O tarifaço imposto pelos Estados Unidos às exportações brasileiras completa um mês neste sábado (6). Desde que a sobretaxa de até 50% entrou em vigor, em 6 de agosto, o governo federal, empresários e entidades de classe têm se mobilizado em busca de soluções. A resposta envolve negociações diplomáticas, medidas de apoio econômico e reforço da defesa da soberania nacional.
O anúncio foi feito ainda em julho, quando o presidente norte-americano Donald Trump enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comunicando a aplicação da tarifa extra de 50% sobre todas as exportações brasileiras. O argumento era o déficit comercial dos EUA e suposto “tratamento injusto” ao ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.
A medida começou a valer em 6 de agosto, após ordem executiva assinada por Trump. No entanto, cerca de 700 produtos foram excluídos da tarifa máxima, entre eles aeronaves e peças da Embraer, combustíveis, fertilizantes, minérios e celulose.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), 35,9% das exportações brasileiras foram diretamente afetadas pelo tarifaço cheio, que soma 50%. Outros 19,5% seguem com tarifas específicas por alegação de segurança nacional, enquanto 44,6% ficaram de fora, mantendo cobrança de até 10%.
De acordo com o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin, as novas tarifas atingem 3,3% do total das exportações brasileiras para os EUA. Ainda assim, setores inteiros foram fortemente impactados, como o de calçados em Franca (SP) e a fruticultura irrigada em Petrolina (PE). O estado do Ceará, onde mais de 90% das vendas externas dependem do mercado americano, decretou situação de emergência.
Apesar da entrada em vigor das tarifas, autoridades brasileiras continuam buscando negociação. Alckmin reuniu-se com o encarregado de negócios da embaixada americana, Gabriel Escobar, enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentou encontros com autoridades do Tesouro norte-americano — um deles cancelado de última hora.
Especialistas apontam que o Brasil adotou uma postura institucional, evitando confronto direto e mantendo canais diplomáticos. A embaixadora Maria Luiza Viotti, em Washington, foi responsável por conduzir parte das negociações que resultaram na lista de produtos isentos.
Além da diplomacia, o governo brasileiro reforçou a defesa da soberania. O presidente Lula declarou em Recife que Trump “resolveu contar algumas mentiras sobre o Brasil” e que “nós estamos desmentindo”. Em reunião ministerial, orientou ministros a não aceitarem “desaforo, ofensas nem petulância de ninguém”, mas reiterou que o Brasil segue aberto ao diálogo.
O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando violação de compromissos internacionais. Internamente, iniciou o processo para aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em abril, que autoriza contramedidas tarifárias. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) já avalia possíveis respostas.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), no entanto, defende cautela e insiste em manter negociações. Nesta semana, uma comitiva com 130 empresários esteve em Washington para tentar amenizar os efeitos do tarifaço.
Para mitigar os impactos, o governo lançou o Plano Brasil Soberano, com pacote de R$ 30 bilhões em crédito a juros mais baixos para exportadores. A medida provisória publicada em 2 de setembro garante crédito extraordinário. O plano também prevê benefícios fiscais, prorrogação da suspensão de tributos e compras governamentais de produtos de empresas afetadas.
Os dados de agosto mostram que as exportações brasileiras para os EUA caíram 18,5% em relação ao mesmo mês de 2024. Até mesmo itens não incluídos no tarifaço, como aviões e minério de ferro, registraram queda, possivelmente devido à antecipação de embarques em julho.
Apesar disso, a balança comercial geral do Brasil fechou agosto com saldo positivo de US$ 6,1 bilhões, puxada por vendas para China e Argentina.
Para a economista Lia Valls Pereira, da Uerj e da FGV, a queda nas exportações já reflete os efeitos do tarifaço. “Alguns setores têm mais chances de diversificar mercados; para outros, isso será bem mais difícil”, avaliou.
O economista Matheus Dias, do Ibre/FGV, observou que a inflação interna não foi pressionada pela medida, em grande parte devido à exclusão de quase 700 produtos da tarifa máxima. “Caso esses produtos tivessem sido taxados, haveria forte realocação para o mercado interno, impactando preços”, explicou.