Planos de governo dos candidatos à Presidência divergem sobre enfrentamento da crise climática, combate ao desmatamento, preservação da Amazônia e desenvolvimento sustentável
Os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que disputam o segundo turno das eleições de 2026, apresentam abordagens diferentes para as políticas ambientais e o enfrentamento das mudanças climáticas. Enquanto Lula coloca a crise climática entre as prioridades de seu programa de governo, Flávio Bolsonaro concentra suas propostas na utilização sustentável dos recursos naturais como instrumento de desenvolvimento econômico e geração de renda.
A comparação dos documentos mostra diferenças nas estratégias de conservação ambiental, combate ao desmatamento, proteção dos biomas e atendimento às populações mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos.
No programa de Lula, a expressão “mudanças climáticas” aparece 38 vezes, sendo tratada como uma emergência que exige medidas de mitigação e adaptação nas áreas social, econômica e ambiental.
Já o plano de Flávio Bolsonaro menciona o tema diretamente uma vez, utilizando a expressão “eventos climáticos extremos”. O candidato apresenta propostas relacionadas à infraestrutura hídrica, ao mercado de carbono, à bioeconomia e ao aproveitamento econômico sustentável dos recursos naturais.
Apesar das diferenças de enfoque, os dois programas apresentam pontos de convergência, especialmente quanto à necessidade de ampliar a segurança hídrica, preservar recursos ambientais e desenvolver mecanismos de prevenção de desastres.
Lula prioriza enfrentamento da crise climática
O programa de governo de Lula considera as mudanças climáticas um dos principais desafios para o próximo mandato presidencial.
A proposta prevê a ampliação de políticas de mitigação, destinadas a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e de adaptação, voltadas à preparação da sociedade e da infraestrutura para os efeitos do aquecimento global.
Entre as medidas apresentadas estão a revitalização de bacias hidrográficas, a ampliação de estruturas de segurança hídrica e o fortalecimento dos investimentos em prevenção e redução de riscos de desastres.
O candidato também propõe intervenções nas cidades, incluindo obras de contenção de encostas, sistemas sustentáveis de drenagem urbana e implantação de infraestrutura verde.
A proteção dos mananciais e o aperfeiçoamento da gestão de resíduos sólidos aparecem entre as ações previstas.
Outra proposta é reconhecer a Caatinga como um bioma estratégico para a redução das emissões de gases de efeito estufa e o enfrentamento da desertificação.
No campo econômico, o programa prevê a ampliação dos instrumentos de financiamento climático e o incentivo a atividades capazes de gerar renda para comunidades envolvidas na conservação de florestas e recursos hídricos.
Flávio Bolsonaro defende aproveitamento econômico dos recursos naturais
O programa de Flávio Bolsonaro apresenta uma abordagem voltada à associação entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico.
Entre as propostas estão o fortalecimento da bioeconomia, a ampliação do mercado regulado de carbono e a implementação de mecanismos de pagamento por serviços ambientais.
A ideia é estimular atividades econômicas que utilizem os recursos naturais de maneira sustentável, criando oportunidades de renda e desenvolvimento para populações que vivem em regiões ambientalmente estratégicas.
Na área de infraestrutura, o candidato propõe a construção e ampliação de barragens de usos múltiplos, reservatórios para controle de cheias, canais e sistemas de drenagem.
Também estão previstas medidas para fortalecer o monitoramento meteorológico, os sistemas de alerta e a capacidade de resposta da Defesa Civil diante de eventos climáticos extremos.
Diferentemente do programa de Lula, o documento de Flávio Bolsonaro não apresenta as mudanças climáticas como eixo central das demais políticas ambientais.
O foco principal está no aproveitamento econômico dos recursos naturais, combinado com medidas de conservação, fiscalização e modernização da infraestrutura.
Combate ao desmatamento apresenta metas diferentes
Uma das principais diferenças entre os programas está relacionada às metas de combate ao desmatamento.
Lula reafirma o compromisso de alcançar o desmatamento zero até 2030.
O plano prevê a continuidade e ampliação das políticas de prevenção e controle da derrubada da vegetação nativa, além do fortalecimento do manejo integrado do fogo.
Também propõe valorizar os parques nacionais por meio do turismo sustentável, da educação ambiental e de iniciativas de desenvolvimento regional.
Entre as medidas previstas estão o incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), a ampliação dos mecanismos de restauração florestal e o fortalecimento do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, estabelece como objetivo zerar o desmatamento ilegal até 2029.
A proposta inclui o combate às queimadas ilegais, o aperfeiçoamento dos sistemas de monitoramento e fiscalização e o enfrentamento dos crimes ambientais.
A diferença entre as metas está no alcance das medidas: enquanto Lula propõe eliminar o desmatamento de maneira geral, Flávio Bolsonaro concentra o compromisso na supressão ilegal da vegetação.
O candidato do PL também defende o fortalecimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a ampliação dos pagamentos por serviços ambientais destinados a produtores que preservem vegetação nativa e recuperem áreas degradadas.
Amazônia ocupa espaço importante nos dois programas
A conservação da Amazônia aparece entre as prioridades dos dois candidatos, embora com estratégias distintas.
No programa de Lula, a floresta integra uma política mais ampla de enfrentamento das mudanças climáticas, proteção da biodiversidade e cumprimento dos compromissos ambientais internacionais assumidos pelo Brasil.
O documento prevê o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização, o combate ao desmatamento e a valorização das populações tradicionais.
Já Flávio Bolsonaro propõe transformar a biodiversidade amazônica em fonte de desenvolvimento econômico, incentivando setores como biotecnologia, produção de medicamentos, cosméticos e novos materiais.
O programa defende a agregação de valor aos produtos da floresta, associando a conservação ambiental à geração de empregos e renda.
O candidato também apresenta a proposta de eliminar possíveis sobreposições de atribuições entre instituições federais ligadas à política ambiental e indigenista, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O documento, entretanto, não especifica quais atribuições seriam consideradas sobrepostas nem detalha as mudanças administrativas necessárias.
Povos indígenas e comunidades tradicionais também estão nos programas
As políticas destinadas aos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais representam outro ponto de diferença entre os candidatos.
Lula propõe ampliar a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas, áreas quilombolas e assentamentos.
O programa também prevê o fortalecimento da regularização fundiária e a ampliação das políticas de proteção social voltadas às comunidades tradicionais.
Entre as iniciativas está a integração do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) às estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas e de atendimento às famílias afetadas por desastres.
O candidato também defende novas ações de urbanização em favelas e comunidades urbanas, associadas ao desenvolvimento sustentável.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar a autonomia dos povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em seus territórios.
O documento estabelece que essas atividades deverão respeitar as regras ambientais e os princípios do desenvolvimento sustentável.
Também prevê mecanismos de compensação e indenização em situações de restrição ao uso econômico das terras, conforme as condições previstas em lei.
Histórico ambiental dos governos também entra na comparação
Além das propostas para o próximo mandato, a análise considera o histórico das políticas ambientais implementadas durante os governos do PT e de Jair Bolsonaro, presidente entre 2019 e 2022 e pai do atual candidato do PL.
Nos governos petistas, foram desenvolvidos instrumentos de planejamento climático, incluindo o Plano Clima, estruturado com oito planos de mitigação, 16 planos de adaptação e cinco estratégias transversais de ação climática.
Também foram implementadas iniciativas como o AdaptaCidades e o Periferia Viva, direcionadas à adaptação urbana e à redução da vulnerabilidade de populações expostas a riscos ambientais.
Na área de conservação, foram fortalecidos os planos de prevenção e controle do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, além da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.
Segundo os dados apresentados na reportagem, foram criadas 231 unidades de conservação, considerando diferentes esferas administrativas e reservas particulares.
O período também registrou a demarcação de 21 terras indígenas e a destinação de R$ 19,7 bilhões aos órgãos de fiscalização ambiental.
Entre os mecanismos de financiamento, destacam-se o Fundo Amazônia, o Fundo Nacional do Meio Ambiente e o Fundo Tropical Florestas para Sempre.
Política ambiental de Lula também enfrenta críticas
Apesar das medidas de conservação e enfrentamento das mudanças climáticas, a política ambiental do governo Lula também recebeu críticas de organizações ambientalistas e representantes de comunidades tradicionais.
Um dos principais pontos de controvérsia envolve o apoio do presidente à pesquisa exploratória de petróleo na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, localizada na região conhecida como Margem Equatorial.
Entidades ambientais demonstraram preocupação com os possíveis impactos da exploração petrolífera em uma área considerada sensível para a biodiversidade e para a proteção climática.
O governo também recebeu críticas de organizações indígenas em relação à velocidade dos processos de demarcação de terras.
Embora tenham ocorrido avanços na regularização de territórios indígenas, representantes dessas comunidades consideraram insuficiente o ritmo de conclusão dos procedimentos ainda pendentes.
Governo Jair Bolsonaro foi marcado por mudanças na fiscalização ambiental
Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, foram destinados R$ 7,4 bilhões aos órgãos federais de fiscalização ambiental, conforme os dados apresentados no levantamento.
O período registrou mudanças importantes na estrutura de gestão das políticas ambientais, incluindo a transferência do Serviço Florestal Brasileiro e da administração do Cadastro Ambiental Rural para o Ministério da Agricultura.
Também houve a extinção de parte dos conselhos ambientais e a paralisação da destinação de recursos de fundos ambientais para novos projetos.
Segundo a reportagem, nenhuma terra indígena foi demarcada durante os quatro anos de governo.
O período foi marcado ainda pelo aumento do desmatamento na Amazônia, com impactos sobre as emissões de gases de efeito estufa e a conservação dos ecossistemas.
Os dados apresentados apontam desmatamento acumulado de 45.612 quilômetros quadrados na Amazônia e avanço da atividade garimpeira ilegal, incluindo a presença estimada de cerca de 20 mil garimpeiros na Terra Indígena Yanomami.
Outra controvérsia envolveu declarações do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante uma reunião ministerial realizada em 2020, no início da pandemia de covid-19.
Na ocasião, Salles defendeu a simplificação de normas regulatórias ambientais enquanto a atenção pública estava concentrada na crise sanitária.
As declarações provocaram críticas de organizações ambientais e ampliaram o debate sobre o enfraquecimento da fiscalização e das regras de proteção ambiental.
Mudanças climáticas e desenvolvimento econômico estão no centro das propostas
A comparação dos planos de governo evidencia duas abordagens para a política ambiental brasileira.
Lula apresenta o enfrentamento das mudanças climáticas como um eixo estruturante, associado à conservação ambiental, à proteção social, à adaptação das cidades e ao cumprimento de compromissos internacionais.
Flávio Bolsonaro prioriza a utilização sustentável dos recursos naturais como instrumento de desenvolvimento econômico, com propostas voltadas à bioeconomia, à infraestrutura hídrica, ao mercado de carbono e à valorização econômica da preservação.
Os dois candidatos defendem investimentos em segurança hídrica, mecanismos de conservação e ações de prevenção a desastres, mas divergem quanto à abrangência das metas de desmatamento e ao papel da crise climática no planejamento governamental.
As propostas deverão orientar parte do debate eleitoral até o segundo turno, especialmente diante dos impactos cada vez mais relevantes dos eventos climáticos extremos sobre a agricultura, a infraestrutura, a economia e a qualidade de vida da população.
Fonte: Agência Brasil, com base nos planos de governo dos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026.