Por Marcelo Rossoni
O cientista político Weverton Santiago, estudioso do comportamento eleitoral há mais de duas décadas, com formação em Teologia e Ciências Políticas e especialização em Pesquisa, Comunicação e Estratégia Política, afirmou que a disputa por vagas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) em 2026 continuará submetida à lógica, nem sempre evidente, do sistema proporcional — um modelo em que a força individual, isoladamente, costuma valer menos do que se imagina.
Segundo ele, a ideia de que a eleição depende exclusivamente da votação pessoal do candidato não resiste a uma leitura mais atenta das regras. “O eleitor tende a enxergar a disputa de forma individualizada, mas o sistema funciona de maneira coletiva. Nenhum candidato se elege sozinho; ele depende diretamente do desempenho do partido ou da federação”, disse.
Ao projetar o cenário para 2026, Santiago explicou que o quociente eleitoral — indicador que, na prática, define o “custo” de cada cadeira — deve variar entre 75 mil e 85 mil votos no Espírito Santo. “Considerando um universo estimado entre 2,3 e 2,4 milhões de votos válidos e 30 vagas em disputa, o quociente deve se aproximar de 80 mil votos”, afirmou.
O número, embora expressivo, está longe de encerrar a equação.
Santiago ressaltou que atingir o quociente não garante, automaticamente, a eleição de um candidato. “Há uma exigência legal de desempenho individual mínimo. O candidato precisa alcançar ao menos 10% do quociente eleitoral, algo em torno de 8 mil votos. Sem isso, ele não ocupa a vaga, ainda que o partido tenha votos suficientes”, explicou.
A disputa ganha contornos ainda mais exigentes na fase das chamadas sobras eleitorais — mecanismo que distribui as vagas remanescentes. “Para participar dessa etapa, o partido precisa atingir pelo menos 80% do quociente eleitoral, enquanto o candidato deve alcançar 20%. Isso eleva o piso individual para cerca de 16 mil votos”, disse.
Na prática, observa o cientista político, o sistema estabelece uma espécie de seleção natural das candidaturas.
“Quem pretende reduzir a dependência dessas variáveis precisa trabalhar com uma margem de segurança. Uma votação acima de 20 mil votos já oferece condições mais estáveis para assegurar a vaga”, assegurou.
Ele acrescentou que essa dinâmica influencia diretamente a montagem das chapas partidárias — muitas vezes mais calculadas do que aparentam. “Os partidos buscam composições equilibradas, com candidatos que puxam votos e outros que ajudam a fechar a conta. Não é apenas uma escolha política; é também uma operação matemática”, observou.
Por fim, Santiago destacou que, embora o eleitor raramente acompanhe esses cálculos em detalhe, seus efeitos são decisivos no resultado final. “O voto é individual, mas a eleição é coletiva. Essa é a essência — e, para alguns, a surpresa — do sistema proporcional brasileiro”, concluiu.