Durante dois dias de reuniões em Brasília, representantes de 67 países participaram da Pré-COP, evento preparatório para a conferência do clima que será realizada em novembro, em Belém. O encontro terminou na noite desta terça-feira (14) com o mapeamento de pontos de convergência e possíveis impasses que deverão ser discutidos na COP30.
O presidente designado da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, avaliou que o encontro foi essencial para alinhar as negociações. “O que houve aqui, e que foi extremamente útil fazer essa Pré-COP, é que agora temos tudo muito melhor mapeado, porque os países foram claros nos limites do que podem ou não aceitar no processo negociador”, afirmou em coletiva de imprensa.
Segundo ele, entre os 140 temas oficiais da conferência, cerca de 20 são considerados prioritários. “As COPs têm essa dinâmica de suspense, mas conseguimos alguns pré-consensos, mesmo sem confirmação de que já sejam consensos”, acrescentou.
Temas em destaque
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou que os debates da Pré-COP abriram novas possibilidades de diálogo. “Mesmo com limites mais claros, há ganchos para aprofundar diferenças e encontrar caminhos”, avaliou.
Entre os principais temas, ganharam espaço as discussões sobre financiamento climático, conservação da natureza e transição energética. Marina Silva reforçou a necessidade de garantir recursos para a preservação das florestas e dos oceanos. “Os extremos climáticos exigem que governos ajam local e globalmente, com solidariedade, tecnologia e recursos. A mudança do clima não tem fronteiras”, afirmou.
A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, ressaltou que a reunião consolidou a ideia de que a COP de Belém deverá ser voltada para soluções práticas. “Ficou muito claro que há consenso sobre a criação de novos instrumentos econômicos para a valorização da natureza”, destacou.
Compromissos e desafios
As discussões também envolveram a proposta brasileira de quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2030, apresentada na Pré-COP, e a ampliação da agenda de adaptação climática.
No campo das metas globais, o cenário segue desafiador: apenas 62 dos 195 países apresentaram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que somam 31% das emissões globais. Regiões poluidoras, como União Europeia e Índia, ainda não atualizaram seus compromissos.
Corrêa do Lago ressaltou, no entanto, o comprometimento de delegações-chave. “A União Europeia foi muito clara quanto à sua NDC e ao papel de liderança que pretende assumir. O grupo dos 77 e outros blocos também definiram suas intenções para Belém”, afirmou.
Sociedade civil e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre
Organizações da sociedade civil avaliaram que a Pré-COP fortaleceu o diálogo multilateral, mas ainda careceu de maior foco na proteção das florestas. A especialista do Greenpeace Brasil, Camila Jardim, questionou a ausência de compromissos concretos sobre o tema. “Um dos grandes diferenciais da COP30 é acontecer na maior floresta do planeta, que está à beira do colapso, mas os países ainda não se engajaram nas conversas sobre sua proteção”, alertou.
Nesse contexto, o Brasil pretende lançar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, sigla em inglês), um mecanismo de financiamento estimado em US$ 125 bilhões, articulado com países como Colômbia, Noruega, Reino Unido, França e Emirados Árabes Unidos. O fundo beneficiará cerca de 70 nações com grandes áreas de florestas tropicais e destinará 20% dos recursos diretamente a comunidades indígenas e tradicionais.
O diretor sênior de Políticas Públicas da Conservação Internacional, Gustavo Souza, destacou que “as soluções baseadas na natureza podem gerar até 30% das reduções de emissões necessárias até 2030, mas recebem menos de 3% do financiamento climático”. Segundo ele, iniciativas como o TFFF são essenciais para equilibrar recursos e metas de preservação.