Pesquisas mostram Ricardo e Pazolini na dianteira, enquanto os vices revelam diferentes estratégias na corrida pelo Governo do Estado.
Por Marcelo Rossoni
A eleição para o Governo do Espírito Santo começa a ganhar contornos mais definidos. As pesquisas mais recentes colocam Ricardo Ferraço (MDB) e Lorenzo Pazolini (Republicanos) bem à frente dos demais candidatos. Helder Salomão (PT) aparece num segundo pelotão, enquanto Rafael Demuner (UP) permanece distante dos primeiros colocados.
Até aí, os números contam a história. Mas não contam toda a história.
Com as chapas definidas, vale olhar para quem cada candidato escolheu para caminhar ao seu lado. Vice raramente ganha eleição sozinho. Também não costuma fazer milagres. Mas uma escolha mal feita pode produzir ruído, criar rejeição e obrigar o candidato a passar parte da campanha explicando aquilo que deveria ajudá-lo. No sentido contrário, uma boa composição acrescenta território, partido, segmento social, discurso ou simplesmente tranquilidade. E tranquilidade, numa campanha eleitoral, não é pouca coisa.
Os levantamentos mais recentes ajudam a estabelecer o ponto de partida. Na Real Time Big Data divulgada em agosto, Ricardo aparece com 42%, contra 33% de Pazolini. Helder tem 11%, Breno Barcelos (Missão), 2%, e Demuner não pontuou.
A Quaest apresenta Ricardo também na liderança, com 35%, seguido por Pazolini, com 28%, Helder, com 10%, Breno, com 2%, e Demuner, com 1%. A pesquisa ouviu 804 eleitores entre 23 e 26 de agosto e tem margem de erro de três pontos percentuais.
A Paraná Pesquisas apresentou uma fotografia diferente no topo: Pazolini com 39% e Ricardo com 38,2%. A distância de apenas 0,8 ponto percentual configura empate técnico. Helder aparece com 7,5%, Breno com 1,5% e Demuner com 0,7%.
Há outro dado que merece atenção. Nas simulações de segundo turno, Ricardo aparece 10 pontos à frente de Pazolini tanto na Quaest, por 45% a 35%, quanto na Real Time Big Data, por 47% a 37%. É cedo para transformar isso em prognóstico, mas não para perceber que a capacidade de conquistar o eleitor que hoje está fora das respectivas bases será uma das questões centrais da campanha.
É justamente aí que entram os vices.
Ricardo escolheu Camillo Neves (PP), vereador de Vitória, jovem e em primeiro mandato. Camillo não desembarca na chapa carregando uma multidão de votos debaixo do braço — e provavelmente ninguém esperava isso dele. Sua importância está muito mais na engenharia da composição.
A presença do PP ajuda a dar forma à aliança construída em torno de Ricardo e oferece à chapa uma imagem geracional diferente. De um lado está um candidato com longa trajetória na política capixaba; do outro, um vereador jovem, recém-chegado ao mandato municipal.
A combinação procura transmitir experiência sem deixar a chapa com cheiro de fotografia antiga.
Camillo tem ainda uma vantagem nada desprezível: não cria disputa de protagonismo. Entra para acrescentar, não para dividir o palco. Em campanhas majoritárias, nas quais não é exatamente raro o vice começar a dar trabalho antes mesmo de começar a pedir voto, isso já pode ser contabilizado como ativo.
Lorenzo Pazolini tomou um caminho diferente.
Sua escolha foi Eliane Leal (PL), policial militar da reserva e pastora evangélica. A composição tem endereço político e eleitoral bastante visível. Eliane aproxima formalmente Pazolini do PL, reforça a identidade conservadora da chapa, acrescenta uma mulher à composição e procura estabelecer pontes com segmentos nos quais essa candidatura encontra terreno favorável.
Não parece haver improviso nessa escolha. Pazolini sabe onde possui força e decidiu aprofundar a escavação nesse terreno.
A questão é saber até onde essa estratégia consegue levá-lo.
A aproximação com o PL pode funcionar muito bem para consolidar o eleitor conservador. O desafio aparece quando a eleição deixa de ser uma disputa para organizar bases e passa a exigir a conquista de quem está fora delas. Se houver segundo turno entre Ricardo e Pazolini, o eleitor de centro poderá valer tanto quanto aquele que já chegou ao processo eleitoral convencido.
Eliane, portanto, pode ser um eficiente instrumento de consolidação. Resta saber se também será instrumento de expansão.
Helder Salomão enfrenta um problema diferente. Seus percentuais mostram que existe um eleitorado petista e de esquerda claramente identificado com sua candidatura, mas também revelam a distância que ainda precisa percorrer para entrar na briga direta com Ricardo e Pazolini. Na Quaest tem 10%; na Real Time, 11%; na Paraná, 7,5%.
Sua escolha para vice foi a Professora Valdirene, também do PT. Vereadora de São Mateus, no Norte do Estado, Valdirene Bernadino Pires tem 54 anos, exerce seu primeiro mandato na Câmara Municipal e construiu sua trajetória na educação pública e nos movimentos sindical e social.
Há uma complementaridade evidente.
Helder é um político experiente, ex-prefeito de Cariacica, deputado federal e conhecido principalmente por sua longa trajetória na Grande Vitória. Valdirene vem de São Mateus, acrescenta presença feminina à chapa e oferece uma representação territorial importante no Norte capixaba.
Se Ricardo buscou amplitude partidária com Camillo e Pazolini aprofundou sua identidade conservadora com Eliane, Helder procurou ampliar território e representação social sem precisar sair de casa. Foi buscar dentro do próprio PT uma mulher identificada com algumas das bandeiras históricas do partido.
Politicamente, a escolha tem lógica. Eleitoralmente, ainda precisa mostrar resultados.
Helder tem pela frente uma tarefa bem maior do que preservar seu eleitorado tradicional. Precisa romper a barreira que separa uma candidatura com base própria de uma candidatura efetivamente competitiva para chegar ao segundo turno.
Valdirene pode ajudá-lo a conversar com o Norte do Estado, com a educação, com trabalhadores do serviço público e com movimentos sociais. Mas seria exagerado colocar sobre os ombros da vice a responsabilidade por uma mudança que depende, antes de tudo, da capacidade do próprio Helder de ampliar sua candidatura para além das fronteiras tradicionais da esquerda.
O movimento do PT parece claro: crescer sem descaracterizar a chapa.
Rafael Demuner vive uma realidade eleitoral ainda mais difícil.
O candidato da Unidade Popular aparece com 1% na Quaest, 0,7% na Paraná Pesquisas e não pontuou na Real Time Big Data. Olhando apenas os números, está muito distante da briga travada pelos primeiros colocados.
Seria fácil, portanto, passar rapidamente pela chapa da UP e tratá-la como mera participação secundária no processo eleitoral.
Seria também uma leitura pobre.
A escolha de Dionary Sarmento merece ser examinada por uma régua diferente. Militante do campo progressista, Dionary construiu ao longo dos anos algo que não cabe com facilidade numa planilha eleitoral: reputação.
Entre jornalistas e comunicadores capixabas, é uma figura de elevado conceito. Não necessariamente porque todos concordem com suas posições — respeito político não exige concordância —, mas pela coerência com que sempre assumiu aquilo em que acredita e pela fidelidade à sua trajetória política e partidária.
Dionary é aposentada e foi presa política durante o período da ditadura militar. Sua presença como vice de Demuner também dá à chapa uma identidade histórica e política muito clara.
Num ambiente em que trocar de partido, de discurso e até de convicção conforme a direção do vento deixou há muito tempo de causar espanto, a coerência acaba chamando atenção justamente por ter se tornado artigo menos abundante.
Dionary não chega para transformar 1% em 20%. Seria fantasioso atribuir a qualquer vice esse poder. O que ela entrega a Demuner é outra coisa: credibilidade, identidade política e respeitabilidade.
Talvez seja justamente aí que a chapa da Unidade Popular apresente sua característica mais peculiar. Não parece uma composição feita para acomodar uma legenda maior, juntar estruturas eleitorais ou produzir uma fotografia conveniente para a campanha. Demuner e Dionary pertencem claramente ao mesmo campo político e apresentam afinidade programática perceptível.
Isso não resolve a enorme distância eleitoral que os separa dos favoritos. Pesquisa continua sendo pesquisa e urna continua sendo urna. Mas impede que a candidatura seja analisada apenas pelo tamanho do número que aparece ao lado do nome de Demuner.
Há influência política que não se mede exclusivamente em intenção de voto.
No fim das contas, as escolhas dos vices dizem bastante sobre as estratégias colocadas na mesa.
Ricardo procurou ampliar sua arquitetura política e acrescentar juventude à chapa. Pazolini preferiu consolidar sua identidade conservadora e fortalecer a base onde já encontra terreno fértil. Helder buscou território e representação social sem abandonar a identidade petista. Demuner privilegiou afinidade programática e coerência política.
São quatro movimentos diferentes para quatro necessidades diferentes.
As próximas pesquisas poderão mostrar se Camillo Neves, Eliane Leal e Professora Valdirene produziram algum movimento perceptível entre os eleitores. No caso de Dionary Sarmento, a medição será mais complicada. Seu principal patrimônio não está necessariamente na transferência direta de votos, mas na respeitabilidade conquistada ao longo de uma vida de posições políticas assumidas às claras.
No final, o eleitor escolhe governador, não vice. Mas quem um candidato convida para dividir a chapa nunca é um detalhe.
Às vezes, diz muito mais sobre ele do que um discurso inteiro.