Soja, milho, arroz e trigo estão entre as culturas mais expostas; planejamento do solo e drenagem podem reduzir prejuízos

O El Niño 2026/2027 poderá provocar chuvas intensas, tempestades e excesso de umidade nos estados do Sul do Brasil, aumentando os riscos de perdas na produção agropecuária. O alerta é da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que recomenda aos produtores rurais reforçar o planejamento das lavouras e adotar medidas preventivas para reduzir os impactos do fenômeno climático.
As projeções indicam maior probabilidade de precipitações volumosas e concentradas, especialmente entre setembro e dezembro, além de períodos prolongados de nebulosidade. Essas condições podem dificultar o plantio e a colheita, favorecer doenças nas plantas e comprometer a qualidade dos produtos agrícolas.
Entre as culturas mais vulneráveis estão soja, milho, arroz irrigado, trigo, cevada, aveia, hortaliças e frutas de clima temperado. Pastagens e atividades de silvicultura também poderão ser afetadas.
A Embrapa ressalta, entretanto, que os efeitos não serão iguais em todas as propriedades. A intensidade dos prejuízos dependerá das condições locais, da cultura, da fase de desenvolvimento das plantas e das práticas de manejo utilizadas.
Excesso de chuva pode prejudicar solo e produtividade
Um dos principais riscos associados ao El Niño no Sul é o encharcamento do solo.
Quando a água permanece acumulada por períodos prolongados, a disponibilidade de oxigênio para as raízes diminui, prejudicando o desenvolvimento das plantas.
As chuvas intensas também podem provocar erosão e arrastar nutrientes e fertilizantes, comprometendo a fertilidade do solo e aumentando os custos de produção.
Outro problema é a redução da incidência de luz solar durante períodos de nebulosidade persistente. A menor disponibilidade de radiação pode prejudicar a floração, o enchimento dos grãos e a maturação das frutas.
A umidade elevada também favorece a ocorrência de doenças em diferentes culturas, exigindo maior atenção ao monitoramento fitossanitário.
Soja, milho e trigo exigem cuidados específicos
Na produção de soja e milho, a Embrapa recomenda manter o solo protegido com cobertura vegetal formada durante o outono e o inverno.
Essa prática contribui para diminuir a erosão e reduzir os efeitos das enxurradas.
No milho, a instituição orienta avaliar o parcelamento da adubação nitrogenada de cobertura em duas ou três aplicações, preferencialmente durante períodos de tempo seco, conforme as recomendações técnicas para cada lavoura.
O monitoramento de doenças foliares e radiculares também deve ser intensificado.
Para os cereais de inverno, como trigo, cevada, aveia, triticale e centeio, a orientação inclui escolher cultivares com maior resistência a doenças, escalonar a semeadura e adotar a rotação de culturas.
O planejamento da colheita é outro ponto importante. Em determinadas situações, a antecipação da operação, acompanhada de secagem artificial, pode ajudar a reduzir perdas provocadas pela chegada de novas frentes de chuva.
Arroz irrigado também está entre as culturas vulneráveis
Embora o arroz irrigado dependa da disponibilidade de água, o excesso de chuva e a baixa luminosidade podem prejudicar seu desenvolvimento.
A Embrapa recomenda o uso de ferramentas de planejamento, como o aplicativo PlanejArroz, para ajustar o ciclo produtivo.
Uma das estratégias é buscar condições favoráveis de radiação solar durante a fase reprodutiva, etapa importante para a produtividade da cultura.
A instituição também destaca a possibilidade de aproveitar a água das chuvas para reduzir os custos de bombeamento, desde que o manejo seja compatível com as condições das lavouras.
Tempestades ameaçam pomares, pastagens e florestas
Os riscos associados ao El Niño não se limitam à produção de grãos.
Na fruticultura, períodos prolongados de umidade podem aumentar a ocorrência de doenças e dificultar a maturação e a colheita.
Tempestades, ventos fortes e granizo também podem provocar danos em pomares, lavouras e instalações rurais.
Nas pastagens, o excesso de água pode comprometer a qualidade da forragem, favorecer a compactação do solo e dificultar o manejo dos animais.
Já na silvicultura, rajadas intensas de vento podem causar quebra de troncos, tombamento de árvores e danos à infraestrutura utilizada na produção florestal.
Planejamento por microbacia é prioridade
Uma das principais recomendações da Embrapa para a Região Sul é que o planejamento ultrapasse os limites de cada propriedade rural.
A instituição defende a adoção de estratégias organizadas por microbacia hidrográfica, considerando o comportamento da água em diferentes áreas de uma mesma região.
Na prática, isso significa coordenar medidas de conservação do solo, drenagem e controle do escoamento das chuvas.
O manejo adequado nas partes mais altas das propriedades pode contribuir para reduzir a velocidade das enxurradas e diminuir o risco de inundações nas áreas mais baixas.
Entre as medidas recomendadas estão a manutenção da cobertura vegetal, a proteção de áreas suscetíveis à erosão e o planejamento das estruturas de drenagem.
A Embrapa também orienta os produtores a respeitar as janelas de plantio indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).
Esse instrumento identifica os períodos de menor risco para o cultivo, considerando características do solo, condições climáticas e exigências de cada cultura.
Produtores devem acompanhar previsões e organizar colheitas
Além das práticas de conservação do solo, a Embrapa recomenda atenção ao planejamento operacional das propriedades.
O escalonamento da semeadura pode diminuir a concentração de riscos em uma única fase do desenvolvimento das lavouras.
Também é importante organizar com antecedência as etapas de colheita, secagem, armazenamento e transporte dos produtos.
Em períodos de chuvas persistentes, dificuldades de acesso às lavouras e atrasos no transporte podem comprometer a qualidade dos grãos e ampliar os custos.
Por isso, o acompanhamento frequente das previsões meteorológicas deve fazer parte das decisões dos produtores durante o ciclo agrícola.
Ministério da Agricultura disponibiliza plataforma sobre o El Niño
Para auxiliar o setor produtivo, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), disponibilizou a plataforma El Niño Agro.
O serviço reúne informações sobre os impactos do fenômeno climático na agropecuária brasileira, além de orientações relacionadas à prevenção de perdas.
Entre os conteúdos disponíveis estão dados meteorológicos, recomendações técnicas da Embrapa, informações sobre seguro rural, crédito agrícola e Zoneamento Agrícola de Risco Climático.
A iniciativa busca apoiar decisões sobre plantio, manejo e investimentos, permitindo que os produtores considerem os riscos climáticos antes de iniciar novas atividades.
Embrapa reforça necessidade de prevenção
As orientações fazem parte de um conjunto de estudos técnicos elaborados pela Embrapa para diferentes regiões brasileiras.
Em setembro, a instituição apresentou ao Ministério da Agricultura um conjunto de 163 medidas destinadas à gestão de riscos climáticos associados ao El Niño 2026/2027.
Para o Sul, a principal preocupação é o excesso de precipitação, enquanto outras regiões brasileiras poderão enfrentar condições diferentes, incluindo estiagem e temperaturas elevadas.
A Embrapa ressalta que as projeções representam cenários de risco, e não a confirmação antecipada de perdas nas lavouras.
O planejamento agrícola, a assistência técnica e a adoção de medidas preventivas são apontados como instrumentos importantes para reduzir os prejuízos e preservar a capacidade produtiva diante de eventos climáticos extremos.