domingo, 12 de julho de 2026
Sustentabilidade

Rio Tietê não tem trecho livre de contaminação, aponta levantamento

Vitória News 26/06/2026 11:34
Rio Tietê não tem trecho livre de contaminação, aponta levantamento
Foto: Rovena Rosa/ABr

Expedição identificou microplásticos em todos os pontos analisados, além de agrotóxicos, fármacos e sinais de esgoto doméstico

O rio Tietê não tem nenhum trecho plenamente livre de contaminação. A conclusão é de um levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, realizado durante a Expedição Tietê 2025, em parceria com universidades e centros de pesquisa.

As análises apontaram diferentes tipos de poluição ao longo do rio, incluindo contaminação microbiológica, química, farmacológica, plástica, agrícola e orgânica. O estudo percorreu mais de 1,1 mil quilômetros, desde a nascente, em Salesópolis, até a foz no rio Paraná, em Itapura, no interior de São Paulo.

As coletas foram feitas em 14 pontos, entre os dias 9 e 14 de junho de 2025. Em todos eles, os pesquisadores encontraram microplásticos. Também foram identificados 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre medicamentos e drogas ilícitas.

Segundo a SOS Mata Atlântica, os resultados mostram que a poluição do Tietê não está restrita ao despejo de esgoto em áreas urbanas. O problema aparece de forma mais ampla e reflete o uso do solo, a expansão das cidades, a atividade agrícola, a presença de reservatórios e falhas no saneamento.

Mesmo em áreas protegidas, como a região da nascente do rio, foram encontrados sinais de interferência humana. Para a entidade, isso reforça a necessidade de cuidar não apenas do curso principal do Tietê, mas de toda a bacia hidrográfica e de seu entorno.

Nos trechos do Médio e Baixo Tietê, os dados indicam maior influência da atividade agrícola. A presença de agrotóxicos está associada a áreas de cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros. O levantamento também identificou metais acima dos limites legais, como cobre, que pode estar relacionado ao uso de fungicidas agrícolas, descargas industriais e corrosão de tubulações.

Um dos pontos de alerta é a presença de atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda utilizado no Brasil. Segundo a SOS Mata Atlântica, a substância foi detectada acima dos limites legais em alguns trechos do rio.

O estudo também encontrou fármacos e substâncias associadas ao consumo humano, como cafeína, carbamazepina, diclofenaco e losartana. A cafeína apareceu em todos os pontos analisados e é considerada um marcador da presença de esgoto doméstico.

Entre os contaminantes identificados também aparecem cocaína e seu metabólito, a benzoilecgonina. Para os pesquisadores, esse tipo de substância funciona como um sinal químico da presença humana e da insuficiência dos sistemas de tratamento para impedir que resíduos cheguem aos rios.

A análise microbiológica encontrou bactérias fecais, patógenos, parasitas e organismos associados a doenças gastrointestinais. O conjunto dos dados mostra que hábitos de consumo, uso de medicamentos, descarte inadequado e tratamento insuficiente de esgoto têm impacto direto na qualidade da água.

A SOS Mata Atlântica alerta ainda que os contaminantes não atuam de forma isolada. Microplásticos podem transportar outras substâncias, como agrotóxicos e resíduos farmacológicos. Já o excesso de matéria orgânica favorece a proliferação de microrganismos e reduz a oxigenação da água, dificultando a recuperação natural do rio.

Diante do diagnóstico, a entidade defende uma estratégia integrada para a recuperação do Tietê. Entre as medidas apontadas estão ampliação do saneamento básico, fiscalização mais efetiva, planejamento territorial, mudanças nas práticas agropecuárias, recuperação de áreas florestais e monitoramento contínuo da qualidade da água.

A fundação também destaca a importância dos comitês de bacias hidrográficas, responsáveis pela gestão dos recursos hídricos. Para a entidade, a recuperação do Tietê depende da atuação conjunta do poder público, setor produtivo, empresas e sociedade.

Com informações da Agência Brasil e da Fundação SOS Mata Atlântica.

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