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Opinião Pública

Carta aberta aos maridos: como apoiar quem vive com endometriose

Thiers Soares

Thiers Soares

Médico ginecologista, especialista em endometriose, adenomiose e miomas, com atuação em cirurgia robótica e minimamente invasiva. É médico do setor de endoscopia ginecológica do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), Doctor Honoris Causa pela Universidade Victor Babes (Romênia) e membro de sociedades internacionais de referência em cirurgia minimamente invasiva ginecológica, como AAGL e SLS.

22/10/2026

Escrevo este texto depois de muitos anos de consultório, ouvindo, de formas diferentes, a mesma frase: “Doutor, meu marido acha que eu estou exagerando”.

Ainda me incomoda ouvir isso. E talvez você, que lê estas linhas, esteja aqui porque alguém que ama enviou este artigo, provavelmente uma esposa ou companheira, ou porque decidiu, por conta própria, entender melhor o que ela enfrenta. De qualquer forma, esse gesto já diz muito sobre você.

A endometriose não é uma cólica forte. Não é frescura, nem falta de força de vontade. É uma doença crônica e ainda sem cura definitiva, que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o útero, passa a crescer fora dele, em ovários, trompas, intestino, bexiga e outras regiões da pelve. Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual, inflama, sangra internamente e pode gerar aderências e dor. Em muitos casos, a dor é incapacitante. Em outros, vem acompanhada de infertilidade, fadiga extrema, alterações intestinais e urinárias e um desgaste emocional silencioso, que poucas pessoas ao redor conseguem enxergar.

É nesse ponto que o parceiro entra, e a primeira coisa que peço é também a mais difícil de sustentar no dia a dia: acredite na dor dela. A endometriose é conhecida como uma doença invisível, porque a intensidade do sintoma não guarda relação direta com o tamanho das lesões. Uma mulher pode ter lesões pequenas e uma dor devastadora, e exames que “não mostram nada” não significam que não há nada a tratar. Duvidar é uma das formas mais profundas de abandono dentro de casa.

Acreditar, contudo, é apenas a premissa. O apoio real se consolida na presença ativa. Isso significa assumir o protagonismo da jornada junto com a sua companheira: ir junto na consulta, compreender a doença e poupá-la do desgaste extenuante de ter de traduzir a própria dor repetidamente. Nas crises, presença muitas vezes significa não tentar resolver nada, mas segurar a mão, trazer uma bolsa de água quente, ficar por perto em silêncio. Perguntar “o que você precisa agora?” costuma valer mais do que qualquer conselho.

Há um território que a maioria dos casais evita nomear, e é justamente onde o silêncio mais machuca. Falo da vida sexual. A dor durante ou após a relação, chamada de dispareunia, é um dos sintomas mais comuns da endometriose. Ela não tem relação com o desejo pelo parceiro nem com a qualidade do relacionamento, é consequência direta da doença. Retirar a culpa da equação e encarar o sintoma sob a ótica médica é o único caminho para preservar o vínculo e reinventar a intimidade sem violência. 

O tratamento da endometriose costuma ser multidisciplinar e cansativo, envolvendo consultas, exames, remédios, eventualmente cirurgia, fisioterapia pélvica e ajustes na rotina. Dividir esse peso, seja assumindo tarefas do dia a dia nos períodos de crise, seja organizando junto a agenda médica, tira da mulher a sensação de que ela precisa gerenciar sozinha uma doença que já é exaustiva por si só. O mesmo cuidado vale para o campo emocional. A dor crônica costuma andar de mãos dadas com ansiedade e sintomas depressivos, não por fraqueza, mas como efeito direto de conviver com dor persistente. Incentivar o acompanhamento psicológico quando fizer sentido, e buscar apoio para si mesmo quando necessário, também faz parte de cuidar bem de quem se ama.

Fertilidade é outro tema que costuma pesar sobre o casal em silêncio, carregado de medo, culpa e expectativa. Quando o desejo de ter filhos existe, o caminho se torna mais leve quando é enfrentado como time. Quando ainda não é o momento, é importante que isso não vire cobrança, porque o corpo dela já carrega peso suficiente.

No fim, talvez a frase mais simples e mais poderosa que um parceiro possa repetir seja apenas esta, dita sem rodeios: “eu sei que isso não é culpa sua, estou aqui com você”. A endometriose é uma jornada longa, muitas vezes marcada por diagnóstico tardio, dor não validada e solidão. Um parceiro presente, informado e paciente não cura a doença, mas transforma completamente a forma como ela é vivida.

Escrevo com respeito e admiração por todos que caminham nessa estrada ao lado de quem amam.

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