Estudo analisou 21 sistemas de monitoramento e propõe dez medidas para ampliar transparência, combater desmatamento e acompanhar fornecedores diretos e indiretos
O Brasil já dispõe de ferramentas avançadas para acompanhar as cadeias produtivas da soja e da carne bovina, mas ainda precisa integrar melhor os sistemas existentes para atender às exigências ambientais do mercado internacional.
A conclusão faz parte do estudo “Rastreando a Responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil”, elaborado pelo WRI Brasil.
A pesquisa avaliou 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade socioambiental, sendo dez voltadas à soja e 11 à carne bovina. Os mecanismos analisados são utilizados principalmente para acompanhar a produção nos biomas Amazônia e Cerrado.
A partir da comparação entre os sistemas, os pesquisadores elaboraram dez recomendações para fortalecer o controle das cadeias produtivas e ampliar a transparência sobre a origem dos produtos.
Propriedade rural como base do monitoramento
Entre as propostas está a adoção da propriedade rural como unidade principal de acompanhamento.
O estudo também defende maior utilização de bases oficiais e dados cientificamente validados, além da verificação do cumprimento do Código Florestal e de possíveis violações relacionadas ao trabalho forçado.
Outra recomendação é ampliar a realização de auditorias independentes e tornar públicos relatórios sobre os resultados dos sistemas de rastreabilidade.
Os pesquisadores consideram ainda necessário estender o monitoramento a todos os biomas brasileiros, e não apenas às regiões atualmente mais acompanhadas.
Fornecedores indiretos entram no radar
Um dos principais desafios apontados é acompanhar toda a cadeia produtiva.
Na pecuária, por exemplo, um animal pode passar por diferentes propriedades antes de chegar ao frigorífico. Por isso, o estudo recomenda a criação de mecanismos capazes de identificar também os fornecedores indiretos.
A proposta é permitir que o histórico socioambiental seja acompanhado ao longo de toda a cadeia de produção.
O trabalho também sugere a criação de procedimentos para que fornecedores considerados irregulares possam retornar às cadeias comerciais depois de corrigirem os problemas e comprovarem a regularização.
Desmatamento está entre os principais critérios
As recomendações incluem critérios relacionados ao combate ao desmatamento.
O estudo propõe que os sistemas assegurem a ausência de desmatamento ilegal de acordo com o marco temporal de 2008.
Também recomenda desmatamento zero após agosto de 2020, em alinhamento com compromissos ambientais e exigências crescentes de compradores internacionais.
Outra orientação é criar modelos de governança com participação de diferentes setores para acompanhar e aperfeiçoar os mecanismos de controle.
Rastreabilidade ganha importância no comércio exterior
A capacidade de demonstrar a origem da soja e da carne bovina tornou-se cada vez mais relevante para o acesso aos mercados internacionais.
Segundo os pesquisadores, a integração das bases de dados e a adoção de critérios técnicos comuns poderiam facilitar a avaliação dos riscos socioambientais por países importadores, instituições financeiras e investidores.
A China aparece como exemplo da importância comercial dessas cadeias. Em 2024, o país importou do Brasil US$ 44,6 bilhões em soja e carne bovina.
Um sistema mais integrado de rastreabilidade poderia ampliar a transparência sobre a origem dos produtos e facilitar a comprovação do cumprimento de critérios ambientais.
Sustentabilidade também pode gerar oportunidades no campo
Para os pesquisadores, a rastreabilidade não deve ser vista apenas como uma exigência dos mercados compradores.
Sistemas mais eficientes também podem contribuir para um modelo de desenvolvimento rural que combine produção, preservação ambiental, inovação e geração de renda.
A proposta é aproximar produtores, empresas, governos, instituições financeiras e países importadores em torno de critérios comuns para acompanhar a produção.
Segundo o estudo, o avanço da rastreabilidade pode fortalecer a competitividade da soja e da carne brasileiras, ao mesmo tempo em que amplia a transparência ambiental das duas cadeias produtivas.