram-se em organizações criminosas, governos foram pressionados, tratados internacionais foram assinados e exércitos foram mobilizados. Ainda assim, a droga continuou chegando. Talvez porque o problema nunca tenha estado apenas na plantação escondida na montanha colombiana, no laboratório clandestino perdido na selva ou na rota marítima do Caribe. Talvez parte da resposta também esteja no cidadão que abre a carteira para comprar o produto quando ele finalmente alcança seu destino.

Há algo curioso nessa dinâmica. Quando uma mercadoria legal conquista consumidores, celebra-se a força do mercado. Quando a mercadoria é cocaína, o consumidor desaparece do debate como um mágico particularmente habilidoso. O traficante assume o papel de protagonista absoluto, enquanto o comprador recebe o figurino de figurante involuntário, quase uma vítima das circunstâncias. A economia, porém, não costuma compartilhar dessa generosidade.

Imagine, por um instante, uma hipótese improvável: milhões de consumidores americanos decidem abandonar o uso de cocaína e de outras drogas ilícitas. Não reduzir. Não diminuir. Abandonar. O que aconteceria com o negócio? Os cartéis continuariam poderosos por algum tempo, é verdade. Mas estariam tentando vender guarda-chuvas no deserto. O produto perderia valor, as margens despencariam e boa parte da estrutura criminosa sofreria um colapso econômico inevitável.

É por isso que determinadas declarações políticas produzem um efeito involuntariamente cômico. Soam como alguém reclamando de um vazamento de água enquanto mantém a torneira completamente aberta. Combate-se o produtor, combate-se o transportador, combate-se o intermediário, combate-se o vizinho. Menos o elemento que sustenta toda a engrenagem: o consumidor.

A ironia é que a cocaína e outras drogas ilícitas não percorrem milhares de quilômetros movidas por patriotismo latino-americano, asiático ou oriental. Elas viajam porque existe quem as compre. As drogas não cruzam fronteiras por iniciativa própria. Seguem o cheiro do dinheiro. E esse cheiro, não raramente, termina justamente onde os discursos mais inflamados costumam apontar o dedo para os outros.

Isso não significa absolver traficantes nem minimizar a responsabilidade dos produtores. Significa apenas reconhecer uma verdade desconfortável: a cadeia do narcotráfico possui dois extremos inseparáveis. Um produz porque alguém compra. O outro compra porque alguém produz. Fingir que apenas metade da equação existe pode render bons discursos e campanhas eleitorais eficientes, mas dificilmente produz resultados duradouros.

Talvez a observação mais incômoda seja também a mais simples. Se o objetivo for realmente reduzir o tráfico internacional de drogas, uma estratégia eficiente não começa apenas nas plantações da América Latina ou de outras regiões do planeta. Ela começa nas ruas, nas escolas, nas comunidades e nos centros de tratamento dos próprios Estados Unidos. Afinal, por mais sofisticada que seja uma organização criminosa, ela não consegue vender um produto a quem não deseja consumi-lo.

Em outras palavras, se a preocupação é com a cocaína que chega às narinas dos estadunidenses, talvez o debate precise olhar um pouco menos para a montanha onde a folha foi cultivada e um pouco mais para a narina onde o pó encerra sua viagem. Afinal, nenhuma mercadoria percorre meio continente ou atravessa o planeta por altruísmo. Ela viaja porque alguém, em algum lugar, está esperando a entrega.

E, enquanto essa parte da equação continuar convenientemente fora de foco, o problema seguirá sendo tratado como uma fotografia cortada pela metade: vê-se a mão que vende, mas evita-se enxergar a que compra.

Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


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