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Relatório do governo Trump contra Brasil é criticado por entidades de direitos humanos

FolhaPress 13/08/2025 16:11

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Instituições ligadas à promoção dos direitos humanos veem motivações políticas e interesses econômicos no relatório do governo americano que criticou a gestão Lula (PT) e o STF (Supremo Tribunal Federal), em especial o ministro Alexandre de Moraes, por um suposto retrocesso na defesa da liberdade de expressão.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Elaborado pelo Escritório de Direitos Humanos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, sob comando do presidente Donald Trump, o "2024 Country Reports on Human Rights Practices: Brazil" (relatório sobre práticas de direitos humanos por país, em inglês) afirma que a situação se deteriorou no Brasil no ano passado.

O documento diz ainda que Lula reprimiu o debate democrático e que o STF censurou empresas americanas, obrigando-as a deletar postagens nas mídias sociais. O texto foi enviado ao Congresso dos EUA.

"O governo prejudicou o debate democrático ao restringir o acesso a conteúdo online considerado como 'prejudicial à democracia', suprimindo desproporcionalmente a expressão de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, bem como jornalistas e políticos eleitos, frequentemente em processos secretos que careciam de garantias de devido processo legal", afirma o relatório, uma publicação anual produzida pelo governo americano sobre todos os países que fazem parte da ONU.

Ele é considerado uma referência internacional no campo dos direitos humanos e existe desde os anos 1970. As afirmações contrastam com o documento anterior, feito ainda na gestão do democrata Joe Biden, sobre o ano de 2023.

Nesse documento, agressões a jornalistas e outras supressões de direitos humanos no país foram atribuídas a Bolsonaro, que deixou o poder em 2022, contestando as urnas.

Paulo José Lara, diretor-executivo da ONG Artigo 19, organização internacional de direitos humanos, não vê argumentos técnicos no novo relatório da Casa Branca.

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"Sabemos que a intenção de Trump é alterar a ordem internacional, sem apreço pelo multilateralismo, e utilizar o poder para desacordos globais segundo interesses políticos", diz. "É uma intenção de apontar inimigos, enquanto se mantém em silêncio sobre abusos que são cometidos na Rússia e em Israel."

José Lara afirma ainda que, embora existam problemas no Brasil, a liberdade de expressão melhorou em 2024, segundo mostram dados do relatório "The Global Expression Report", concebido pela Artigo 19. O levantamento atribui notas de 0 a 100 para os países, considerando diversas variáveis para mensurar a liberdade de expressão, e cria um ranking a partir das notas.

Em 2023, ano em que Bolsonaro deixou o Planalto, o Brasil saltou da 81ª posição para a 35ª. No momento, o Brasil ocupa o 31º lugar, com 83 pontos --a Dinamarca lidera o ranking, com 94.

O documento expedido pela Casa Branca se insere em um momento de tensão entre EUA e Brasil. Trump acusa as instituições brasileiras de perseguir Bolsonaro, agora réu no STF pela trama golpista, e aplicou uma sobretaxa de 50% a produtos brasileiros.

O ex-presidente encontra-se em prisão domiciliar, suspeito de colaborar com seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), em ataque contra a soberania nacional. Boa parte do relatório dedica-se a criticar ações de Moraes contra a desinformação nas redes sociais.

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No ano passado, o ministro, que é acusado pelo documento de censura, ordenou o bloqueio do X (ex-Twitter) no Brasil até que contas acusadas de fake news fossem removidas. Em junho, o STF endureceu a responsabilização das big techs atuantes no Brasil.

Em publicação nas redes sociais, o ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, rebateu o relatório. "Um governo comprometido com a democracia é um governo que pune tentativas de golpe com o rigor da lei, sem menosprezar ataques ao Estado de Direito ou placitando indulgência contra agressores das instituições de Estado."

Para Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, o relatório é tendencioso, expressa um desconhecimento do funcionamento das instituições no Brasil e não se sustenta em fatos ou na realidade do país.

O documento não cita o impacto da desinformação e das plataformas no Brasil. Tampouco aborda os ataques contra a democracia brasileira nem o enfraquecimento de mecanismos de políticas públicas para o fortalecimento dos direitos humanos levado a cabo no governo Bolsonaro, diz ele.

"O relatório é alimentado por informações viciadas vindas dos maiores violadores de direitos humanos no Brasil e que, nos últimos anos, produziram desinformações, promoveram crimes contra os direitos humanos, promoveram desestabilização do Estado democrático de Direito", afirma Sottili.

Um dos fundadores e conselheiro da Comissão Arns de Direitos Humanos, Oscar Vilhena, colunista da Folha, lembra que a legislação brasileira sobre liberdade de expressão é bem diferente da americana, estando pertinente com o regime internacional.

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Segundo ele, é paradoxal que as reprimendas venham agora dos EUA. Durante o seu primeiro mandato, Trump separou mães ilegais de seus filhos nas fronteiras. Em sua mais recente declaração, afirmou que moradores em situação de rua devem deixar a capital americana, Washington.

"É paradoxal que um relatório sobre direitos humanos esteja sendo usado para defender os que mais conspiraram contra os direitos humanos no Brasil e para atacar justamente a instituição que assumiu a responsabilidade e o peso de julgar os acusados de atentar contra o Estado democrático de Direito no Brasil", afirma.

Silvia Souza, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), diz que o Brasil enfrenta problemas na efetivação dos direitos humanos, mas principalmente devido à desigualdade social e racial, afetando grupos vulneráveis como negros, mulheres e LGBTQIAPN+.

A advogada diz que, no país, a liberdade de expressão não é uma garantia absoluta e que a divulgação do relatório tem um viés de manutenção da polarização política com finalidades autoritaristas.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos do IAB (Instituto dos Advogados do Brasil), Paulo Fernando de Castro, também não nega que existam violações no Brasil, mas diz que o relatório é motivado por aspectos políticos e se soma a outras manifestações do governo Trump em relação ao Brasil.

"Acredito que há um certo radicalismo, um certo exagero", afirma. De acordo com o advogado, existem casos pontuais no âmbito do processo e do qual a pessoa pode se defender no devido processo legal e eventualmente apontar violações. "Não houve, assim como se tenta passar a imagem, uma trama, alguma coisa combinada para minar a liberdade de expressão."

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