Lideranças empresariais defendem que metas ambientais avancem para investimentos concretos, com financiamento para indústria, mineração, agropecuária, saneamento e inovação
A transição para uma economia de baixo carbono precisa avançar da formulação de compromissos para uma etapa de implementação efetiva, com projetos, investimentos, novas tecnologias e ganhos de competitividade para a indústria brasileira. A avaliação marcou os debates do encontro Pré-COP31, realizado em Brasília como preparação para a próxima Conferência do Clima das Nações Unidas. Texto colado
Para representantes do setor produtivo, a agenda climática não deve ser tratada apenas como uma questão ambiental, mas também como instrumento de desenvolvimento econômico, inovação, geração de empregos e inserção do Brasil nos mercados internacionais.
O vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marcelo Thomé, defendeu que a ambição climática seja acompanhada de condições concretas para sua execução dentro das empresas.
Segundo ele, o avanço da agenda deverá ser medido pela capacidade de transformar prioridades em investimentos, projetos, tecnologias e oportunidades econômicas.
Crédito aparece entre os principais desafios
Um dos pontos centrais do encontro foi o financiamento da transição para atividades menos intensivas em carbono.
Na agropecuária, representantes empresariais destacaram que a adoção de práticas sustentáveis precisa ser acompanhada de ganhos econômicos para os produtores, especialmente os pequenos.
Outro obstáculo apontado foi a regularização ambiental. Sem a documentação necessária, como o Cadastro Ambiental Rural regularizado, produtores podem encontrar dificuldades para acessar linhas de crédito destinadas à modernização e à sustentabilidade.
A avaliação apresentada durante o encontro é de que financiamento, assistência técnica e regularização ambiental precisam avançar conjuntamente para ampliar o alcance das políticas climáticas no campo.
Mineração ganha espaço na transição energética
O setor mineral também ocupou espaço relevante nas discussões.
Representantes da indústria defenderam que a mineração terá papel estratégico na transição energética por fornecer matérias-primas utilizadas em tecnologias de baixo carbono e em novas cadeias industriais.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta o desafio de reduzir as próprias emissões e aumentar a competitividade de seus produtos.
Outro ponto levantado foi a concentração dos investimentos climáticos. Segundo dados apresentados no encontro, dos US$ 60 bilhões captados pelo Brasil em 2023 para essa agenda, 81% foram destinados a projetos de energia solar e eólica em terra.
A indústria defende maior diversificação dos recursos, incluindo projetos industriais, minerais e de infraestrutura capazes de contribuir para a descarbonização.
Tecnologia pode ampliar competitividade
A capacidade tecnológica brasileira também foi apresentada como vantagem na disputa por mercados internacionais.
Entre os exemplos citados está o uso da nota fiscal eletrônica para rastrear materiais reciclados e comprovar a participação de insumos reaproveitados nos produtos.
A rastreabilidade ganha importância diante das exigências ambientais impostas por mercados consumidores, especialmente na Europa.
Para representantes do setor, demonstrar de forma confiável a origem e o conteúdo dos produtos pode se transformar em diferencial competitivo para empresas brasileiras.
Saneamento passa a integrar agenda climática
O debate também ampliou o conceito de infraestrutura necessária para enfrentar as mudanças climáticas.
O saneamento foi apontado como instrumento de adaptação, segurança hídrica e resiliência das cidades, deixando de ser visto exclusivamente como serviço básico.
Representantes do setor financeiro e empresarial destacaram que projetos capazes de atrair investimentos precisam apresentar engenharia estruturada, segurança jurídica e previsibilidade regulatória.
Tecnologias digitais também foram citadas como ferramentas para reduzir custos e melhorar o planejamento urbano. Entre elas estão os chamados gêmeos digitais e a modelagem BIM, que permitem integrar informações de arquitetura, engenharia e infraestrutura.
Saúde entra na discussão sobre clima
Os efeitos das mudanças climáticas sobre trabalhadores e comunidades também fizeram parte do encontro.
A avaliação apresentada é de que políticas de adaptação precisam considerar diretamente os impactos sobre a saúde e o cotidiano das pessoas.
A prevenção de doenças foi apontada inclusive como componente da agenda de redução de emissões, já que sistemas de saúde demandam grandes quantidades de energia, infraestrutura, transporte e outros recursos.
COP31 será realizada na Turquia
O encontro integra a preparação do setor produtivo brasileiro para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, prevista para novembro, em Antália, na Turquia.
A indústria brasileira pretende levar à conferência projetos relacionados à economia de baixo carbono e defender uma agenda que combine redução de emissões, competitividade, industrialização e acesso a financiamento.
A mensagem predominante entre os participantes é que a próxima etapa da política climática precisa sair do campo das metas e avançar para projetos economicamente viáveis e capazes de produzir resultados concretos.