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PF usou depoimentos sobre golpe para desqualificar fake news criadas no bolsonarismo

FolhaPress 17/03/2024 14:45

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Questionamentos feitos pela Polícia Federal aos investigados pela tentativa de golpe de Estado em 2022 tiveram o objetivo de desmontar uma série de notícias fraudulentas alimentadas pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante o seu mandato.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Essas fake news, que foram intensificadas durante a tentativa de reeleição do então presidente, vão de informações infundadas sobre as urnas eletrônicas e a ligações do presidente Lula (PT) com o crime organizado.

Órgãos do próprio governo federal e o partido do ex-presidente inflamaram as redes bolsonaristas com esses tipo de dados sem comprovação, na tentativa de dar legitimidade a eles.

Nos depoimentos, a PF aponta o uso da própria corporação pelo governo Bolsonaro para validar informações falsas às vésperas da eleição de 2022.

Na ocasião, dizem os investigadores, a polícia abriu um procedimento investigativo para apurar se dinheiro do narcotráfico teria abastecido Lula e outros governantes de esquerda durante dez anos.

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres foi questionado a respeito do motivo da abertura desses procedimento e disse desconhecê-lo.

Essa apuração aberta pela PF sob Bolsonaro foi oriunda de publicações que circulavam nas redes bolsonaristas, a respeito de suposta delação de um ex-general de inteligência venezuelano acusado de participar de um cartel de drogas.

Em 2021, esse general estava preso na Espanha e disse, em carta a um juiz local, que partidos de esquerda na América Latina e na Europa receberam financiamento ilegal da Venezuela, mas não apresentou provas.

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O general venezuelano acabou extraditado para os Estados Unidos e passou a se declarar inocente, e não há registro de que ele tenha fechado delação ou falado sobre a campanha de Lula de 2022, como apontam agências de checagem de fatos.

Ainda assim, o próprio Bolsonaro chegou a mencionar a suposta delação durante a reunião ministerial de julho de 2022. Torres estava na reunião com Bolsonaro e disse, ao se manifestar, que "todos vão se foder" caso Lula ganhasse a eleição.

A PF questiona o ex-ministro se foi ele quem repassou a informação a Lula sobre a suposta delação do general venezuelano preso na Espanha. Torres negou e disse que não foram cobradas providências do Ministério da Justiça sobre o tema por Bolsonaro.

O ex-ministro também nega ter comprovação de outra acusação que ele fez na reunião: de que o PT teria ligação com a facção criminosa PCC. Ele atribui a sua fala a notícias de que o publicitário Marcos Valério havia dito isso em acordo de delação premiada.

Outro assunto tratado com insistência pela Polícia Federal nos depoimentos foi a da segurança das urnas eletrônicas e das tentativas de desqualificação dos resultados das eleições de 2022.

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Foram feitas questões sobre o tema para investigados como Torres, como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e como o empresário que colaborou com auditoria do PL sobre as urnas eletrônicas.

Tércio Arnaud, apontado como o líder do chamado "gabinete do ódio" de Bolsonaro, também foi questionado sobre o assunto.

Por causa de uma reunião com embaixadores na qual repetiu ataques e mentiras sobre o sistema eleitoral, Bolsonaro já foi condenado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), além de ser alvo de diferentes outras investigações no STF. Neste momento, ele está inelegível ao menos até 2030.

O PL endossou o discurso golpista de Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022 e pediu ao TSE, mesmo sem apresentar provas de fraude, a invalidação de votos depositados em urnas por "mau funcionamento".

O partido usou como base da representação relatório do Instituto Voto Legal, contratado pelo PL por R$ 1 milhão para fazer estudos sobre o funcionamento das urnas.

Ao depor à Polícia Federal, Valdemar Costa Neto afirmou que contratou o instituto e questionou as urnas na Justiça Eleitoral sob pressão de Bolsonaro e de seus aliados. Ele disse que o instituto jamais encontrou irregularidades --o que contraria suas declarações públicas anteriores.

Também ouvido pela PF, o empresário Eder Balbino, que colaborou com a auditoria do PL que pediu a anulação de parte dos votos de 2022, disse que não encontrou indícios de fraude nas urnas eletrônicas.

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"Diante dos dados que recebeu, não viu absolutamente nada que vislumbrasse qualquer fraude nas eleições brasileiras de 2022, apesar de não conhecer a fundo urnas, eleições, esse tipo de coisa", afirmou o empresário à polícia em 22 de fevereiro.

O empresário disse que enviou email a Carlos Rocha, presidente do Instituto Voto Legal, discordando das conclusões do relatório usado pelo PL para tentar mudar o resultado das eleições.

"Entende que a falha do sistema, que não identificou o número do log, não era suficiente para imputar uma fraude nas eleições", registra o depoimento à PF.

Nem sempre a Polícia Federal conseguiu extrair esse tipo de fala dos questionados. Para Tércio Arnaud, por exemplo, perguntou se ele acredita que houve fraudes nas eleições presidenciais de 2022 e se acha que o Judiciário atuou de forma parcial.

Ele disse aos investigadores que "deseja não responder a essa indagação".

Em seu depoimento, o ex-assessor da Presidência se limita a alegar que não chegou a assistir vídeos de difusão de notícias falsas sobre as eleições, como a de um influenciador argentino, ou que não participou diretamente da elaboração de informações enganosas.

Outros investigados se mantiveram em silêncio, a exemplo do próprio Bolsonaro e dos ex-ministros Walter Braga Netto e Augusto Heleno.

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