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A Independência do Brasil: um grito, um cavalo e muitos privilégios

07/09/2025 00:01
A Independência do Brasil: um grito, um cavalo e muitos privilégios
*Por Marcelo RossoniEm 7 de setembro de 1822, às margens plácidas do riacho Ipiranga, um príncipe português montado em um cavalo – alguns dizem que era um burro, o que talvez fosse mais simbólico – bradou “Independência ou morte!”, proclamando a separação entre Brasil e Portugal. Pelo menos é assim que reza a lenda. O que nem sempre se diz é que a independência brasileira foi, na verdade, um grande acordo entre elites, costurado com sangue alheio e lacres de cera vermelha, selando uma ruptura sem abalar demais os alicerces do poder.Diferentemente de outras revoluções de independência, como a americana ou a francesa – que envolveram guilhotinas, pólvora, ideologias e massas em ebulição –, o processo brasileiro se deu de forma tão pacífica quanto um chá da tarde no Palácio de São Cristóvão. Nada de barricadas, motins populares ou proclamações radicais de liberdade. Por aqui, a independência foi feita de cima para baixo, por um príncipe herdeiro que preferia continuar no trono a voltar para a velha Europa e enfrentar a burocracia de Lisboa.Dom Pedro I, o protagonista do nosso grito, não era exatamente um revolucionário. Filho do rei Dom João VI, ele permaneceu no Brasil quando a corte portuguesa foi chamada de volta, em 1821. A elite agrária brasileira – preocupada com o retorno de velhas taxas e do controle lusitano sobre suas riquezas – convenceu o jovem regente de que valia mais a pena governar um país tropical e imenso do que ser coadjuvante no jogo político português. Em outras palavras, a independência foi, em grande medida, um rearranjo interno das classes dominantes, travestido de gesto heroico.De fato, o que mudou para o povo com a independência? Pouco ou quase nada. A escravidão continuou firme e forte por mais de seis décadas após o grito do Ipiranga. A estrutura agrária, concentradora e excludente, permaneceu intocada. Os indígenas continuaram sendo dizimados ou “civilizados” à força. E o novo país livre adotou como forma de governo uma monarquia hereditária. Sim, em nome da liberdade, instituímos um império. Ironia pouca é bobagem.Dom Pedro I assumiu como imperador do Brasil logo após a independência. E se mostrou, já nos primeiros anos, mais afeito a centralizar poderes do que a partilhar ideais liberais. O grito da independência virou decreto imperial. O novo Estado não promoveu reformas agrárias, não instituiu sufrágio universal, não ofereceu cidadania plena nem mesmo aos homens livres. O que tivemos foi a substituição de uma metrópole por um trono tropical, com os mesmos senhores de escravos, agora donos do próprio destino – e dos lucros das exportações de açúcar, café e ouro.Os custos da independência também não foram baixos. Para que Portugal aceitasse a separação sem muitos traumas, o Brasil concordou em pagar uma indenização de dois milhões de libras esterlinas ao antigo reino. Como o jovem império não dispunha dessa quantia, recorreu a um empréstimo britânico. Sim, o Brasil se endividou com a Inglaterra para comprar sua independência de Portugal. Trocaram-se grilhões lusos por coleiras financeiras britânicas. Troca justa, diriam os diplomatas da época. A influência britânica, aliás, cresceu exponencialmente nos anos seguintes. A independência política veio acompanhada de uma dependência econômica. O Império do Brasil, recém-nascido, passou a assinar tratados comerciais vantajosos para os ingleses, importando industrializados e exportando matérias-primas, em um modelo que garantiria nossa posição periférica no capitalismo mundial por mais um século e meio.O povo, é claro, ficou à margem da festa. Os camponeses, negros escravizados, artesãos e soldados da independência não ganharam cargos, títulos, muito menos liberdade. Não houve nenhuma convocação de assembleias populares, nenhum plebiscito, nenhum processo de educação política. A independência foi assinada, selada e celebrada entre taças de vinho do Porto e abraços entre fidalgos. O povo? Assistia de longe, quando muito.É curioso observar que o Brasil foi um dos poucos países a se tornar independente sem romper com sua estrutura aristocrática. A América espanhola se fragmentou em dezenas de repúblicas após sangrentas guerras civis e longos debates constitucionais. O Brasil, não. Preferimos um imperador. E não qualquer um: um português.A imagem do Ipiranga, com Dom Pedro brandindo uma espada em cima de um cavalo branco, ficou imortalizada nos livros didáticos e nas telas de Pedro Américo. Um retrato heroico, épico, nacionalista – e ficcional. Na verdade, o que houve ali foi uma comunicação oficial: uma carta que Dom Pedro recebeu da corte portuguesa exigindo sua volta. Irritado e, dizem, com dores intestinais, ele decidiu proclamar a ruptura. E pronto: nascia uma nação.Hoje, comemoramos a independência com desfiles militares, feriados patrióticos e discursos inflamados sobre liberdade. Mas a verdade é que nossa independência serviu mais para manter privilégios do que para democratizar a sociedade. Foi um pacto conservador, disfarçado de revolução. Uma libertação sem ruptura, um grito abafado pelo tilintar das taças de cristal do Palácio.Talvez por isso o Brasil tenha demorado tanto a democratizar-se de fato. A República só viria em 1889, também por mãos militares e fazendeiros insatisfeitos com a abolição da escravidão e sem participação popular. O voto universal masculino, apenas no século XX. O fim da escravidão, em 1888, foi mais um gesto tardio do que uma conquista das instituições. E o direito à cidadania plena, para todos, ainda parece uma promessa distante.A independência do Brasil, portanto, está mais para um arranjo elegante do que para uma revolução. Um golpe suave, aristocrático e conveniente. Uma independência que libertou a elite, mas esqueceu o povo. Um grito que ecoa até hoje, mais como lamento do que como celebração.*Marcelo Rossoni é jornalista

 

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