Segunda-feira, 2 de Novembro de 2026 | 17h43m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Sustentabilidade

Turismo de baleias gera renda e incentiva conservação em Abrolhos

Observação de jubartes amplia movimento fora do verão e aproxima visitantes da proteção da vida marinha

Vitória News 02/11/2026 10:14
Turismo de baleias gera renda e incentiva conservação em Abrolhos
Foto: Tânia Rêgo/ABr

A recuperação das baleias-jubarte no litoral brasileiro abriu espaço para uma atividade que combina geração de renda e conservação: o turismo de observação. Em Caravelas, no sul da Bahia, os passeios para avistar os animais ampliaram o movimento de visitantes durante o inverno, criando uma temporada além das viagens de verão.

Feliz Automóveis

O arquipélago dos Abrolhos é um dos principais destinos dessa atividade. A região recebe jubartes que deixam suas áreas de alimentação no Atlântico Sul para acasalar e dar à luz em águas mais quentes.

Para o empresário e piloto de embarcações Paulo Salomão, a mudança transformou a rotina do turismo local. Filho de pescador, ele começou a acompanhar o pai no mar ainda criança e, depois, passou a transportar visitantes e ensinar mergulho.

Hoje, possui quatro embarcações e emprega dez trabalhadores. Segundo ele, a procura pelas baleias passou a ter peso decisivo no negócio.

“Há uns dez anos, o maior fluxo de pessoas passou a ser em julho e agosto. Hoje só agosto, que é o pico, ganha dos três meses de verão. Todo mundo vem pra ver as baleias.”

O aumento da movimentação também criou oportunidades para moradores que passaram a trabalhar nas embarcações e nos serviços associados aos passeios.

“Antes a gente só contava com o verão, era só uma temporada que a gente tinha. Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também. E é um dinheiro a mais que circula no município”, afirma Salomão.

SESC 20 DE OUTUBRO

Esse crescimento acompanha a recuperação da espécie. Segundo estimativas do Instituto Baleia Jubarte, a população que frequenta o litoral brasileiro passou de menos de 2 mil indivíduos, no início dos anos 1990, para cerca de 35 mil em 2022.

A proibição da caça, a proteção das áreas de reprodução e o trabalho de pesquisa e conservação contribuíram para essa trajetória. O Projeto Baleia Jubarte surgiu em 1988 e foi formalizado como instituto em 1996.

Para o diretor-executivo da instituição, Eduardo Camargo, a observação turística contribui para a proteção porque agrega valor econômico à baleia viva. O benefício, ressalta, depende de uma atividade conduzida com responsabilidade.

Na avaliação dele, é necessário estabelecer condições de convivência que preservem os animais e considerem as comunidades que dependem do mar para trabalhar.

O instituto oferece capacitação a operadores em parceria com municípios. As atividades abordam cuidados na aproximação das embarcações e práticas para evitar interferências no comportamento das baleias.

CONTADOR - BONUS

“A gente debate, apresenta as regras. Todos os anos, agrega pessoas novas, então sempre tem que voltar atrás e lembrar tudo de novo. Algumas localidades implantaram um selo de responsabilidade e fizeram um acordo de cooperação com o Instituto. Então, só ganha o selo de Amigo da Baleia quem faz a capacitação”, explica Camargo.

A experiência também pode fortalecer o interesse dos visitantes pela conservação. Para o diretor, o contato com os animais em seu ambiente natural ajuda a aproximar o público dos problemas que afetam os oceanos.

“Ver as baleias é uma experiência que muda as pessoas. Faz, talvez, ela consumir menos plástico, separar melhor seu lixo... E todas essas coisas vão fazer diferença não só pras baleias, mas para todos nós”, afirma.

A turista mineira Deise Gomes Valente decidiu conhecer Abrolhos depois de ver uma reportagem sobre as jubartes. Segundo ela, o encontro correspondeu à expectativa.

“Quando a primeira baleia apareceu, na hora, o meu olho encheu de água. É uma experiência incrível, ainda mais porque a gente está vendo elas no seu habitat natural, não é como ir a um aquário, ou zoológico e ver os bichos presos”, relata.

Anuncio - Raimundo - Bonus

O Espírito Santo também faz parte desse circuito. A paulista Karina Moraes saiu de Vitória com amigos em uma embarcação particular rumo a Abrolhos. A viagem durou 36 horas, com ondas que chegaram a três metros, mas ela considera que os avistamentos compensaram as dificuldades.

“Nós vimos muitas no caminho, uma passou bem do nosso lado. Quando ela levantou a nadadeira, bem assim ó, lá no alto, foi sensacional!”

Além das expedições, o Instituto Baleia Jubarte mantém centros de visitação em Vitória, Caravelas, Praia do Forte, Itacaré e Ilhabela, além de um ponto de observação em Porto Seguro. A instituição também embarca profissionais em passeios de operadores parceiros para desenvolver atividades educativas e coletar informações científicas.

O diretor de Pesquisa, Milton Marcondes, destaca que a importância das baleias vai além do turismo. Os animais participam da circulação de nutrientes no oceano, contribuindo para a produtividade marinha.

“É importante conservar as baleias, não só porque elas são bonitas e geram renda com o turismo, mas porque elas têm um grande papel para o planeta como um todo. Quando elas se alimentam na Antártica e defecam aqui, elas estão jogando nutrientes na água, o que aumenta a produtividade de várias espécies, inclusive de peixes de pesqueiro”, explica.

Compartilhe esta notícia