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Política

Reeleição é convite à gastança e à corrupção, diz Kajuru, autor de PEC

FolhaPress 22/03/2024 08:38

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Autor da proposta para acabar com a reeleição para prefeitos, governadores e presidente, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) afirma à Folha que eleição a cada dois anos é uma gastança desnecessária, além de um convite à corrupção.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"No segundo mandato você está preguiçoso, desanimado e, se você for corrupto, mais apetitoso. Mais guloso, cachorro mais faminto. Você vai querer roubar mais porque são seus últimos quatro anos. E vai deixar roubar", diz o parlamentar.

Apesar dos sinais do Senado de que a pauta deve avançar em 2024, Kajuru afirma que a recepção da Câmara ainda é "imprevisível" —e não poupa críticas aos colegas da Casa vizinha.

Mesmo líder do PSB e vice-líder do governo, Kajuru avalia que hoje deputados federais do chamado "alto clero" têm mais influência que senadores —impressão que tem sido comum nos corredores do Senado e que não esconde a ciumeira de uma Casa com a outra.

"A Câmara todo dia dá a impressão de que o [escritor e humorista] Millôr Fernandes tinha razão: o dinheiro compra o cão, o canil e o abanar do rabo. Não com todos, eu nunca generalizo. Mas ali é jogo. Ali é ministério, é cargo, é dinheiro todo dia."

Ele diz também: "Hoje deputado federal tem mais valor que senador. Agora, é claro que ele tem que participar do alto clero. Tem que ser um deputado federal de nível, de postura, de credibilidade, com força. Senador, hoje, a força dele é muito menor. O que tem é status. Eu nunca operei uma galinha e tem gente que me chama de doutor".

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A maioria dos brasileiros é contra o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos. Segundo o Datafolha, 58% do eleitorado quer a manutenção da possibilidade de recondução ao cargo, ante 41% que preferem vê-la proibida. O restante não soube responder.

Kajuru foi um dos convidados para o jantar que Lula (PT) promoveu, no início de março no Palácio da Alvorada, com integrantes da base aliada no Senado. Na ocasião, o petista defendeu o instrumento da reeleição, mas disse que não irá interferir na tramitação da proposta.

"Ele [Lula] falou: 'Kajuru, eu te conheço há 35 anos e você sabe que a nossa relação sempre foi a melhor possível. Agora, eu discordo de você. Eu acho que a reeleição é importante. São poucos países que não têm. Não vou interferir'. Falou para todos os líderes: vocês decidem. Não se influenciem pela minha opinião'", disse o senador.

O presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), já se manifestou de modo favorável ao fim da reeleição, assim como governadores, como Romeu Zema (Novo-MG).

Uma das críticas à PEC em tramitação é a de que ela não aplica o mesmo critério para os mandatos no Legislativo, que pelo texto seguiriam sem limite de renovação. De acordo com o parlamentar, uma proposta nesse sentido no Congresso "perderia feio".

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O senador promete, no entanto, apresentar no futuro dois projetos para tentar dar andamento ao que tiver mais apoio: um que aumenta o mandato de parlamentares, sem reeleição; e outro que prevê a possibilidade de até duas reeleições, mas veta uma terceira.

"Evitaria a profissão. Tem gente que está há 46 anos aqui. Tem gente digna. Álvaro Dias ficou 46 anos aqui, um homem de uma honra intocável. Mas não é todo dia que tem um Álvaro Dias. O cardápio não é bom. O cardápio é péssimo. A maioria, vamos falar a verdade, ficou aqui 30, 35, 40 [anos], ficou bilionária, saiu para nunca mais precisar de dinheiro na vida e roubou mesmo", afirma.

"Penso até na minha reeleição. Será justo eu querer ser reeleito senador em 2026 se eu propus o fim da reeleição? É discutível isso. A princípio é uma incoerência. Por isso que talvez, se eu continuar, eu decida ser candidato a deputado federal e encerre a minha carreira. Porque eu vou estar com 72 anos e eu quero beijar na boca e ser feliz."

Kajuru é relator da chamada PEC dos militares, que tenta impedir a entrada de fardados da ativa na política. A PEC foi apresentada em setembro pelo líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), para "garantir a neutralidade política das Forças Armadas".

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O senador admite que integrantes do governo têm buscado um acordo com os militares para atenuar a proposta, mas diz que não vai promover mudanças no seu relatório.

"O relatório é esse, pronto, acabou. Se o governo chegar a um acordo, podem me tirar da relatoria, podem colocar outro. Eu mantenho o meu do mesmo jeito que eu escrevi, não vou mudar."

Disse ainda: "Está em discussão muito a questão da remuneração [a PEC diz que o militar com menos de 35 anos de serviço deve perder o salário se for candidato]. Pode haver algum acordo. Está se discutindo, está havendo todo dia muita conversa."

Ele ainda se queixa do ministro José Múcio, da Defesa, por não tê-lo avisado que tratou da PEC com o senador e ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS).

"O Mourão foi conversar inclusive com o José Múcio. Se for verdade que ele teve essa conversa, o Múcio errou comigo. Ele deveria me comunicar. Eu sou o relator. Fiz um relatório, ele conversa com o Mourão e não me comunica? Você acha isso correto? Eu não gostei. Isso me aborreceu muito. Ele tem uma conversa para fazer acordo com o Mourão e não me comunica? Você está de brincadeira comigo."

RAIO X

Jorge Kajuru, 63

Jornalista, radialista e apresentador de TV, comandou programas esportivos na RedeTV!, Band e SBT. Foi eleito pela primeira vez em 2016, como vereador de Goiânia. É hoje senador por Goiás, líder do PSB e vice-líder do governo.

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