No dia 13 de novembro, celebramos o Dia Mundial da Gentileza, uma oportunidade de refletir sobre uma frase que repetimos quase sem pensar: “gentileza gera gentileza”. Nas entrelinhas existe mais do que um convite à cordialidade, mas uma atenção entre a forma como você deseja viver e a de agir como seres humanos.
Outro dia, cheguei a um restaurante em São Paulo, numa terça-feira tranquila, esperando por ter apenas uma refeição agradável. Antes de qualquer cumprimento, uma atendente, sem sequer olhar para mim, perguntou em tom seco: “Você tem reserva?”. Respondi que não e, percebendo que havia mesas disponíveis, sorri e perguntei se haveria lugar para duas pessoas. Ela então me olhou, suavizou a expressão e explicou que o restaurante não estava cheio; apenas tinha feito a pergunta daquela forma porque seguia, automaticamente, as orientações recebidas.
Aquela conversa me fez pensar em quantas vezes permitimos que as regras, a pressa e as tarefas ocupem o lugar da presença. Não havia problema em perguntar pela reserva, assim como não há problema em estabelecer limites ou cumprir procedimentos. A diferença está na forma de fazê-lo, pois é possível ser firme sem ferir, objetivo sem parecer indiferente e eficiente sem deixar de acolher.
A palavra gentileza remonta ao latim gentilis, ligado originalmente à ideia de pertencimento a uma família ou grupo e, ao longo do tempo, associado à nobreza e à cortesia. Gosto bastante de pensar que a verdadeira nobreza não está na posição que ocupamos, ou no título que possuímos, mas sim na delicadeza com que tratamos quem cruza nosso caminho, especialmente quando ninguém espera nada de nós.
Esse cuidado, porém, precisa começar onde a vida acontece com maior intimidade. Já parou para refletir o quanto somos capazes de oferecer paciência a desconhecidos e, no mesmo dia, como respondemos com aspereza a quem amamos? Ou até mesmo a nossa capacidade de escutar com atenção alguém que acabamos de conhecer, mas interromper e mal ouvir quem divide conosco a rotina diária? O afeto não dispensa a gentileza, pelo contrário, é na convivência diária que ele encontra sua expressão mais sincera.
A gentileza é uma expressão da nossa própria essência e aparece quando transformamos respeito, compaixão e amor em atitudes concretas: oferecer ajuda, partilhar o que sabemos, olhar nos olhos de quem nos serve ou acolher alguém em silêncio são maneiras simples de honrar a dignidade que existe em cada pessoa.
É assim que devemos ensinar nossas crianças, muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Elas observam como reagimos ao sermos contrariados, como tratamos as pessoas e a forma como falamos de quem pensa diferente. Nossos gestos ajudam a construir o mundo que elas aprenderão a habitar.
Gosto especialmente da imagem de uma vela que acende outra sem perder a própria luz. A gentileza também se multiplica assim, embora não dependa de reconhecimento ou retribuição para ter valor. Sua força está na coerência entre o que acreditamos e o que praticamos, inclusive nos dias difíceis, quando seria mais fácil devolver ao mundo a mesma dureza que recebemos.
Naquela terça-feira, não foi a pergunta sobre a reserva que permaneceu comigo, mas a transformação de um encontro a partir de um sorriso e de um olhar. Neste 13 de novembro, antes de repetir que gentileza gera gentileza, vale perguntar para si: como as pessoas se sentem depois de encontrar você?
Afinal, não basta pertencermos à humanidade; precisamos aprender, todos os dias, a ser mais humanos.