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El Niño ameaça safra de 2027 e exige preparação do agro no Nordeste

Embrapa alerta para riscos de seca, perdas nas lavouras e falta de pastagens e orienta produtores a armazenar água e alimentos para os rebanhos

Vitória News 16/10/2026 06:25
El Niño ameaça safra de 2027 e exige preparação do agro no Nordeste
Imagem criada por IA/VN

O agronegócio do Nordeste brasileiro precisa antecipar medidas de proteção contra os possíveis impactos do El Niño 2026/2027. Projeções da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apontam maior probabilidade de chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e redução da disponibilidade de água no Semiárido, especialmente durante o primeiro semestre de 2027, período decisivo para a produção agrícola e pecuária da região.

O alerta envolve principalmente as lavouras dependentes das chuvas, a disponibilidade de pastagens, a alimentação dos rebanhos e o abastecimento hídrico das propriedades rurais. A orientação central da Embrapa é que agricultores e pecuaristas não aguardem o agravamento das condições climáticas para adotar medidas preventivas.

Entre as recomendações estão ampliar as reservas de água, conservar a umidade do solo, adequar o calendário de plantio, selecionar culturas mais resistentes à seca e planejar antecipadamente a alimentação dos animais.

As orientações fazem parte de um conjunto de cinco notas técnicas elaboradas pela Embrapa para apoiar a gestão dos riscos climáticos associados ao El Niño nas diferentes regiões brasileiras.

Safra de 2027 concentra os maiores riscos para a agricultura nordestina

O período de maior preocupação para os produtores do Semiárido será o primeiro semestre de 2027, quando se concentra uma parcela importante do calendário agrícola regional.

As projeções indicam que, caso o El Niño permaneça forte, aumentará a probabilidade de chuvas abaixo da média durante a estação chuvosa.

Esse cenário poderá comprometer o desenvolvimento das culturas de sequeiro, que dependem diretamente das precipitações, além de dificultar a recuperação da umidade do solo e a recarga de pequenos reservatórios.

No último quadrimestre de 2026, entre setembro e dezembro, a Embrapa também aponta maior risco de temperaturas elevadas, déficit hídrico, ondas de calor e queimadas.

O aumento da temperatura favorece a perda de água do solo e da vegetação, ampliando a demanda hídrica das lavouras e das pastagens.

Os efeitos, entretanto, não devem ocorrer de maneira uniforme em todo o Nordeste. A Embrapa ressalta que o comportamento das águas do Atlântico Tropical também influencia o regime de chuvas e pode amenizar ou agravar os impactos do El Niño.

Por isso, as recomendações devem ser ajustadas às condições de cada município, propriedade e sistema de produção.

Reservatórios começam período com mais água do que em 2015

Um dos fatores positivos identificados pela Embrapa é a condição inicial dos reservatórios nordestinos.

Em agosto de 2016, durante o episódio de forte El Niño de 2015/2016, o armazenamento nos reservatórios da região estava próximo de 23% da capacidade.

Em agosto de 2026, o volume registrado era de aproximadamente 51%, uma condição inicial mais favorável para enfrentar possíveis períodos de estiagem.

Essa diferença, porém, não elimina os riscos para a produção agropecuária.

Pequenos açudes, barreiros e outras estruturas utilizadas pela agricultura familiar e pela pecuária dependem diretamente das chuvas para recompor suas reservas.

Em situações de precipitação irregular, esses reservatórios podem não receber água suficiente para atender às necessidades das propriedades durante os meses seguintes.

O calor também aumenta a evaporação, reduzindo o volume disponível para irrigação, dessedentação dos animais e outras atividades produtivas.

Diante desse cenário, a Embrapa recomenda antecipar a captação e o armazenamento de água, além de melhorar a eficiência de seu uso.

Milho exige atenção às áreas de plantio e ao calendário agrícola

O milho está entre as culturas que merecem atenção especial dos produtores nordestinos diante do risco de chuvas insuficientes.

A Embrapa recomenda concentrar o cultivo nas melhores áreas da propriedade, priorizando solos com condições favoráveis à retenção de umidade.

Também orienta reduzir ou escalonar a área plantada, de acordo com a disponibilidade de água e as condições previstas para a estação chuvosa.

O planejamento deve considerar especialmente as fases de florescimento e enchimento dos grãos, períodos em que a deficiência hídrica pode comprometer a produtividade.

Outra recomendação é respeitar as janelas de plantio estabelecidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).

O sistema identifica períodos de menor risco climático para diferentes culturas, municípios e características de solo, servindo de referência para decisões de plantio.

A orientação da Embrapa é evitar a ampliação de áreas sem considerar a disponibilidade hídrica e as condições efetivas da propriedade.

Sorgo pode substituir milho em regiões com maior risco de seca

Para produtores que enfrentam maior risco de deficiência hídrica, a Embrapa recomenda avaliar o sorgo como alternativa ao milho.

A cultura apresenta opções de utilização para produção de grãos e forragem, incluindo material destinado à silagem para alimentação animal.

O sorgo pode integrar sistemas produtivos diversificados e ajudar a reduzir a exposição a perdas em ambientes sujeitos à irregularidade das chuvas.

A escolha, entretanto, deve considerar a finalidade da produção, a cultivar utilizada, as condições do solo e a disponibilidade de água.

A Embrapa destaca a importância de selecionar espécies e variedades adaptadas às condições locais, evitando decisões baseadas apenas na expectativa de precipitação.

A utilização do sorgo também pode contribuir para a formação de reservas alimentares destinadas aos rebanhos, uma das estratégias recomendadas para enfrentar períodos prolongados de escassez de pastagens.

Feijão-caupi: Embrapa recomenda ajustar área plantada à água disponível

O feijão-caupi, importante cultura alimentar e econômica em diferentes áreas do Nordeste, também poderá enfrentar dificuldades caso a estação chuvosa apresente precipitações insuficientes.

Para reduzir os riscos, a Embrapa orienta os agricultores a adequar o tamanho da lavoura à disponibilidade de água.

A seleção de áreas com solos mais profundos é outra medida recomendada, pois essas condições podem favorecer o armazenamento de umidade.

O planejamento do plantio deve seguir as recomendações do Zarc, considerando os períodos de menor risco para o município e o sistema de produção.

A instituição também destaca o cultivo consorciado como alternativa para diversificar a produção e distribuir riscos entre diferentes espécies.

O consórcio permite cultivar mais de uma espécie na mesma área, desde que sejam observadas as exigências agronômicas e a compatibilidade entre as culturas.

A estratégia pode ser especialmente relevante para agricultores familiares, que dependem de diferentes atividades para a alimentação e a geração de renda.

Cebola exige garantia de irrigação durante o ciclo produtivo

A produção de cebola também integra as atividades agrícolas que precisam de planejamento diante da possibilidade de redução das chuvas.

A Embrapa recomenda restringir o plantio a áreas onde exista disponibilidade garantida de água para irrigação.

A seleção de solos com boa capacidade de retenção de umidade pode contribuir para reduzir a exposição da cultura ao déficit hídrico.

Os produtores também devem ajustar a irrigação às necessidades das plantas, com atenção especial à fase de formação dos bulbos.

A adoção de práticas eficientes de manejo da água torna-se importante quando há risco de aumento da temperatura e redução da recarga dos reservatórios.

O objetivo é compatibilizar a produção com os recursos hídricos disponíveis, evitando a implantação de lavouras que possam enfrentar falta de água antes da conclusão do ciclo.

Pecuária deve formar reservas de forragem antes da estiagem

Na pecuária, o principal alerta está relacionado à possibilidade de redução das pastagens e à dificuldade de manter a alimentação dos rebanhos durante períodos prolongados de seca.

A Embrapa recomenda que os produtores planejem antecipadamente a oferta de alimentos, ampliando as reservas de forragem e organizando estratégias de alimentação.

Entre as alternativas estão a conservação de volumosos, a formação de estoques para os períodos de menor disponibilidade de pasto e a manutenção de bancos de palma-forrageira.

A palma-forrageira é utilizada na alimentação animal em regiões semiáridas e pode integrar o planejamento nutricional dos rebanhos, respeitadas as necessidades de complementação alimentar.

Outra orientação importante é ajustar a taxa de lotação à capacidade de suporte das pastagens.

Isso significa adequar a quantidade de animais mantidos em determinada área à disponibilidade de alimento e às condições de produção.

A medida busca evitar a pressão excessiva sobre o pasto, especialmente quando a recuperação da vegetação pode ser prejudicada pela falta de chuva.

A Embrapa também chama atenção para a possibilidade de prejuízos continuados na pecuária, já que os efeitos da seca podem comprometer a produção mesmo depois de períodos de precipitação.

Conservação do solo ajuda a preservar a umidade das lavouras

O manejo do solo é apontado pela Embrapa como uma das principais ferramentas para enfrentar períodos de irregularidade climática.

Entre as práticas recomendadas está a manutenção de cobertura vegetal ou de palhada sobre a superfície, reduzindo a exposição direta do solo ao calor.

Essa proteção ajuda a diminuir a evaporação e contribui para conservar a umidade disponível às plantas.

O cultivo em curvas de nível também é indicado para reduzir o escoamento superficial da água durante as chuvas.

A incorporação de matéria orgânica, por meio de esterco e compostos, pode melhorar características do solo relacionadas à retenção de água.

Outras medidas incluem a adoção de plantio direto e cultivo mínimo, práticas que reduzem o revolvimento do solo e podem contribuir para sua conservação.

A combinação dessas técnicas deve considerar as condições locais, o tipo de cultura e a orientação agronômica adequada.

Uso eficiente da água será decisivo para produtores

A gestão dos recursos hídricos ocupa posição central nas recomendações para o agro nordestino.

A Embrapa orienta ampliar a captação e o armazenamento de água por meio de tecnologias compatíveis com a realidade de cada propriedade.

Entre as alternativas estão cisternas, tanques, barreiros-trincheira e barragens subterrâneas.

A instituição também apresenta soluções de reúso de água, como o sistema Bioágua Familiar, que permite tratar águas cinzas domésticas para determinadas utilizações agrícolas.

Na irrigação, sistemas mais eficientes, como o gotejamento, podem ajudar a direcionar a água às plantas e reduzir desperdícios.

O manejo deve priorizar os períodos e as fases do desenvolvimento vegetal em que a necessidade hídrica é maior.

O planejamento do uso da água é especialmente importante para propriedades que dependem de pequenos reservatórios, pois a redução das chuvas pode comprometer tanto a produção agrícola quanto a manutenção dos rebanhos.

Risco climático também pode afetar renda e planejamento financeiro

Além dos efeitos diretos nas lavouras e na pecuária, a Embrapa aponta riscos econômicos associados à persistência de condições climáticas desfavoráveis.

A redução da produtividade agrícola, a necessidade de adquirir alimentação suplementar para os animais e as dificuldades relacionadas ao abastecimento de água podem pressionar os custos de produção.

Esses fatores também podem comprometer o fluxo de caixa das propriedades, especialmente quando as receitas dependem de safras concentradas em determinados meses.

A exposição ao risco tende a exigir maior atenção ao planejamento financeiro e à organização das atividades produtivas.

Nesse contexto, o acompanhamento das previsões e o ajuste antecipado das decisões de plantio e manejo podem contribuir para reduzir perdas.

A Embrapa destaca que as medidas preventivas devem ser adotadas antes do período de maior vulnerabilidade, considerando as características de cada sistema agropecuário.

Ministério da Agricultura disponibiliza orientações para o setor

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), disponibiliza uma plataforma dedicada ao acompanhamento do El Niño e de seus possíveis efeitos sobre a agricultura e a pecuária.

A ferramenta reúne informações climáticas e orientações para auxiliar produtores no planejamento das atividades.

O conteúdo também contempla questões relacionadas à gestão de riscos, ao crédito rural, ao seguro e ao zoneamento agrícola.

O objetivo é apoiar decisões antes da implantação das lavouras e da contratação de operações financeiras vinculadas à produção.

A iniciativa complementa as notas técnicas da Embrapa, que apresentam recomendações específicas para as cinco regiões brasileiras.

Norte do Espírito Santo também exige atenção ao El Niño

Embora o alerta principal desta análise seja direcionado à agropecuária do Nordeste, a Embrapa também identifica riscos para áreas do Sudeste, incluindo o norte do Espírito Santo.

As projeções para o El Niño 2026/2027 indicam possibilidade de condições mais secas nessa parte do território capixaba, acompanhadas de temperaturas acima da média.

O cenário merece atenção dos produtores rurais porque a disponibilidade de água interfere diretamente no desenvolvimento das lavouras, na manutenção das pastagens e na produtividade da pecuária.

Na cafeicultura, por exemplo, o déficit hídrico durante fases importantes do desenvolvimento dos frutos pode comprometer o desempenho das plantas.

A Embrapa aponta o período entre o final de 2026 e o início de 2027 como uma janela de atenção para a produção de café no Sudeste, especialmente em relação à floração e ao enchimento dos grãos.

Os riscos variam de acordo com a localização da propriedade, as condições de solo, a disponibilidade de irrigação e o comportamento efetivo das chuvas.

Planejamento antecipado é principal recomendação para o agro

A orientação central da Embrapa é que o setor produtivo se prepare para possíveis períodos de escassez de água sem depender exclusivamente da ocorrência de chuvas regulares.

Para a agricultura, isso envolve escolher corretamente as áreas e épocas de plantio, selecionar culturas adaptadas e conservar a umidade do solo.

Na pecuária, as prioridades incluem organizar reservas de alimento, acompanhar a capacidade de suporte das pastagens e garantir fontes de água para os animais.

A instituição ressalta que o El Niño não determina, isoladamente, a ocorrência de seca em todas as áreas do Nordeste. Seus impactos dependem da interação com outros fatores climáticos, especialmente as condições do Atlântico Tropical.

Ainda assim, o cenário projetado para o primeiro semestre de 2027 justifica a adoção de medidas preventivas.

Com o planejamento antecipado, agricultores e pecuaristas podem reduzir sua exposição aos riscos climáticos e fortalecer a capacidade das propriedades de enfrentar períodos de chuvas irregulares, calor intenso e restrição hídrica.

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