Estratégia prioriza terras raras, lítio, níquel, grafite e outros minerais, com foco em processamento, tecnologia e produção de maior valor agregado no país
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) consolidou os minerais críticos e estratégicos como uma das principais apostas de sua política industrial para os próximos anos. A estratégia busca fazer com que o Brasil avance além da extração e da exportação de matérias-primas, ampliando a participação em etapas de maior valor agregado das cadeias ligadas à transição energética, à digitalização e à indústria tecnológica.
A instituição trabalha com a perspectiva de fortalecer a produção nacional de terras raras, lítio, níquel, cobre, grafite, platina e outros minerais considerados estratégicos. O objetivo é estimular projetos que incluam processamento, refino, produção de materiais intermediários e fabricação de componentes.
No caso das terras raras, a intenção é apoiar inicialmente a produção de óxidos separados e, de forma progressiva, avançar para ligas e ímãs permanentes. No lítio, o foco está em produtos com grau adequado para baterias.
A lógica é ampliar a parcela de valor que permanece no país. Em vez de limitar a atuação brasileira ao fornecimento de minério bruto, a estratégia busca criar capacidade industrial e tecnológica associada a essas cadeias.
R$ 45,8 bilhões em projetos
Um dos principais instrumentos dessa política é a Chamada Pública para Transformação de Minerais Estratégicos, realizada em parceria entre BNDES e Finep.
Foram selecionados 56 projetos, que somam R$ 45,8 bilhões em investimentos previstos. O conjunto contempla iniciativas relacionadas a terras raras, lítio, níquel, grafite, silício, platina e materiais utilizados na fabricação de baterias, entre outras frentes.
Até agora, três operações foram aprovadas no âmbito da chamada, envolvendo Weg, Piauí Níquel e Viridis.
Além disso, o banco analisa uma carteira de 12 projetos considerados mais maduros, com potencial de mobilizar aproximadamente R$ 9 bilhões em financiamentos. A efetivação desses recursos dependerá, entre outros fatores, das estruturas de garantias apresentadas.
Estratégia ganhou força desde 2023
A atuação do BNDES nesse setor vem sendo ampliada nos últimos anos.
Em 2023, o banco passou a utilizar instrumentos de financiamento de longo prazo, incluindo recursos do Programa Mais Inovação e do Fundo Clima.
No ano seguinte, estruturou, em parceria com a Vale, um fundo de investimento dedicado a minerais críticos e estratégicos. O modelo permite participação em projetos também como investidor, além da atuação tradicional como financiador.
Em 2025, a estratégia ganhou novo impulso com a chamada pública realizada em conjunto com a Finep e com a atualização das regras socioambientais aplicáveis ao setor mineral.
A BNDESPAR, braço de participações do banco, também passou a considerar minerais críticos e fertilizantes minerais entre suas prioridades de investimento direto.
Em agosto de 2026, no âmbito do Plano Brasil Soberano, os projetos do setor passaram a contar com referencial de custo financeiro de 3% ao ano.
Garantias são principal desafio
Apesar do volume de projetos apresentados, a expansão dos financiamentos depende de estruturas capazes de reduzir os riscos típicos da mineração.
Entre eles estão as incertezas geológicas, as dificuldades tecnológicas no processamento dos minerais, a volatilidade dos preços internacionais e o longo prazo necessário para maturação dos investimentos.
Por isso, o BNDES trabalha em modelos de cofinanciamento, compartilhamento de riscos e project finance, formato no qual a viabilidade do próprio empreendimento tem papel central na estrutura de financiamento.
A instituição também busca atrair bancos, fundos internacionais, agências multilaterais e outros investidores para ampliar a disponibilidade de capital.
Disputa global aumenta importância dos minerais
A estratégia brasileira avança em meio à crescente competição internacional por minerais essenciais às novas tecnologias.
Estados Unidos, China, União Europeia, Japão e Coreia do Sul têm reforçado políticas destinadas a garantir o abastecimento de matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de energia e componentes industriais.
Nesse cenário, o Brasil ocupa posição relevante por possuir reservas de diversos minerais considerados estratégicos.
A aposta do BNDES é aproveitar essa vantagem geológica para ampliar a capacidade industrial do país, evitando que a maior parcela do valor econômico associado a esses recursos continue sendo gerada no exterior.
Com 12 projetos em estágio mais avançado de análise e uma carteira potencial de R$ 45,8 bilhões, o ritmo de expansão dependerá agora da capacidade de transformar propostas em financiamentos contratados, obras e unidades industriais.
O desafio é fazer com que a riqueza mineral brasileira resulte não apenas em exportação, mas também em tecnologia, empregos, processamento industrial e cadeias produtivas instaladas no país.