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Opinião Pública

Colatina: o nome que atravessou os séculos

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

28/10/2026

Há histórias que parecem ter sido inventadas por algum escritor de imaginação generosa. Entretanto, aconteceram. Estão guardadas em documentos antigos, registros familiares, livros esquecidos e, às vezes, na própria geografia. Basta alguém se dar ao trabalho de procurá-las.

Meu amigo Nilo Tardin, jornalista experiente residente em Colatina, pertence a essa categoria de pessoas que não se contentam em olhar uma cidade apenas pelo que ela apresenta hoje. Gosta de descobrir o que ficou escondido atrás dos nomes, das fachadas e das lembranças. Foi uma alegria saber que ele republicou um artigo meu no portal Diário Digital Capixaba. Mas o assunto que agora me chama a atenção é outro: suas pesquisas sobre a origem do nome de Colatina.

Confesso que a história tem ingredientes para despertar a curiosidade até de quem nunca demonstrou grande entusiasmo por antiguidades romanas.

Tudo começa muito longe do Espírito Santo. Tão longe no espaço e no tempo que seria difícil imaginar qualquer ligação entre os dois lugares.

Na Roma antiga, quando os deuses eram numerosos e se ocupavam até dos menores detalhes da vida, existia uma divindade chamada Collatina. Era associada às colinas, aquelas elevações suaves do terreno que os romanos distinguiam das montanhas e dos vales.

A religião romana possuía uma organização curiosa. Havia uma divindade para os campos, outra para as montanhas, outra para os vales e, naturalmente, uma para as colinas. Nenhum acidente geográfico precisava ficar desamparado. Os romanos, aparentemente, não gostavam de deixar atribuições sem responsável.

Santo Agostinho, no século V, registrou essa profusão de deuses em sua obra A Cidade de Deus. Entre as divindades mencionadas estava precisamente Collatina, encarregada das colinas.

O tempo passou. O Império Romano desapareceu, seus templos perderam importância e a maior parte daqueles deuses deixou de receber homenagens. Os nomes, porém, têm uma resistência admirável. Sobrevivem às mudanças políticas, às guerras, às religiões e até ao desaparecimento das civilizações que os criaram.

Séculos depois, encontramos o nome Colatina no Brasil imperial, entre famílias da aristocracia paulistana.

Em Campinas, no ano de 1864, nasceu Colatina Soares de Azevedo, integrante de uma família tradicional. Era neta do Barão de Paranapanema e herdou o nome da própria mãe, também chamada Colatina Soares de Azevedo.

Esse detalhe merece atenção. O nome já atravessava gerações familiares antes de chegar ao Espírito Santo.

Não encontrei, entretanto, documento que comprove uma transmissão direta entre a antiga deusa romana e a escolha feita pela família paulista. A semelhança histórica é fascinante, mas uma boa história não precisa transformar possibilidades em certezas.

A jovem Colatina cresceu num ambiente de prestígio social e cultural. Casou-se, em 1882, com José de Melo Carvalho Muniz Freire, político capixaba que governaria o Espírito Santo por duas vezes, entre 1892 e 1896 e, posteriormente, de 1900 a 1904.

O casal teve dez filhos. E o nome daquela mulher, que poderia ter permanecido restrito aos registros familiares, acabaria ganhando um destino extraordinário.

No final do século XIX, às margens do Rio Doce, desenvolvia-se um povoado conhecido como Barracão de Santa Maria. A região passava por transformações impulsionadas pela colonização, pela agricultura e pela chegada de imigrantes.

Em 1899, a localidade recebeu o nome de Vila de Colatina, numa homenagem à esposa de Muniz Freire.

A partir dali, a história do nome deixou de pertencer apenas a uma família.

Passou a identificar um lugar.

Naturalmente, Colatina não nasceu com a homenagem. A região já possuía uma história muito anterior à chegada dos colonizadores, construída também pelos povos indígenas que habitavam o vale do Rio Doce. Depois vieram os imigrantes, as lavouras, o comércio, a ferrovia e as sucessivas transformações que fizeram daquele povoado uma cidade.

A emancipação política ocorreria em 1921.

O nome, entretanto, permaneceu.

Há nisso uma coincidência geográfica que me parece especialmente bonita. Collatina, na antiga Roma, estava associada às colinas. A cidade capixaba que recebeu o nome da aristocrata paulista cresceu justamente numa paisagem de morros, encostas e elevações, tendo o Rio Doce como presença permanente.

Não sei se os responsáveis pela homenagem perceberam essa aproximação. Provavelmente estavam mais interessados em reverenciar a esposa do governador do que em estabelecer relações com a mitologia romana.

Mas a história, de vez em quando, permite essas pequenas ironias.

Uma divindade associada às colinas encontra, muitos séculos depois, um inesperado eco numa cidade cercada por elas.

É como se o nome tivesse realizado uma longa viagem. Saiu dos registros da Antiguidade, reapareceu numa linhagem familiar paulista e terminou gravado em mapas, documentos, fachadas comerciais, certidões de nascimento e placas de rodovias do Espírito Santo.

O percurso exato entre os primeiros registros e a família brasileira ainda precisa ser esclarecido. Mas as etapas conhecidas já formam uma narrativa extraordinária.

E há outra particularidade.

Governadores, militares e presidentes costumam emprestar seus nomes a cidades, avenidas, praças e monumentos. O mapa brasileiro está repleto dessas homenagens, algumas merecidas, outras nem tanto. Colatina, porém, recebeu o nome de uma mulher.

Não foi preciso que ela comandasse batalhões, conquistasse territórios ou ocupasse um cargo político para permanecer na memória coletiva.

Seu nome bastou.

É verdade que a homenagem nasceu das relações sociais e políticas de seu tempo, quando o prestígio de uma família tinha peso considerável nas decisões públicas. Reconhecer isso não diminui a beleza da história. Apenas nos ajuda a compreendê-la sem os enfeites que tantas vezes acrescentamos ao passado.

Gosto de imaginar o que dona Colatina pensaria se pudesse caminhar hoje pelas ruas da cidade que recebeu seu nome. Talvez se surpreendesse com o movimento comercial, as pontes sobre o Rio Doce e os bairros espalhados pelas encostas.

Provavelmente ficaria ainda mais surpresa ao descobrir que, muito depois de sua morte, jornalistas como Nilo continuam procurando informações sobre sua vida.

Afinal, poucas pessoas recebem uma homenagem capaz de atravessar gerações dessa maneira.

Mais curioso ainda é pensar que o nome de uma mulher nascida no século XIX nos conduz a uma divindade mencionada por Santo Agostinho muitos séculos antes.

Não é pouca coisa.

Meu amigo Nilo, ao pesquisar essas origens, presta um serviço à memória de Colatina. E memória, convém lembrar, não é simples saudade. É também conhecimento. Uma cidade que conhece sua história compreende melhor a própria identidade.

Quanto a mim, fico pensando nos caminhos misteriosos percorridos pelas palavras.

Impérios desaparecem. Famílias se dispersam. Governantes são esquecidos. Os mapas mudam, as cidades crescem e os rios continuam seguindo seus cursos.

Mas alguns nomes resistem.

Collatina já não recebe homenagens nos templos romanos. Dona Colatina Soares de Azevedo Muniz Freire pertence à história. E a cidade que leva seu nome continua viva, movimentada, imperfeita e cheia de histórias para contar.

A antiga deusa das colinas talvez nunca tenha imaginado que seu nome pudesse encontrar um eco tão distante.

Às margens do Rio Doce, entretanto, há uma cidade inteira que responde quando alguém chama:

Colatina.


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