Por Marcelo Rossoni
Durante décadas, professores de economia repetiram em salas de aula uma espécie de dogma silencioso: certos caminhos conduzem ao crescimento; outros, inevitavelmente, ao atraso. Economias centralizadas, dominadas pelo Estado e comandadas por um partido único, seriam exemplos clássicos do segundo caso. A história da União Soviética parecia confirmar essa tese.
Foi então que apareceu a China — e decidiu não seguir o manual.
É claro que a afirmação de que o país “desafiou toda a teoria econômica” contém um certo exagero retórico. Mas não deixa de carregar um fundo de verdade. O modelo chinês embaralhou conceitos que durante muito tempo pareciam claros. Afinal, como classificar uma economia que combina planejamento estatal rigoroso com um mercado extremamente competitivo?
Para entender essa trajetória é preciso voltar ao final da década de 1970, quando o dirigente chinês Deng Xiaoping iniciou uma série de reformas que mudariam profundamente o rumo do país. Naquele momento, a China ainda era uma economia predominantemente rural, marcada por baixos níveis de produtividade e por décadas de isolamento internacional.
Deng Xiaoping adotou uma postura pragmática que contrariava os purismos ideológicos. A frase atribuída a ele — “não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace ratos” — tornou-se quase um manifesto político. O objetivo deixou de ser provar a superioridade teórica de um sistema e passou a ser algo mais simples: produzir crescimento econômico.
O método escolhido foi, no mínimo, heterodoxo.
O país manteve o controle político do Partido Comunista, preservou empresas estatais gigantescas e continuou utilizando instrumentos clássicos de planejamento. Ao mesmo tempo, abriu espaço para investimento estrangeiro, criou zonas econômicas especiais, estimulou exportações e permitiu o surgimento de um vibrante setor privado.
Para muitos economistas, aquilo parecia uma mistura improvável.
Durante décadas, o debate acadêmico foi marcado por uma oposição quase didática entre mercado e Estado. De um lado, economias capitalistas baseadas na livre iniciativa; de outro, sistemas planificados, nos quais o governo define produção, preços e investimentos. A experiência soviética parecia demonstrar que o segundo modelo era incapaz de sustentar crescimento de longo prazo.
A China resolveu testar uma terceira via — ainda que raramente use essa expressão.
O resultado é conhecido. Nas últimas quatro décadas, o país registrou uma das mais rápidas transformações econômicas da história moderna. Centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza, cidades inteiras surgiram onde antes havia campos agrícolas e a indústria chinesa tornou-se peça central das cadeias produtivas globais.
Hoje, a China disputa com os Estados Unidos a liderança da economia mundial e ocupa posição estratégica em setores tecnológicos que vão da inteligência artificial às energias renováveis.
Nada disso ocorreu seguindo à risca os manuais tradicionais.
Curiosamente, muitos economistas passaram a reconhecer que o sucesso chinês talvez esteja justamente na ausência de dogmas rígidos. O país adotou mercados quando eles se mostraram úteis, preservou instrumentos de planejamento quando julgou necessário e manteve um Estado capaz de direcionar investimentos de longo prazo.
Em outras palavras, a China transformou a economia em um laboratório de experimentação.
Isso não significa que o modelo seja isento de contradições. O crescimento acelerado trouxe também desafios relevantes: desigualdade regional, envelhecimento populacional, tensões comerciais e um delicado equilíbrio entre controle político e dinamismo econômico.
Ainda assim, o fato permanece: poucos países conseguiram promover uma transformação social tão ampla em tão pouco tempo.
O caso chinês oferece uma lição incômoda para os puristas da teoria econômica. Sistemas reais raramente obedecem às classificações perfeitas que aparecem nos livros. Entre o capitalismo clássico e a economia totalmente planificada existe um vasto território de combinações institucionais.
A China decidiu ocupar esse espaço.
Talvez seja cedo para afirmar se esse modelo será replicado por outros países ou se permanecerá como uma experiência singular da história econômica. Mas uma coisa parece clara: o crescimento chinês obrigou economistas a revisar certezas que durante muito tempo foram tratadas como verdades definitivas.
Em economia, como na vida, a realidade costuma ter pouca paciência com dogmas.
E, às vezes, um país inteiro resolve provar isso na prática.
Marcelo Rossoni é Jornalista