Ato convocado em Niterói no dia seguinte à votação reuniu centenas de pessoas e antecedeu manifestações em defesa da educação pública e da democracia

Uma manifestação organizada por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), no dia seguinte ao primeiro turno das eleições, marcou o início de uma mobilização que ganhou as ruas em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Convocado inicialmente para reunir a comunidade universitária, o encontro de 5 de outubro cresceu e se transformou em uma passeata com centenas de pessoas em Niterói.
A articulação começou na noite anterior, quando o resultado das urnas colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula. Estudantes de Direito decidiram organizar uma resposta, motivados principalmente pela preocupação com o futuro das universidades públicas.
“O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento”, dizia o cartaz divulgado pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e pela Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro.
Na noite chuvosa de segunda-feira, moradores e pessoas que passavam pelo caminho se juntaram aos universitários. A caminhada passou pela reitoria da UFF, em Icaraí, e retornou à Faculdade de Direito, no Ingá.
Educação pública motivou participação
Para Valentina Cruz, diretora do centro acadêmico de Direito, uma das preocupações era a proposta de transferir as universidades do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência e Tecnologia.
“Ele tinha como proposta tirar as universidades do Ministério da Educação e passar para o de Ciência e Tecnologia, que tem menos verbas”, afirmou.
Na avaliação da estudante, a experiência de restrições orçamentárias durante o governo de Jair Bolsonaro reforçou o receio de novos cortes na infraestrutura e na assistência estudantil.
Simão Gabriel Adorno, integrante da atlética de Direito, também relacionou a mobilização à defesa da universidade.
“A gente sentia que estava arriscando a perder nossa faculdade, a nossa casa. A educação pública estava em risco”, declarou.
Do pátio para as ruas
O ato ganhou a adesão de estudantes de outros cursos. Quando o espaço previsto para a concentração ficou pequeno, os participantes decidiram sair em caminhada.
Entre as entidades que se somaram à mobilização estava o Centro Acadêmico de Relações Internacionais Sérgio Vieira de Melo. Seu diretor, Cauê Moraes Marins da Silva, de 22 anos, afirmou que a defesa da democracia foi uma das motivações.
“Vimos nosso país ameaçado, nossa democracia em risco, observamos as movimentações do governo Trump e decidimos ser um ponto de resistência no Sul Global”, disse.
Valentina recordou a aproximação de uma aposentada que acompanhou os estudantes mesmo sob chuva. Cauê, por outro lado, relatou que ovos foram lançados de sacadas contra os manifestantes.
Manifestações se espalharam
Na quarta-feira seguinte, 7 de outubro, estudantes participaram de uma nova passeata no Centro do Rio de Janeiro. Atos também ocorreram em outras cidades, incluindo Brasília e João Pessoa.
A mobilização passou a integrar a campanha pelo crescimento da votação de Lula no segundo turno, com atenção aos eleitores que haviam anulado o voto ou deixado de comparecer à primeira etapa.
Para Isabela Casalini, de 21 anos, estudante de Desenho Industrial da UFF, o ato em Niterói ajudou a impulsionar a participação estudantil nas semanas seguintes.
“Hoje, estou aqui de novo para comemorar nossa vitória e informar que não deixaremos de nos posicionar nos próximos anos”, afirmou após a eleição.
Participação política e memória
A historiadora Carolina Barreto, pesquisadora de movimentos sociais, situa a mobilização em uma trajetória de participação dos estudantes na política brasileira. Ela cita a atuação contra o nazifascismo, a defesa da criação da Petrobras, a resistência à ditadura e os protestos pelo afastamento de Fernando Collor.
O advogado Felipe Santa Cruz, ex-presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, também destacou a participação dos universitários. Seu pai, Fernando Santa Cruz, estudou Direito na UFF e desapareceu durante a ditadura, em 1974.
“Os meninos e meninas da UFF se juntaram, foram às ruas espontaneamente, da forma mais bela, se indignaram com o risco que o país corria e tomaram a história nas próprias mãos”, declarou.