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Política

Piauí e Ceará travam batalha final por territórios com corrida por mapas e troca de acusações

FolhaPress 27/05/2024 15:24

SALVADOR, BA E TERESINA, PI (FOLHAPRESS) - Como em um tabuleiro de xadrez, Piauí e Ceará traçam estratégias e pensam cada movimento com cautela. Piauienses fazem uma corrida por mapas antigos, percorrendo arquivos ao redor do mundo. O estado vizinho mobiliza comunidades e apela para a cearensidade dos territórios em disputa.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Das escarpas da serra da Ibiapaba, região montanhosa que separa os estados de Piauí e Ceará, desponta o principal litígio entre unidades da Federação em curso no Brasil. A disputa de mais de 260 anos se transformou em batalha judicial em 2011 e caminha para um desfecho no STF (Supremo Tribunal Federal).

A área em litígio envolve 13 municípios do Ceará, 9 do Piauí e um território de 3.000 km², o equivalente a duas cidades de São Paulo. Cerca de 25 mil pessoas moram na região, que é considerada uma joia pelo potencial econômico para agronegócio, mineração e energia eólica.

O Exército entregará ao STF até 28 de junho um laudo pericial que analisa mapas históricos, decretos imperiais e inclui visitas de campo à região em disputa pelos dois estados. O laudo servirá para embasar o voto da ministra Cármen Lúcia, relatora do caso no Supremo.

Um dos pontos centrais da disputa é a região da Serra da Ibiapaba. A tese piauiense é que a divisa entre os dois estados fica no ponto mais alto da cadeia de montanhas. O Ceará, por sua vez, alega que o marcador geográfico é o sopé do lado oeste, onde começariam as terras do estado vizinho.

Na ação que moveu junto ao STF, o Piauí apresentou 17 documentos, entre cartas, alvarás, decretos e mapas históricos de 1754 a 1913. Um dos mapas mais relevantes é o produzido em 1760 pelo engenheiro Henrique Antonio Galúcio, que marca a divisa pelo alto da serra da Ibiapaba.

Outro destaque é um decreto de Dom Pedro 2º, de 1880, que determina mudanças nos territórios entre Piauí e Ceará. O povoado de Amarração, no litoral, foi indicado como parte do Piauí, enquanto os cearenses absorveram a comarca de Príncipe Imperial, onde fica o atual município de Crateús.

O documento afirma que as vertentes ocidentais da serra pertenceriam ao Piauí, e as orientais seriam de posse cearense. Os piauienses defendem que o documento indica a delimitação da divisa no topo da serra, mas diz que esta divisão se refere apenas ao trecho da divisa na região de Crateús, objeto da carta régia.

O procurador Lívio Bonfim, da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário do Piauí, afirma que a definição das divisas dará segurança jurídica e não vai interferir no dia a dia da população da região. "Ninguém vai deixar de ser cearense, ninguém vai perder a sua naturalidade, o que muda é a titulação das terras."

SESC PICASSO

A defesa do Ceará também apresenta seus trunfos entre documentos e mapas históricos que, afirmam, visam "desconstruir narrativas produzidas pelo estado do Piauí". Além disso, também apresenta aspectos relacionados à cultura da população que vive na região em disputa.

A Procuradoria Geral do Estado citou o geógrafo baiano Milton Santos e destacou que o conceito de território "transcende sua dimensão geográfica e abarca um universo mais profundo": o chão da população, onde se manifestam identidades, conexões e sentimentos de pertencimento.

"Os moradores dessas áreas, ao longo das gerações, desenvolveram laços com o lugar que chamam de lar de forma que as suas histórias pessoais se entrelaçam com a história do território, revelando uma forte conexão cultural dos moradores da área de litígio com o estado do Ceará", afirmou a Procuradoria.

Com a batalha judicial em curso, os estados trocam acusações mútuas de territórios invadidos para além daqueles que estão em litígio.

O pesquisador Eric Melo, que defendeu uma dissertação de mestrado sobre o conflito de terras na região, cita um expansionismo cearense e diz que o estado vizinho teria avançado sobre outros 507 km² do Piauí. A área seria equivalente ao município de Maceió (AL).

O Ceará diz que os mapas apresentados pelo Piauí visam "sustentar uma narrativa de invasão" que não condiz com a realidade. E vai além, apresentando um estudo que mostra que o Piauí que teria avançado sobre territórios que seriam do Ceará. O governo informou que não vai reivindicar essas áreas.

O ambientalista Dionísio Carvalho, que percorreu mais de 1.300 km por comunidades da região, diz que a guerra de versões prejudica o debate e acirra o confronto entre as comunidades nos dois estados.

Nas comunidades que estão sob disputa, o clima é de receio entre os moradores do lado cearense, que temem equipamentos públicos e o acesso a políticas desenvolvidas pelos municípios e o governo do estado.

CONTADOR - BONUS

"Temos uma história de lutas e de conquistas de políticas públicas para a nossa comunidade", afirma a agente de saúde Antonieta dos Santos, 51, uma das líderes da comunidade quilombola Três Irmãos, que fica entre Ipueiras e Croatá (CE).

A comunidade abriga 19 famílias que vivem da agricultura de subsistência. A cidade de referência para a comunidade é Croatá, cuja zona urbana fica a 23 km. O município do Piauí mais próximo é Pedro 2º, a 52 km.

Moradora da Aldeia Cajueiro, onde vivem indígenas da etnia Tabajara em Poranga (CE), a professora Eliane da Silva Gomes, 45, afirma que a comunidade de 21 famílias sempre teve conexão com o Ceará.

"Para a gente seria confuso ter uma vida e uma história como parte do Ceará e, de repente, ter que virar piauiense. A gente respeita a população do Piauí, mas é um estado que nunca ligou para a gente", afirma a líder indígena.

Prefeitos da região enfrentam dilemas ante o cenário de indefinição. Prefeita do município Pedro 2º, no Piauí, Betinha Brandão (PP) planejava construir uma estrada para a localidade Tapera dos Vital, que a comunidade entende ser do Piauí, mas descobriu ao consultar os mapas que a área pertenceria ao Ceará.

Para além da discussão cartográfica e sobre pertencimento, a disputa entre os dois estados também tem um pano de fundo econômico.

A região possui 1.006 empreendimentos agropecuários que produzem tomate, maracujá, batata-doce, flores e hortaliças, movimentando cerca de R$ 1,5 bilhão por ano.

A Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará estima que os territórios da Serra da Ibiapaba representem cerca de 30% da produção agrícola do estado e 50% de toda a agricultura irrigada cearense. E destaca que o governo viabilizou estradas, infraestrutura hídrica e de energia para a produção.

A área também tem potencial de produção de energia eólica e abrigava em 2022 um total de 291 aerogeradores, sendo 81 em operação, segundo dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Ao todo, 11 parques eólicos operam na região e outros 34 já estão contratados.

A mineração é outro setor com possibilidade de crescimento, com reservas de ouro, cobre, manganês, dentre outros, que estão em fase de licenciamento, autorização de pesquisa ou requerimentos de lavra.

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Morador do povoado Cachoeira Grande, em Poranga (CE), o agricultor Antonio Carlito Bezerra, 36, usa os serviços de saúde de Pedro 2º, no Piauí. Indiferente aos mapas, pesquisas e propaganda de lado a lado, quer o fim da disputa entre os estados-irmãos.

"Quando uma pessoa adoece não quer saber se é do Ceará ou do Piauí. Só queremos que acabe essa briga."

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CRONOLOGIA DO LITÍGIO

Capitania no Piauí - 1718

Criação da Capitania no Piauí, a partir de desmembramento do Maranhão.

Nação indígena - 1721

Carta régia emitida pelo Rei de Portugal, D. João 5º, estabeleceu que a Serra da Ibiapaba seria destinada à nação indígena Tabajara, situada no Ceará.

Mapa - 1760

Engenheiro Henrique Antônio Galúcio produz o primeiro mapa da capitania do Piauí, que inclui as terras da Serra da Ibiapaba.

Capitania do Ceará - 1799

Carta régia determina a criação da Capitania do Ceará, a partir de desmembramento de Pernambuco.

Mudanças nos territórios -1880

Decreto assinado pelo Imperador Dom Pedro 2º determina mudanças nos territórios entre Piauí e Ceará. O povoado de Amarração, no litoral, foi indicado como parte do Piauí, enquanto os cearenses absorveram a comarca de Príncipe Imperial, onde fica o atual municípios de Crateús.

Convenção arbitral - 1920

Presidente Epitácio Pessoa determina a instalação de uma Convenção Arbitral entre o Piauí e o Ceará para mediar o conflito, mas não há avanços nas negociações entre as partes.

Área de litígio - 1940

Mapa produzido a partir do Censo daquele ano delimita a área de litígio, que aparece como não pertencendo a nenhum dos dois estados.

Censo do IBGE - 2010

Mapa desenvolvido pelo IBGE deixa de apresentar a área de litígio e coloca territórios em disputa como parte do Ceará.

Piauí no STF - 2011

Após tentativas fracassadas de acordos entre os governos estaduais, o estado do Piauí ingressa com no STF com ação cível originária na qual pleiteia a posse dos territórios em litígio.

Exército acionado - 2016

Ministro Dias Toffoli determina que Exército realize perícia técnica dos territórios em litígio.

Entrega de perícia - 2024

Após atrasos nos estudos em decorrência da pandemia, Exército avança na perícia e promete entrega do relatório até o dia 28 de junho.

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