Por Marcelo Rossoni
Em tempos de polarização, até uma caneta pode adquirir significado político. E a fotografia registrada no Congresso em Defesa do Banestes Público e Estadual oferece uma dessas coincidências que parecem ter sido cuidadosamente preparadas por um fotógrafo bem-humorado: Helder Salomão, Rafael Demuner e Ricardo Ferraço aparecem assinando o mesmo documento — e os três seguram a caneta com a mão esquerda.
Três candidatos ao Governo do Espírito Santo. Três partidos diferentes. Três trajetórias políticas bastante distintas. E três canhotos.
Antes que algum estrategista eleitoral mais afoito enxergue nisso uma nova frente ampla da esquerda, convém esclarecer: estamos falando de anatomia, não de ideologia.
Helder Salomão é do PT e, portanto, dificilmente causará espanto ao aparecer escrevendo com a esquerda. Rafael Demuner, da Unidade Popular (UP), também não produzirá qualquer crise de identidade partidária por causa da mão escolhida para segurar a caneta. A surpresa fica por conta de Ricardo Ferraço, do MDB, político cuja trajetória sempre transitou muito mais pelo centro do tabuleiro, embora tenha passado pelo PPS. Na fotografia, porém, não há centro possível: a caneta foi decididamente para a esquerda.
O curioso é que os três estavam reunidos justamente para assinar um compromisso de preservação do Banestes como banco público e estadual. O Congresso foi realizado no sábado, 22 de agosto, pelo Sindicato dos Bancários do Espírito Santo (Sindibancários-ES), que convidou os candidatos ao Governo para assumir formalmente a defesa da instituição.
Helder Salomão, Rafael Demuner e Ricardo Ferraço compareceram e assinaram. Breno Barcelos, do Missão, enviou representante e, segundo informações divulgadas sobre o encontro, comprometeu-se também com a assinatura. Lorenzo Pazolini, do Republicanos, foi a ausência que acabou chamando mais a atenção.
E aqui a fotografia deixa de ser apenas divertida para ganhar um pouco de tempero político.
Enquanto três candidatos colocavam a mão esquerda para trabalhar em defesa do Banestes, Pazolini preferiu não colocar nem à direita nem à esquerda. Simplesmente não apareceu.
Talvez tenha sido apenas uma decisão de agenda. Talvez uma opção política. Talvez a campanha tenha considerado inconveniente assumir naquele momento um compromisso dessa natureza. Seja qual for a explicação, a ausência inevitavelmente conversa com um episódio ocorrido durante sua administração na Prefeitura de Vitória.
Em 2021, no primeiro ano da gestão Pazolini, a Prefeitura licitou a cessão da folha de pagamento dos servidores municipais. O Bradesco venceu a disputa oferecendo R$39,1 milhões, valor superior aos R$26 milhões inicialmente estimados pelo município. O contrato foi firmado por cinco anos.
Na ocasião, a administração apresentou uma justificativa essencialmente financeira. A folha era tratada como um ativo valioso e a Prefeitura argumentava que, durante anos, deixara de obter receita com sua exploração. A lógica era simples e perfeitamente compreensível sob o ponto de vista do caixa municipal: se os bancos privados estavam dispostos a pagar milhões pelo direito de administrar a folha, por que entregar esse ativo gratuitamente?
É justamente aí que mora a pequena ironia da fotografia.
Defender um banco público em discurso é relativamente fácil. Mais interessante é observar o que cada político faz quando aparece diante dele uma decisão concreta envolvendo dinheiro, patrimônio público e conveniência administrativa.
No sábado, pelo menos diante das câmeras, três candidatos resolveram a questão com tinta azul sobre papel branco. E todos, por uma dessas travessuras que a política oferece de vez em quando, fizeram isso com a mão esquerda.
A imagem certamente não autoriza qualquer conclusão ideológica. Seria bobagem imaginar que alguém se torna progressista porque nasceu canhoto — assim como ninguém vira conservador porque segura o garfo com a direita. Mas política também é feita de símbolos, e símbolos às vezes aparecem sem pedir licença aos marqueteiros.
Helder, Demuner e Ricardo provavelmente chegaram ao evento sem combinar absolutamente nada sobre mãos, canetas ou enquadramentos. Ainda assim, produziram uma fotografia capaz de render mais conversa do que muito discurso cuidadosamente ensaiado.
Num Espírito Santo em plena campanha eleitoral, onde cada gesto será examinado, interpretado e eventualmente torcido até caber numa narrativa, três candidatos escreverem simultaneamente com a esquerda chega a ser uma provocação involuntária.
Principalmente porque o quarto personagem dessa história nem precisou aparecer na fotografia.
Enquanto os três canhotos assinavam, Pazolini conseguiu uma façanha ainda mais rara na política: tornou-se personagem da cena justamente pela ausência.
No fim das contas, talvez seja melhor não procurar ideologia demais nas mãos.
Mas que a fotografia ficou boa, ficou.
E, pelo menos naquele sábado, na defesa do Banestes, as canetas estavam nas mãos esquerdas