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Senadoras líderes são mais interrompidas do que homens, mostra estudo

FolhaPress 02/12/2024 10:12

LONDRES, INGLATERRA (FOLHAPRESS) - "Eu gostaria que vossa excelência, por favor, que vossa excelência ou o senhor não me interrompesse porque é uma linha de raciocínio...", disse a então senadora Simone Tebet (MDB-MS), em audiência da CPI da Covid, em 2021.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Hoje ministra do Planejamento, Tebet era líder da bancada feminina do Senado quando ficou nos holofotes durante a comissão que investigava a atuação do governo Jair Bolsonaro na pandemia.

Na fala reproduzida acima, ela se dirigia ao depoente do dia, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, para pudesse completar a fala. Na mesma sessão, Tebet teve seu discurso atravessado ao menos 11 vezes pelos homens na sala.

A constante interrupção de Tebet não é caso isolado, mostra um estudo publicado no mês passado na revista Dados, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). A pesquisa analisou discursos no Senado entre 1995 e 2018 e concluiu que mulheres líderes são mais interrompidas do que homens com os mesmo cargos.

Os dados dos quase 70 mil discursos analisados pelos pesquisadores Débora Thomé, da Fundação Getulio Vargas, e Mauricio Izumi, da Universidade Federal do Espírito Santo, mostram que mulheres que acumulam poder simbólico, como o cargo de líder partidária ou de bancada, têm 12,5% a mais de chance de interrupção que homens na mesma posição.

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"Nós tínhamos a hipótese de que as mulheres seriam mais interrompidas sempre", explica Thomé. Isso não se confirmou, e homens sem posição de liderança têm 7,5% a mais de chance de sofrerem um aparte.

"Mas, quando a mulher passa ter algum poder simbólico, ela passa a ser mais interrompida a ponto de muitas vezes não conseguir completar o raciocínio", diz a pesquisadora.

E por que isso importa? "O Parlamento é o lugar do discurso, de expor suas ideias. Se a mulher não consegue fazer isso, ela não está ocupando aquele lugar a contento", afirma.

No caso de mulheres eleitas, que ainda são minoria no Congresso, as relações de poder internas definem o quanto de agenda e efetivo poder político as senadoras e deputadas são capazes de exercer.

Não basta, portanto, estar eleita. "Nós quisemos olhar para isso para ver o quão efetiva é a representatividade feminina na política, porque, se a gente não consegue aumentar o poder das mulheres que estão dentro, fica difícil avançar", diz Thomé.

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A interrupção de uma mulher por um homem que não a deixa completar o raciocínio tem até um nome específico em inglês, que se popularizou nos círculos feministas nos últimos anos: manterrupting (junção de "man", homem, e "interrupting", de interrupção).

A prática não é exclusiva do Senado. O influenciador Pablo Marçal (PRTB), durante sua campanha à Prefeitura de São Paulo, por vezes interrompia a única mulher entre os candidatos mais bem colocados, Tabata Amaral (PSB).

Na pesquisa sobre as senadoras, um dado chama a atenção: as mulheres líderes têm mais chances de serem interrompidas por senadores do próprio partido. Os dados mostram que elas têm 28,5% mais chances de serem cortadas durante a fala por um correligionário do que um homem em posição semelhante.

Para Thomé, as disputas internas por poder nos partidos e uma maior percepção de falta de legitimidade da liderança feminina impulsionam essas interrupções. "É surpreendente, mas uma surpresa relativa se a gente parar para pensar que todos eles estão disputando espaço interno dentro das legendas", afirma.

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As interrupções analisadas acontecem em vários pontos do espectro ideológico. Em um dos exemplos do estudo, a então senadora Ana Amélia (PP-RS) discursava em 2017 quando foi interrompida por Ivo Cassol (PP-RO), que passou a falar sobre uma emenda que ele próprio havia apresentado ao projeto que ela abordava.

Anos antes, em 2000, a então senadora petista Heloísa Helena (AL) começou um discurso falando 230 palavras. O então senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu para interrompê-la e fez uma fala de 518 palavras —mais do que o dobro do discurso original.

Além disso, mulheres possuem 11,4% mais chance de serem questionadas por seus pares do que líderes homens, dado lido no estudo como uma maior chance de terem sua credibilidade posta em xeque.

Para os pesquisadores, o trabalho demonstra que as barreiras de gênero não deixam de existir uma vez que a mulher passa pelo primeiro desafio, o de ser eleita. "É preciso se preocupar com o quanto essas mulheres estão exercendo poder efetivo dentro do Parlamento", conclui Thomé.

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