Por Marcelo Rossoni
No Espírito Santo, basta o calendário eleitoral começar a dar seus primeiros sinais de inquietação para que a paisagem política ganhe um brilho parecido com miragem — bonito de longe, confuso de perto. É quando a célebre mosca azul, metáfora criada por Machado de Assis para explicar a súbita fascinação humana pelo poder, decide fazer morada entre gabinetes, diretórios e cafés da Praia do Canto. No conto machadiano, ela não concede poderes — concede ilusões, e ilusões, como sempre, cobram caro. Aqui, circula com liberdade, pousando onde bem entende e transformando figuras discretas em aspirantes improváveis ao Senado, à Câmara dos Deputados ou mesmo uma cadeira dourada na Assembleia Legislativa.
O processo é silencioso, mas os sintomas são claros. Um vereador que mal administra o próprio gabinete descobre, de repente, que tem “projeto de Estado”. Um deputado que raramente chega aos 2% das pesquisas passa a se anunciar como “alternativa real para o futuro do Espírito Santo”. Um dirigente partidário sem expressão eleitoral se apresenta como alguém “preparado para conduzir o Espírito Santo com firmeza”. É sempre comovente quando a ambição ultrapassa o currículo.
Alguns desses personagens embarcam na jornada com método. Sabem que não ganharão — e não se importam. Lançam-se pré-candidatos para se cacifar, palavra sempre elegante para descrever o ato de aumentar o próprio valor na barganha política. São profissionais da ambição moderada: produzem vídeos inspiracionais, citam dados que não dominam exatamente, discursam com tom grave e, no final, colhem o que realmente buscavam — espaço, cargos, prestígio interno.
Outros, no entanto, acreditam sinceramente. E é aí que a mosca azul demonstra sua genialidade literária. Depois da picada, vem a convicção absoluta: o político passa a acreditar que foi chamado por uma força superior, talvez o destino, talvez o algoritmo, para liderar transformações grandiosas no Espírito Santo. Ignoram pesquisas, ignoram limitações, ignoram até as regiões do Estado que nunca visitaram. Acreditam porque querem acreditar — é a forma mais pura e perigosa de entusiasmo.
Na Grande Vitória, a proliferação desse fenômeno é ainda mais rápida. A proximidade dos poderes cria uma atmosfera onde o mais banal dos elogios pode virar o gatilho para a revelação. Uma entrevista cordial, uma foto com alguma autoridade, uma reunião de diretório mais animada… e pronto. A mosca azul pousa, cumpre seu destino de metáfora e deixa o político convencido de que meia dúzia de acenos equivalem a um clamor popular.
As redes sociais completam o roteiro com eficiência. Um vídeo com cem curtidas é interpretado como “onda de crescimento”. Um comentário elogioso vindo de perfil desconhecido vira “sinal de virada”. E aquele assessor entusiasmado, pago para motivar, transforma qualquer trivialidade em profecia eleitoral. Em pouco tempo, há slogan, bordão, jingle e até agenda no interior, onde o pré-candidato finalmente descobre que o Espírito Santo tem, de fato, 78 municípios.
Enquanto isso, o eleitor capixaba, sempre pragmático, observa tudo com o humor silencioso de quem já viu esse enredo se repetir mais vezes do que gostaria. Ele identifica a vítima da mosca azul de longe: há um brilho novo no discurso, um entusiasmo desalinhado, uma pressa involuntária de se anunciar como “a solução”. O eleitor escuta, acena, agradece — e segue vivendo. Já o pré-candidato sai convencido de que conversou com o “povo”, quando na verdade encontrou o mesmo grupo de apoiadores de sempre.
O final dessa história é conhecido. As candidaturas impossíveis evaporam antes das convenções. Os estrategistas recolhem o que buscavam desde o início: destaque, negociação, algum cargo futuro. Já os convictos encerram a pré-campanha com notas de agradecimento aos “capixabas que acreditaram no projeto”, prometendo voltar em breve — talvez na próxima temporada de voo da mosca azul, que nunca falha em encontrar novas cabeças dispostas a acreditar.
O Espírito Santo, pequeno em território, revela-se vasto em ambições. Entre projetos que nascem antes da viabilidade e sonhos que morrem antes do primeiro debate, seguimos assistindo a versões sucessivas da mesma fábula machadiana. A mosca azul continua voando. Continua picando. Continua distribuindo certezas onde só existe desejo.
E nós, capixabas — pacientes, irônicos, acostumados — continuamos observando.
Porque, na política local, o deslumbramento sempre volta.
E a mosca azul, essa velha especialista em sonhos alheios, nunca se aposenta.
Marcelo Rossoni é jornalista