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15 de novembro foi a primeira quartelada que nos venderam como feriado patriótico

13/11/2025 00:57
15 de novembro foi a primeira quartelada que nos venderam como feriado patriótico
*Por Marcelo RossoniDizem que o Brasil se tornou uma República em 15 de novembro de 1889. É verdade. Mas o que muitos ainda não dizem — ou dizem com vergonha — é que a República foi proclamada por meia dúzia de generais mal-humorados, com apoio entusiasmado de fazendeiros ressentidos que haviam perdido seus escravos um ano antes. Não havia povo na rua, nem multidão gritando “República já!”. Houve apenas uma quartelada, nossa primeira e talvez mais bem-sucedida, aplicada com toda a finesse de um golpe de Estado à moda do século XIX.A história oficial tenta romantizar. Fala em "ideais republicanos", "influência  do clero" e "o fim natural de um regime esgotado". Na prática, foi um baita chilique das elites. Os militares, incomodados com a falta de prestígio e salário, e os barões do café, inconformados com a perda de seus “ativos humanos”, resolveram se juntar para derrubar o imperador. Não foi por liberdade, igualdade ou fraternidade. Foi por despeito.Dom Pedro II, que não era nenhum revolucionário, viu o golpe acontecer com fleuma imperial. Mas quem realmente acendeu o pavio da revolta foi sua filha, a princesa Isabel, ao assinar — em 13 de maio de 1888 — a temida e odiada Lei Áurea. A princesa, que ficou com fama de “redentora”, aboliu oficialmente a escravidão no Brasil. O detalhe é que não ofereceu qualquer tipo de indenização ou emprego aos negros libertados. Os donos de escravos, que também ficaram indignados: quer dizer que não dá mais pra explorar gente de graça?! O Império perdeu o apoio da elite em dois tempos.Sentindo-se traídos, esses senhores de terra trataram de conspirar com os militares. No Exército, já havia um ranço antigo contra o regime. Os oficiais se viam como heróis sem glória, mal pagos, preteridos pela nobreza. Influenciados por ideias positivistas e por um republicanismo de gabinete, começaram a achar que o Brasil precisava ser "salvo" pela espada. Estava pronto o caldo do golpe.E ele veio de forma quase constrangedora. No 15 de novembro seguinte, o marechal Deodoro da Fonseca — com bronquite, mal disposto e aparentemente sem muito entusiasmo — foi convencido de que seria preso e resolveu agir. Montou num cavalo emprestado, proclamou a República na marra e dissolveu o gabinete do visconde de Ouro Preto. O imperador, em Petrópolis, foi informado da mudança pelo jornal. Sem resistência, fez as malas e partiu. Não houve revolução, não houve participação popular, não houve sequer uma passeata. Foi uma troca de regime decidida por um grupo seleto de senhores engravatados e militares de bigode. O povo? Seguia alheio. No dia seguinte, muitos achavam que tudo voltaria ao normal. Não voltou. E o que veio com a República? Nada de muito novo. A mesma elite, agora com roupagem cívica, seguiu mandando. Os ex-escravizados, recém-libertos por decreto, continuaram à margem. As mulheres seguiram sem direito a voto. Os pobres, como sempre, só eram lembrados na hora de pagar impostos — e, eventualmente, morrer em alguma revolta sufocada a bala. A diferença era o discurso: antes se falava em “Deus, Pátria e Imperador”; agora, em “Ordem e Progresso”. Mas o latifúndio continuava firme, a desigualdade também, e o povo seguia sem ser consultado sobre absolutamente nada.A Constituição de 1891, escrita às pressas, foi pensada para manter tudo como estava — só que com nova logomarca. Nada de Assembleia Constituinte originária, nada de ampla discussão. O marechal Deodoro governou como um imperador sem coroa e, quando o Congresso resolveu dizer “não” a alguma coisa, ele o fechou. Em seguida, renunciou, dando lugar ao vice, Floriano Peixoto, que reforçou o padrão: se você discordasse, era na base da baioneta.A chamada Primeira República foi uma oligarquia maquiada de democracia, com eleições de fachada, voto de cabresto e domínio das mesmas famílias de sempre. São Paulo e Minas Gerais alternavam o poder como num clube do Bolinha. A República era do café com leite — mas o povo só bebia água suja.E ainda assim, todo ano, celebramos o 15 de novembro como se fosse a grande virada nacional. Feriado, bandeirinhas, aula na escola. Mas no fundo, o que estamos comemorando? Uma quartelada de elite, movida por mágoas e ressentimentos, que fundou uma República sem povo, sem projeto social e sem compromisso real com a democracia.A ironia histórica é gritante: a monarquia, com todos os seus vícios, começava a dar passos (ainda que tímidos) em direção à modernização social. Já a República brasileira, nascida de farda, tratou logo de manter a ordem — não a justiça. O símbolo dessa República é a espada, não o voto.Talvez por isso a tentação golpista continue nos assombrando. Desde 1889, a ideia de que as Forças Armadas podem “salvar a Pátria” nunca desapareceu. De tempos em tempos, um novo marechal, general, ou um capitão reformado aparece prometendo restaurar a ordem. E o povo, que nunca foi chamado a decidir quando a República começou, continua sendo convidado apenas para bater palma, fazer chacrinha na porta dos quarteis — ou pagar a conta.No fim das contas, talvez a pergunta mais incômoda seja esta: e se a República não foi, desde o início, um projeto de nação, mas apenas um plano de continuidade dos privilégios, agora com outro nome e outro uniforme?

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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