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A falácia do “vício” no Bolsa Família e a hipocrisia

10/09/2025 00:59
A falácia do “vício” no Bolsa Família e a hipocrisia
*Por Marcelo RossoniÉ recorrente, entre empresários especialmente os ligados ao agronegócio, a afirmação de que há escassez de mão de obra disponível no campo porque “muita gente prefere viver do Bolsa Família”. Essa narrativa, tantas vezes repetida em entrevistas, bastidores de eventos e grupos de WhatsApp do setor, é uma bobagem colossal. É mais que isso: trata-se de uma construção ideológica que serve para mascarar a precariedade das relações de trabalho oferecidas por esse mesmo setor e para culpar os mais pobres por sua própria pobreza.Antes de mais nada, é importante lembrar quem são esses empresários que fazem esse tipo de declaração. Em grande parte, são pessoas que enriqueceram financiadas por generosos aportes dos planos safra, subsídios estatais e políticas públicas que ofereceram crédito rural com juros baixíssimos, perdões de dívidas, incentivos fiscais e infraestrutura pública — estradas, energia, armazenamento — pagos com dinheiro público. Sem tirar o mérito de quem trabalha duro e empreende, é preciso reconhecer que muitos dos grandes nomes do agro brasileiro devem tanto ao Estado quanto qualquer beneficiário do Bolsa Família.Dito isso, soa profundamente hipócrita criticar os pobres que recebem R$600,00 de transferência de renda por mês enquanto se ignora que uma parte do agronegócio brasileiro opera sob um modelo sustentado por incentivos públicos que, somados, custam bilhões ao ano. Se o argumento é que o Bolsa Família “vicia”, como se fosse uma droga, por que o mesmo raciocínio não se aplica aos empresários que se beneficiam de crédito subsidiado há décadas?A ideia de que há milhões de brasileiros “viciados” no Bolsa Família, vivendo de forma confortável sem precisar trabalhar, é uma caricatura sem qualquer base de veracidade. A imensa maioria dos beneficiários trabalha, ou gostaria de trabalhar. O que falta não é vontade — é oportunidade digna. Em geral, os que recebem o benefício estão empregados de maneira informal, com rendimentos muito baixos, ou vivem em regiões onde o mercado de trabalho é inexistente ou extremamente precarizado.Não é difícil entender: se um empresário rural oferece um trabalho temporário, pesado, sob sol escaldante, sem carteira assinada, com salário miserável e condições muitas vezes degradantes, por que alguém abandonaria a única segurança financeira que possui — mesmo que mínima — para se submeter a esse tipo de exploração?Quando o empresário diz que “ninguém quer trabalhar”, o que ele não está dizendo é que ninguém quer ser explorado. E isso é bem diferente. Curiosamente, alguns desses empresários, ao tentar explicar a tal “escassez de mão de obra”, entregam sem querer o verdadeiro motivo. Dizem, por exemplo: “É só aumentar o salário que os trabalhadores aparecem. ” Ora, então o problema não é o Bolsa Família — é o salário oferecido. Se pagar melhor atrai trabalhadores, a conclusão lógica é que a remuneração anterior era insuficiente. Ou seja, o trabalho rural oferecido por muitos desses empreendimentos não é competitivo nem atrativo.Mas reconhecer isso exigiria assumir responsabilidade. É mais conveniente culpar o pobre.É importante destacar que o Bolsa Família não substitui a renda do trabalho. O valor médio pago é insuficiente para manter uma família com dignidade. Trata-se de um programa de combate à pobreza extrema, cujo objetivo é garantir um patamar mínimo de sobrevivência e fomentar o acesso à saúde, educação e alimentação. Quando bem gerido, o programa tem efeitos multiplicadores na economia local e reduz drasticamente a fome e a miséria.Além disso, pesquisas e relatórios mostram que o programa não desestimula o trabalho. Pelo contrário: ele pode funcionar como uma rede de segurança que permite que famílias busquem melhores oportunidades, invistam em pequenos empreendimentos ou simplesmente se recusem a aceitar condições de trabalho degradantes.A fala desses empresários não é apenas desinformada — ela é reveladora. Mostra o quanto uma parcela da elite econômica brasileira ainda opera a partir de uma mentalidade escravocrata, que enxerga o trabalhador como mão de obra barata, submissa e descartável. Quando esse trabalhador conquista um mínimo de autonomia, graças a um programa de transferência de renda, é imediatamente acusado de preguiçoso, viciado ou parasita do Estado.Essa narrativa, além de injusta, é perigosa. Ela alimenta o preconceito de classe, reforça estigmas sobre os mais pobres e serve como justificativa para cortar políticas públicas essenciais. Pior: ela impede que avancemos em um debate honesto sobre as verdadeiras causas da pobreza e da informalidade no Brasil.O discurso de que o Bolsa Família atrapalha o mercado de trabalho rural é, no fundo, um reflexo do incômodo de parte da elite com qualquer política que distribua poder — mesmo que mínimo — aos mais pobres. Se o trabalhador pode escolher, se ele tem um pouco mais de segurança para dizer “não” a uma proposta injusta, o jogo começa a mudar. E isso, para quem sempre esteve no controle, é inaceitável.É hora de abandonar esse discurso mesquinho e enfrentar os fatos com seriedade. O Bolsa Família não é o problema. O problema é um modelo econômico que naturaliza a desigualdade, a exploração e a concentração de renda. E isso, infelizmente, muitos empresários — sic — preferem não enxergar.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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