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Tarcísio segue patamar tucano de verba a aliados, e Sabesp dita ritmo

FolhaPress 15/01/2024 08:38

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em seu primeiro ano de mandato, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) manteve o patamar das gestões tucanas de emendas voluntárias para deputados estaduais, privilegiando os que são aliados e seguindo um ritmo de pagamento ditado pelo projeto de privatização da Sabesp.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

No total, até 28 de dezembro de 2023, 89 dos 94 deputados estaduais fizeram indicações que somam R$ 858 milhões para serem gastos com prefeituras e entidades das suas regiões de atuação.

De acordo com os dados publicados pela Secretaria de Governo, Tarcísio pagou efetivamente 41% (R$ 355 milhões) até a mesma data, um dos fatores que explicam a insatisfação que reinou na base tarcisista na Assembleia Legislativa de São Paulo. Sobre as ainda não quitadas, cita complexidades de tramitação.

As gestões de João Doria e Rodrigo Garcia (PSDB) prometeram para os deputados estaduais, em valores corrigidos pela inflação, cerca de R$ 862 milhões em 2021 e R$ 605 milhões em 2022.

O principal projeto de Tarcísio, a aprovação da privatização da Sabesp, acabou guiando os pagamentos, o que integrantes do governo dizem ser uma coincidência. Em 20 de outubro, três dias depois do envio do texto à Alesp, o Palácio dos Bandeirantes realizou o maior repasse até então, de R$ 78 milhões.

Quase 53% do total das indicações foram pagas em novembro, durante a tramitação do projeto na Casa. No dia 6 de dezembro, 62 deputados votaram a favor da venda da estatal, mais do que a expectativa do próprio governo, que falava em cerca de 50 votos.

Integrantes do governo, no entanto, afirmam que não houve favorecimento de deputados nem liberações vinculadas à aprovação de projetos. Eles dizem que os pagamentos ficaram para o fim do ano por problemas na logística das emendas, que às vezes não cumprem os critérios para serem pagas.

SESC PICASSO

Deputados aliados somaram R$ 11 milhões em indicações voluntárias, contra R$ 5,5 milhões de deputados do PT, que são oposição. Apenas os cinco deputados do PSOL não indicaram emendas extras.

Entre os valores pagos, 91% foram para partidos da base e apenas 9% para a oposição. Dentre as indicações do Republicanos, 55% foram pagas, proporção que cai para 26% no caso do PT.

Ao longo do ano, Tarcísio passou por uma série de reveses na Alesp em meio à pressão do centrão por emendas e cargos e diante da cobrança de um alinhamento ao bolsonarismo por parte da bancada conservadora.

Apesar de uma resistência inicial, Tarcísio estabeleceu, em junho, o modelo de pagamento das emendas voluntárias e vai repetir a prática neste ano. Na visão de aliados do governador, as indicações são uma forma mais saudável de contemplar a base do que a entrega de cargos para apadrinhados políticos.

Os dados mostram que alguns deputados bolsonaristas, como Lucas Bove (PL) e Major Mecca (PL), estão entre os que tiveram menos indicações pagas, o que contribuiu para o descontentamento dessa ala.

Gil Diniz (PL), deputado mais próximo da família Bolsonaro na Alesp, por exemplo, teve R$ 5,5 milhões em indicações pagas, ficando em 27º lugar no ranking. Gil é um dos membros do bloco de bolsonaristas que passou a se declarar independente em relação ao governo.

As reclamações em relação à articulação política do governador, porém, não se restringem a esse grupo. Apenas 5 dos 89 deputados tiveram a totalidade das suas indicações executadas.

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Coordenadas pelo secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), as emendas extras ou voluntárias, que sob Tarcísio são feitas por meio das indicações parlamentares, são liberadas conforme a conveniência do governo --ao contrário das emendas impositivas, que têm o mesmo valor para todos os deputados e são de pagamento obrigatório.

Em 2023, cada deputado teve direito a R$ 10,5 milhões em emendas impositivas para seus redutos eleitorais. Os deputados de primeiro mandato, que são 39, não usufruem dessa verba no primeiro ano da nova legislatura, o que ampliou a pressão pelas emendas extras.

No caso das emendas impositivas, o governo pagou R$ 617 milhões (66% do que foi indicado) em 2023.

Em relação às indicações, membros do governo dizem que o valor combinado foi de R$ 10 milhões para a base e R$ 5 milhões para a oposição --a diferença nos dados se daria porque algumas indicações para entidades que não cumprem os requisitos precisaram ser refeitas.

Ao contrário de Tarcísio, as gestões tucanas também atenderam deputados federais e senadores, o que, se somar às verbas para deputados estaduais, atinge uma liberação recorde de mais de R$ 1 bilhão em 2021 e novamente em 2022, no contexto de preparação de Doria e Rodrigo para disputar as eleições.

Sem transparência, as liberações para cerca de 60 deputados estaduais tinham níveis de valores que começavam com R$ 2,5 milhões para os de oposição e variavam mesmo entre os da base, chegando a R$ 30 milhões para alguns poucos.

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Tarcísio manteve os patamares tucanos para os deputados estaduais, mas deu mais institucionalidade à prática --abrangendo quase a totalidade dos parlamentares, com valores mais igualitários e publicando os dados na internet.

Cientista político e professor da FGV, Claudio Couto vê um "critério tecnocrático que politicamente não faz muito sentido". "Fico com a pulga atrás da orelha sobre o papel dos articuladores, como Kassab, no governo", diz.

O secretário da Casa Civil, Arthur Lima (PP), afirma que o Executivo compreendeu a importância das indicações. Ele lembra que o governo aprovou todos os projetos de seu interesse na Alesp.

"O Parlamento é quem faz o Orçamento, então nada mais justo do que os deputados executarem uma parte dele. Por meio das emendas, os deputados podem, junto a suas bases, fazer o papel do parlamentar", disse à Folha de S.Paulo.

O governo Tarcísio afirmou que as indicações são realizadas com transparência e podem ser consultadas em detalhes. Também declarou que o ritmo de pagamento não é vinculado aos projetos na Alesp e justificou a parcela que ainda não foi paga.

"A liberação e execução das indicações varia de acordo com a complexidade de tramitação de cada uma e não tem relação com a votação de projetos no Legislativo", afirma em nota.

A administração exemplifica mencionando que as indicações de saúde são mais ágeis por ocorrerem por meio de transferências fundo a fundo. Outros tipos de convênios possuem maior complexidade.

"O governo tem mantido contato frequente com parlamentares e prefeituras e a tramitação vem ocorrendo normalmente nas diversas secretarias envolvidas. As indicações devem seguir a legislação e o portfólio de projetos do governo", completa.

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