Estamos diante de uma crise de esperança ou de confiança? Há algum tempo, venho percebendo um cansaço que não se revela apenas nas palavras. Está nos rostos, nos gestos, na maneira como as pessoas se relacionam. Depois de tantos anos dedicados à educação, aprendi a prestar atenção também naquilo que não é dito. E tenho me perguntado se, além das preocupações cotidianas, não estamos perdendo a confiança uns nos outros. Desconfiar faz parte da vida. Questionar informações, decisões e promessas é necessário, inclusive para o exercício da cidadania. O problema começa quando a desconfiança deixa de estar relacionada a determinadas situações e passa a orientar todas as nossas relações. A polarização torna essa dificuldade ainda mais evidente. Não pela existência de opiniões divergentes, mas pela incapacidade, cada vez mais frequente, de conviver com elas. Quando discordar significa romper, perdemos a oportunidade de compreender o outro e de construir algo juntos. E talvez essa seja uma das consequências mais preocupantes da desconfiança: ela não compromete apenas as relações, mas também nossa disposição para agir. Afinal, por que participar de um projeto coletivo se não acreditamos nas pessoas com quem precisamos realizá-lo? É nesse ponto que começo a me perguntar se a crise de confiança não está alimentando uma crise de esperança. Como educadora, essa questão me preocupa especialmente. Temos discutido a importância de desenvolver a agência dos estudantes, reconhecendo crianças e jovens como pessoas capazes de fazer escolhas, assumir responsabilidades e participar da transformação da realidade. Mas a capacidade de agir não depende apenas da autonomia individual. Ela também se desenvolve quando experimentamos que nossa participação faz diferença, que os compromissos são respeitados e que podemos realizar algo com outras pessoas. Há uma particularidade da escola que considero cada vez mais importante. Nas redes sociais, podemos selecionar quem seguimos, silenciar opiniões e nos afastar de quem pensa diferente. Na escola, a convivência não funciona assim. Crianças e jovens compartilham espaços, enfrentam divergências, negociam e precisam encontrar maneiras de continuar juntos. Isso não significa que a convivência escolar seja sempre harmoniosa. Ao contrário, é justamente nas dificuldades que surgem oportunidades de aprender a respeitar, escutar e colaborar. Mas essas experiências não acontecem espontaneamente. Dependem de educadores atentos e de instituições que sejam coerentes com os valores que defendem. Também precisamos reconhecer o desgaste dos adultos. Professores, famílias e profissionais de diferentes áreas enfrentam pressões e incertezas. Não seria justo interpretar seu cansaço como falta de compromisso ou exigir que mantenham uma atitude permanentemente otimista. O que me preocupa é a possibilidade de o desencanto se transformar em indiferença. De deixarmos de acreditar que nossas escolhas e atitudes ainda podem produzir mudanças. A confiança não se recupera por discursos. Ela se constrói nas relações, no cumprimento dos compromissos, na possibilidade de discordar sem romper vínculos e na experiência de que vale a pena participar. Costumamos dizer que as crianças e os jovens são a esperança do mundo. Tenho pensado bastante sobre essa afirmação. Não estaremos transferindo a eles uma responsabilidade que também precisamos assumir? Não podemos esperar que as próximas gerações acreditem na força da colaboração se nós mesmos deixamos de cultivá-la. Tampouco podemos lhes prometer um mundo sem conflitos. O que podemos fazer é mostrar, em nossas atitudes, que os conflitos não precisam destruir a possibilidade de convivência. Talvez a maior responsabilidade dos adultos não seja ensinar as crianças a ter esperança, mas oferecer razões para que elas não a percam. |