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Opinião Pública

Uma festa no céu

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

09/03/2026

Dizem que o céu sempre foi um lugar ordeiro. Nuvens alinhadas, anjos disciplinados, auréolas no prumo e aquele silêncio digno de repartição pública em véspera de feriado. Mas isso foi antes da chegada deles — os boêmios, os jornalistas, a turma que nunca levou muito a sério qualquer manual de comportamento, fosse terreno ou celestial.

Paulo Torre, Vinícius Paula de Seixas, Sérgio Egito, Chico Flores, Beato, José Maria Batista, Ronaldo Montalvão, Pedro Maia, Joãozinho Torezani, João Luiz Garcia — todos bons jornalistas, cada um com seu estilo — atravessaram a fronteira definitiva não como quem se apresenta no balcão do paraíso, mas como quem entra sem pedir licença na padaria do bairro.

Chegaram de mansinho, um a um. O céu nem percebeu no começo. São Pedro, acostumado a receber almas tímidas, espíritos arrependidos e figuras que chegam constrangidas pelos próprios pecados, achou até simpática aquela entrada discreta.

Primeiro apareceu um jornalista perguntando onde ficava a redação celestial — “porque deve ter fechamento até aqui”. Depois chegou outro querendo saber se havia um bar decente por perto. Um terceiro reclamou da lentidão do serviço, sem saber que ali não existe internet, só eternidade — uma forma mais sofisticada de conexão estável.

Quando todos finalmente se encontraram, aconteceu o inevitável: formaram uma reunião de pauta. Não convocada, não autorizada, não prevista. Uma reunião espontânea, daquelas que nasciam no café da esquina da Rua Sete, no balcão do bar da Zilda, no Centro, ou na calçada vazia depois da meia-noite. Cada um trouxe sua opinião, um caso mal resolvido, uma memória de madrugada — e a conversa instalou-se no céu com naturalidade de enchente: quando perceberam, já estava por toda parte.

Foi aí que a zorra começou.

Uma zorra grande, inesperada, incompatível com o regulamento celestial. São Pedro cogitou seriamente extraditá-los. Abriu livros, consultou leis antigas, verificou cláusulas que já nem lembrava existir. Mas o problema era simples e incontornável: ele os recebeu porque o diabo recusou, e o purgatório não tinha vaga para aquela turma. Por falta de opção — e talvez por curiosidade antropológica — teve que ficar com eles.

A sugestão original da pauta veio como um desafio feito pelo meu amigo, jornalista Eustáquio Palhares, que conheceu bem essa turma e talvez narrasse a história com menos contenção do que eu. Mas toda crônica precisa saber até onde vai. Há, deste lado da vida, viúvas, filhos e filhas que seguem lidando com a ausência sem alarde — e nenhum excesso literário vale o risco de transformar saudade em espetáculo. Por isso, a festa no céu continua, mas com o cuidado de quem ri mais com o canto da boca do que com gargalhada aberta.

Desde então, o céu virou uma espécie de filial da antiga noite que começava no Britz, no Centro da cidade, e terminava no Mar e Terra, na Vila Rubim — só que com menos trânsito e mais imortalidade. Os anjos, que antes passavam a eternidade afinando harpas e preservando o silêncio institucional, agora aprenderam a diferença entre fechar a edição e fechar o bar. Descobriram que jornalista não existe sem história, sem exagero calculado, sem aquele olhar enviesado para a realidade que transforma qualquer banalidade num conto de cinco parágrafos.

Na mesa onde agora se reúnem, a conversa nunca termina. Sempre alguém lembra um caso antigo. E entre as histórias preferidas — repetidas lá em cima com a precisão dos mitos fundadores — está a vivida ainda neste plano, quando José Maria Batista resolveu visitar João Luiz Garcia numa tarde aparentemente inocente.

A cadela do Garcia, zelosa como poucas, começou a latir com a convicção de quem defende a casa de um ser intergaláctico. Garcia, já irritado, deu uma bronca daquelas que ecoam até hoje em algum canto do bairro. José Maria não se abalou. Abaixou-se, fez carinho na cadela e, com aquela calma que o tempo não conseguiu desgastar, sentenciou:

— Ele nunca vai nos entender. Nós somos de Andrômeda.

Os anjos adoram essa história. Repetem como se fosse uma escritura perdida, analisam como metáfora, riem como quem reconhece a verdade universal de que certas pessoas jamais pertenceram completamente à Terra. Com o tempo, a frase virou divisa extraoficial da colônia jornalística do céu: somos de Andrômeda. Explicação conveniente para qualquer desordem que provoquem.

E desordem não falta.

Basta São Pedro virar as costas para surgirem rodas de samba improvisadas, auréolas servindo de pandeiro, debates acalorados sobre matérias que nunca foram publicadas, reclamações sobre o atendimento nas nuvens — “isso aqui precisa de reforma administrativa” — e propostas de transformar o paraíso numa versão aprimorada da noite que deixaram para trás.

Apesar da bagunça — ou talvez por causa dela — o céu ganhou vida. Ganhou crônica. Ganhou barulho. Ganhou assunto. O silêncio, antes considerado virtude, passou a ser visto como defeito de caráter. De vez em quando, Deus passa por perto, observa o ajuntamento ruidoso e segue adiante, como quem pensa: pelo menos estão ocupados.

E ocupados eles estão. Reuniões intermináveis, listas, planejamentos, debates — tudo para resolver um único problema celestial: como receber, do jeito certo, cada um de nós, os teimosos que insistimos em permanecer neste plano, adiando o inevitável, empurrando a eternidade para depois.

São Pedro já desistiu de controlar a agenda. A turma decidiu que ninguém chegará ao céu sem acolhida adequada — sem mesa arrumada, piada pronta e aquele clima de “senta aí, você demorou”. Eles garantem: quando chegar sua vez — lá longe, bem longe, como deve ser — estarão esperando, copo posto, cadeira puxada, como numa velha redação onde ninguém tem pressa de ir embora.

Porque, afinal, para essa turma, o céu é apenas a continuação natural da madrugada.

Quando você chegar — bem depois, como deve ser — eles vão explicar tudo direitinho. Com humor, paciência e aquela informalidade que só os veteranos da madrugada dominam.

E você vai entender.

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