Os juros futuros percorreram o último pregão da semana ainda se ajustando à expectativa consolidada no mercado de que há grandes chances de alternância de poder em 2027. As taxas operaram em queda firme, após as primeiras pesquisas para o segundo turno da eleição presidencial indicarem que a vantagem do senador Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula se mantém.
Com impulso do 'trade eleitoral', a inflação de setembro acima do esperado não impediu que o rali iniciado na segunda-feira continuasse, embora algumas instituições tenham elevado suas projeções para a alta do IPCA em 2026. A percepção de que uma vitória da oposição levaria a um ajuste fiscal no próximo ano, por outro lado, segue motivando revisões baixistas para a trajetória da Selic.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,441%, no ajuste da véspera, a 13,439%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 12,220%, vindo de 12,315% no ajuste, e o para janeiro de 2031 caiu de 12,447% a 12,245%.
No cômputo da semana, marcada pela surpresa com a liderança de Flávio no primeiro turno, a curva a termo teve forte desinclinação, com perda de cerca de 150 pontos-base nas taxas dos contratos de janeiro de 2029 e 2031, ao passo que a ponta curta andou de lado.
Publicada nesta sexta-feira, 9, pesquisa Atlas/Bloomberg mostra Flávio com 51,1% das intenções de voto para o segundo turno, 5,4 pontos porcentuais à frente de Lula. Considerando apenas os votos válidos, Flávio tem 52,8%, ante 47,2% de Lula. Já a Datafolha, divulgada na quinta, indica o senador com 49% dos votos totais, contra 45% do petista - o que significa empate técnico no limite da margem de erro, de 2 pontos. Em votos válidos, Flávio tem 52%, e Lula, 48%.
Questionado sobre se a reação dos ativos domésticos pode ser considerada exagerada, um economista de uma grande tesouraria afirmou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), sob anonimato, que o desempenho não está desalinhado. "Ficou 99% de chance do Flávio ganhar, mesmo", comentou. Ele menciona, ainda, uma reportagem da revista Veja desta sexta sobre supostas negociações de Daniel Vorcaro com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, com R$ 30 milhões em espécie pagos ao Instituto Lula. "Acho que essa matéria deu 'uma animadinha' a mais", disse.
De acordo com a revista Veja, Vorcaro teria disponibilizado R$ 30 milhões, em espécie, ao Instituto Lula, gerenciado por Paulo Okamotto, para o financiamento de um documentário sobre o presidente Lula (PT).
Para embasar, a reportagem cita documentos entregues para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e um áudio atribuído a Vorcaro. A equipe de Lula nega.
Fontes na PGR e na Polícia Federal ouvidas pelo portal UOL dizem desconhecer a gravação, negam a existência de documento e atribuem a divulgação a uma tentativa da defesa de Vorcaro de influenciar na eleição.
A jornalista Daniela Lima, do programa Pulso Político, do Canal UOL, apurou que o advogado Daniel Bialski, que integra a defesa de Vorcaro, afirmou desconhecer as supostas declarações atribuídas ao ex-banqueiro a respeito do financiamento de um documentário sobre o presidente Lula.
Estrategista global da Avenue, Fernando Saad Benatti diz que o comportamento benigno dos ativos na sessão foi essencialmente local, uma vez que, enquanto o dólar se fortaleceu globalmente, a divisa americana se depreciou frente ao real. Segundo ele, os agentes vêm trabalhando com uma espécie de cálculo de probabilidades: consideram as chances de vitória de Flávio e os possíveis benefícios de uma política fiscal mais disciplinada em comparação a um cenário de reeleição do incumbente.
"Essa combinação gera maior otimismo, favorecendo o recuo das taxas de juros. E as pesquisas divulgadas reforçam essa percepção, ao elevar a probabilidade atribuída a uma vitória de Flávio Bolsonaro", disse. Em condições normais, apontou Benatti, um número de inflação superior ao previsto, como o divulgado nesta sexta, tenderia a pressionar a curva de juros, o que não ocorreu.
O IPCA deixou deflação de 0,32% em agosto e avançou 0,82% em setembro, quase no teto das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, de 0,83%. A aceleração foi influenciada principalmente pelo fim do efeito do bônus de Itaipu na energia elétrica, pela alta dos alimentos e por combustíveis e passagens aéreas.
A deterioração já era aguardada, mas chamou atenção o ganho de fôlego de medidas mais sensíveis ao ciclo econômico, como a média dos núcleos e preços de serviços. Após o dado, o economista Adriano Valladão, do Santander, mudou a projeção do banco para a alta do IPCA em 2026 de 5,0% a 5,2%, com "as métricas centrais mais fortes do que o previsto."
Já a consultoria BuysideBrazil não alterou a previsão para o aumento do índice este ano, de 5,1%, mas cortou a projeção para a Selic terminal de 2027 de 12% para 11%. O número para o fim deste ano foi mantido em 13,25%. A revisão ocorre "à luz de um ajuste fiscal mais significativo no próximo ano", diz a equipe macro da casa, chefiada por Andrea Bastos Damico.