A educação nas comunidades tradicionais da Amazônia ganhou um novo impulso com a contratação de 27 professores recém-formados pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Esses profissionais agora têm a missão de levar educação de qualidade para suas próprias regiões, em um projeto que beneficia 14 comunidades localizadas entre a Reserva Extrativista (RESEX) do Médio Juruá e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, no município de Carauari, a 778 quilômetros de Manaus.
Esses docentes atuarão nas áreas de Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II, além do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O projeto é fruto de uma parceria entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Prefeitura Municipal de Carauari, que iniciou o processo de seleção dos formandos logo após a defesa de seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) em dezembro. O objetivo é proporcionar aos novos professores a oportunidade de trabalhar nas comunidades onde nasceram, promovendo a educação de qualidade de forma contextualizada e integrada à realidade local.
“É um privilégio atuar como professora, porque foram muitas lutas de movimentos e também de moradores do nosso território. Alguns anos atrás, era quase impossível termos uma conquista significativa como esta”, declarou Raimunda Melo, uma das professoras contratadas, destacando a importância dessa iniciativa para o fortalecimento da educação nas comunidades ribeirinhas.
A FAS, que tem um papel crucial no apoio à educação na Amazônia, acredita que a valorização dos saberes locais é fundamental para o desenvolvimento das comunidades. “Ver professores ribeirinhos que se formaram e agora retornam às suas comunidades para ensinar é a materialização da transformação social”, afirma Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS. “Esses professores se tornam protagonistas da transformação nas suas próprias realidades”, completou.
O trabalho desses professores é inspirado na Pedagogia do Campo, um modelo educacional que valoriza as práticas locais e integra os conhecimentos tradicionais à educação formal. A proposta é promover uma aprendizagem que seja relevante para os estudantes e que respeite a identidade cultural das comunidades.
Antônio Francisco, docente na comunidade Santo Antônio do Brito, explica que a educação de qualidade tem um poder transformador. “Ao integrar conhecimentos tradicionais com práticas pedagógicas contemporâneas, não apenas ensinamos conteúdos acadêmicos, mas também formamos cidadãos conscientes e comprometidos com sua realidade”, afirma. Para ele, a educação é uma ferramenta poderosa para combater a desigualdade social e fortalecer a identidade local.
Raimunda Melo, docente da comunidade Vila Ramalho, também reforça a importância dessa abordagem: “A Pedagogia do Campo precisa ganhar voz a partir da troca de conhecimentos entre educador e educando. Devemos valorizar os saberes locais e a identidade dos povos tradicionais”, defende. A prática pedagógica, segundo ela, deve ser uma ponte entre a cultura local e a educação formal, oferecendo aos alunos uma formação que reconheça e respeite suas origens.
Apesar dos desafios enfrentados, como o acesso limitado a recursos educacionais e as dificuldades logísticas de se viver em regiões remotas, os novos docentes estão confiantes de que a formação que receberam os preparou para superar obstáculos. “O nosso contexto é uma educação de e no campo das águas e das florestas. Não temos estradas e vias aéreas, mas sim água. Há desafios, mas a formação nos preparou para isso”, afirma Itamar Carmo, docente na comunidade Novo Idó, destacando que a educação nas áreas rurais exige adaptação às condições locais.
Gilmar Girão Leite, subsecretário municipal de Educação de Carauari, ressaltou a importância dessa ação para a comunidade. “Hoje, temos professores ribeirinhos atuando nas escolas onde foram alfabetizados. O que esperamos é o pertencimento ao local, com a capacidade de transformar o conhecimento empírico em conhecimento científico em sala de aula”, afirmou, destacando a importância de um ensino que dialoga com as práticas culturais, econômicas e sociais das comunidades.
A Licenciatura em Pedagogia do Campo foi oferecida entre 2019 e 2024, em módulos, no Núcleo de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável Pe. João Derickx (NIEDS), da FAS. O local conta com infraestrutura completa, incluindo salas de aula, laboratório de informática, refeitório e alojamentos, além de suporte logístico como transporte e alimentação para os alunos, um investimento coletivo na educação do Médio Juruá.