Por Marcelo Rossoni
Quando os primeiros jesuítas desembarcaram no Brasil, não vieram apenas com a cruz. Trouxeram uma certeza inabalável: a de que Deus já havia escolhido o lado correto da história e que cabia a eles conduzir os indígenas até essa verdade. Tupã, os rituais ancestrais, os cantos e as crenças que organizavam a vida das aldeias precisavam ceder espaço a uma nova ordem espiritual.
O projeto era religioso, mas também político, cultural e econômico. Os jesuítas integravam a Companhia de Jesus, uma das organizações mais influentes de seu tempo. Embora não fosse uma empresa no sentido contemporâneo da palavra, a ordem administrava colégios, fazendas, missões e extensas propriedades, acumulando patrimônio e exercendo considerável influência em diferentes continentes.
Sua presença se espalhou pela América, Ásia, África e Europa. Estavam no Brasil, no Paraguai, na Argentina, no México e no Peru. Cruzaram oceanos para alcançar o Japão, a China e a Índia. Mantinham missões em Angola e Moçambique e exerciam influência em diversos países europeus. Onde se estabeleciam, levavam escolas, catecismos, igrejas e uma convicção raramente negociável: a de que existia apenas uma forma correta de compreender o mundo.
Naturalmente, nem tudo se resumia à fé. A evangelização caminhava lado a lado com os projetos de ocupação territorial e expansão política das monarquias europeias. A cruz e a bandeira, muitas vezes, viajavam no mesmo navio.
Cinco séculos depois, muita coisa mudou. As caravelas desapareceram, o império português virou capítulo dos livros escolares e as antigas missões ficaram para trás. As circunstâncias históricas são incomparáveis em diversos aspectos. Já não existem impérios coloniais impondo uma religião oficial nem missões respaldadas pelo poder da Coroa. Ainda assim, certos mecanismos de convencimento e disputa por influência cultural parecem atravessar o tempo com admirável capacidade de adaptação.
Os missionários contemporâneos não chegam pelo mar. Descem de aeronaves executivas, atravessam aeroportos carregando malas de grife e exibem relógios que custam mais do que o orçamento anual de muitas famílias brasileiras. Alguns transformaram a prosperidade em argumento teológico. A riqueza deixou de ser consequência possível da fé para se tornar prova material dela.
O cenário é outro, mas a mecânica continua familiar. No passado, o desafio consistia em substituir a cosmologia indígena pela doutrina cristã. Hoje, determinados grupos religiosos concentram seus esforços em espaços de formação cultural e intelectual. Não se trata apenas de evangelizar indivíduos. A disputa passa a envolver também o significado dos ambientes que eles ocupam.
Em diferentes regiões da Amazônia, ainda existem relatos de missionários que desencorajam práticas tradicionais, condenam cerimônias ancestrais e classificam manifestações culturais locais como incompatíveis com a nova fé. O que antes constituía patrimônio simbólico de uma comunidade passa a ser visto como erro espiritual. A linguagem mudou, mas a lógica permanece reconhecível.
Algo semelhante ocorre quando determinadas lideranças religiosas descrevem a universidade como um território de risco moral ou espiritual. Não raro, ela é apresentada como um ambiente capaz de enfraquecer convicções, relativizar valores ou afastar jovens de suas crenças. O conhecimento deixa de ser oportunidade de reflexão para ser percebido, por alguns, como uma ameaça.
A desconfiança em relação ao pensamento crítico não é exatamente uma novidade histórica. Estruturas baseadas em certezas absolutas costumam enxergar com cautela os ambientes onde perguntas são mais valorizadas do que respostas prontas. Filosofia, sociologia, ciência política e mesmo algumas áreas das ciências naturais acabam, por vezes, ocupando o banco dos réus.
Foi nesse contexto que ganhou repercussão a declaração do pastor André Valadão segundo a qual seria preferível que um jovem vendesse picolé na garagem a frequentar uma universidade. A frase provocou debates justamente por sintetizar uma visão segundo a qual determinados ambientes acadêmicos representariam risco à formação espiritual. Entre a investigação racional e a certeza dogmática, a escolha já estaria previamente definida.
É também nesse ambiente que florescem iniciativas como o Aviva Universitário. Organizado por jovens evangélicos, o movimento promove encontros em instituições de ensino superior e apresenta suas atividades como uma renovação da fé dentro dos campi. Pátios se transformam em locais de oração, corredores recebem grupos de louvor e as redes sociais amplificam cada encontro para milhares de pessoas.
Há, evidentemente, um componente geracional nessa estratégia. A comunicação é rápida, visual e pensada para circular em plataformas digitais. Os antigos relatos enviados por missionários através de cartas deram lugar a vídeos curtos, transmissões ao vivo e publicações cuidadosamente editadas. O método mudou. A intenção de mobilizar seguidores, não.
Quando surgem restrições administrativas relacionadas a autorizações ou ao uso dos espaços universitários, frequentemente aparecem acusações de perseguição religiosa. Procedimentos burocráticos passam a ser interpretados como obstáculos ideológicos. O conflito ganha dimensão simbólica e alimenta narrativas de resistência.
Muitos dos jovens atraídos por esses movimentos não procuram apenas experiências espirituais. Buscam pertencimento. Chegam às universidades longe da família, enfrentam inseguranças, dúvidas sobre o futuro e a sensação de anonimato típica dos grandes campi. Encontram nesses grupos amizades, acolhimento, escuta e um senso de propósito compartilhado. Ignorar essa dimensão humana seria compreender apenas parcialmente o fenômeno.
O problema surge quando a pluralidade cede espaço à convicção de que apenas uma visão possui legitimidade. A universidade existe justamente para acomodar divergências. Seu papel não é produzir unanimidades, mas permitir que ideias concorrentes sejam debatidas, questionadas e confrontadas.
Nesse ponto, a semelhança histórica se torna mais perceptível. Não porque os contextos sejam iguais — evidentemente não são —, mas porque certos discursos continuam partindo da premissa de que existe uma verdade superior capaz de dispensar o diálogo com outras formas de compreender a realidade.
A antiga catequese colonial frequentemente negava legitimidade às crenças do outro em nome da salvação. Certas narrativas contemporâneas reproduzem mecanismo semelhante ao sugerir que filósofos, cientistas, intelectuais ou instituições acadêmicas representam obstáculos a serem superados em nome de uma verdade previamente estabelecida.
Enquanto isso, a vida universitária segue seu ritmo peculiar. Há aulas canceladas, pesquisas inovadoras, greves ocasionais, cafés intermináveis e filas no bandejão. Entre um seminário e outro, surgem cultos, debates políticos, apresentações culturais e toda sorte de manifestações humanas que compõem a experiência acadêmica.
Talvez seja justamente essa convivência de diferenças que incomode os defensores das certezas absolutas. A universidade não oferece respostas definitivas. Ela insiste em fazer perguntas.
E perguntas, como a história demonstra, costumam ser muito mais difíceis de converter do que pessoas.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas