Pesquisa com 2.500 empresas mostra que rodovias precárias e custos de energia e logística prejudicam a competitividade

O transporte é o principal gargalo da infraestrutura brasileira para cerca de 75% dos empresários industriais, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A baixa qualidade e a falta de conservação das rodovias lideram as prioridades de investimento no setor, mencionadas por 55% dos entrevistados.
A pesquisa Panorama da Infraestrutura: Principais Demandas da Indústria Brasileira ouviu executivos de 2.500 empresas de médio e grande portes nas 27 unidades da Federação. O diagnóstico reúne avaliações sobre transportes, energia elétrica, saneamento e telecomunicações, além de propostas para melhorar os serviços.
Os custos logísticos aumentaram nos últimos dez anos para 91% dos entrevistados. Para 70%, a alta foi expressiva e provocou perda de competitividade. As despesas com logística são consideradas altas ou muito altas por 75% dos executivos, enquanto a conta de energia recebe a mesma avaliação de 81%.
“Quando temos um preço maior tanto para energia quanto para transporte, esse efeito deve atingir toda a economia, afetando custos de produção, especialmente custos com os insumos e a distribuição dos bens ao consumidor final”, afirma o especialista em Infraestrutura da CNI, Ramon Cunha.
A dependência das rodovias ajuda a dimensionar o desafio. Entre as empresas pesquisadas, 98% utilizam o transporte rodoviário para escoar a produção. Mesmo em longas distâncias, os caminhões permanecem presentes: 23% das usuárias desse modal transportam mercadorias por mais de 1.600 quilômetros.
Para a CNI, a combinação de infraestrutura deficiente, concentração do transporte nas estradas e custos associados ao ambiente regulatório encarece a movimentação de cargas.
Além da conservação das rodovias, os empresários apontam como prioridades a baixa disponibilidade de ferrovias em operação, citada por 24%, e a escassez de portos secos, mencionada por 6%. Esses terminais permitem realizar procedimentos aduaneiros fora dos portos e aeroportos. Limitações nos acessos terrestres e marítimos aos portos aparecem com 5%, seguidas pela insuficiência da capacidade dos terminais portuários, com 4%.
Ferrovias têm a pior avaliação
A percepção sobre a qualidade da infraestrutura varia conforme o serviço. Os aeroportos apresentam a maior avaliação positiva, com 64%, seguidos por telecomunicações, com 62%, e energia elétrica, com 60%.
O saneamento básico recebe avaliação favorável de 48% dos entrevistados. Na sequência aparecem portos, com 44%, rodovias, com 38%, hidrovias, com 27%, e ferrovias, com 21%.
Segundo Ramon Cunha, os segmentos mais bem avaliados passaram por mudanças na estrutura de investimentos e regulação. O especialista também identifica avanços nas rodovias e no saneamento.
“O setor de rodovias passou recentemente por um processo intenso de aperfeiçoamento de modelagem, repactuação dos contratos antigos e novos investimentos privados na malha. Assim como o setor de saneamento, que também teve um marco regulatório importante aprovado em 2020, com métricas objetivas de universalização desse serviço”, destaca.
Nas ferrovias, a CNI aponta trechos abandonados ou subutilizados. Nas hidrovias, as necessidades incluem dragagem, sinalização e levantamentos da profundidade dos canais de navegação.
Falhas de energia e internet afetam a produção
No fornecimento de energia, a frequência de interrupções e quedas é o principal problema identificado, com 27% das respostas. A demora para restabelecer o serviço aparece com 21%, enquanto a capacidade insuficiente da rede para acompanhar a expansão industrial é citada por 16%.
A entidade também chama atenção para o peso dos encargos, subsídios e tributos na tarifa. Segundo os dados apresentados, esses componentes representam cerca de 44% da conta de luz, sendo 18% referentes a encargos e 26% a impostos.
Nas telecomunicações, a qualidade e a instabilidade da internet lideram as dificuldades, com 31% das respostas. A baixa disponibilidade de redes 5G em áreas industriais é mencionada por 23%, seguida pela cobertura limitada em regiões remotas, com 21%.
No saneamento, o principal entrave é a infraestrutura regional insuficiente para tratamento e destinação de efluentes, apontada por 24%. Também são citadas a vulnerabilidade das redes a eventos climáticos, as perdas de água e a oferta limitada de infraestrutura para reúso.
Empresas consideram mudar o transporte de cargas
O levantamento indica disposição para diversificar a logística. Entre os empresários que utilizam rodovias, 45% aceitariam transferir parte ou a totalidade das cargas para outros meios de transporte, caso existissem condições adequadas de infraestrutura.
Nesse grupo, as ferrovias são a principal alternativa, apontadas por 67%. O transporte aéreo aparece com 21%, e o aquaviário, com 12%.
A redução de custos é o principal motivo para a mudança, mencionada por 82% dos executivos. A diminuição de acidentes, das emissões de gases e dos roubos de cargas também influencia essa disposição.
A CNI defende maior integração entre caminhões, ferrovias, hidrovias e cabotagem, o transporte marítimo entre portos do país. A proposta é concentrar o uso rodoviário nos percursos curtos e médios e ampliar as alternativas para trajetos mais longos.
Investimentos e regras estáveis
Para 99% dos entrevistados, a infraestrutura é vital para a competitividade dos negócios. O estímulo aos investimentos públicos e privados é defendido por 98%, enquanto 63% consideram os transportes uma prioridade estratégica.
O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, destaca que a atração de capital privado precisa ser acompanhada por condições regulatórias e institucionais favoráveis.
“Telecomunicações e aeroportos mostram como a combinação entre investimento privado e ambientes regulatórios mais maduros, com regras mais estáveis e modelos consolidados, pode contribuir para expandir a infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços prestados”, afirma.
Além do diagnóstico, o documento reúne propostas nacionais e 500 demandas locais identificadas pelas federações das indústrias.
“São gargalos que encarecem a produção, ampliam o Custo Brasil e comprometem a competitividade da indústria brasileira”, afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.
A pesquisa foi realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Com informações da Confederação Nacional da Indústria.