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Opinião Pública

Fé e política: a quem pertence a nossa consciência?

Frei Maurício Solfa

Frei Maurício Solfa

Entrou para o seminário com os Freis Capuchinhos em 1999, sendo ordenado padre em 2009. Estudou Filosofia e Teologia, é psicanalista, pós-graduado em Espiritualidade Franciscana e, atualmente, cursa pós-graduação em Bíblia.

17/10/2026

Mais do que defender bandeiras partidárias, a vivência cristã exige coerência entre a fé, as escolhas públicas e o cuidado com o próximo

A relação entre fé e política é uma das questões mais delicadas da vida em sociedade. Precisamos escolher entre viver a fé e assumir nossas responsabilidades como cidadãos? O Evangelho oferece uma importante reflexão sobre essa questão

Em Mateus (22,15-21), Jesus é questionado sobre o pagamento de impostos a César. Diante da armadilha, responde: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Jesus não propõe uma separação absoluta entre fé e sociedade, mas nos convida a reconhecer nossas responsabilidades como cidadãos sem transformar nenhum poder humano em senhor absoluto de nossa consciência. 

A política influencia diretamente a saúde, a educação, o trabalho, a segurança e a dignidade das pessoas. Por isso, não pode ser indiferente à fé cristã. Quando orientada pelo bem comum, torna-se uma forma de serviço à sociedade. Entretanto, a fé não deve ser instrumentalizada pela política, nem a política utilizada para manipular a fé. Nenhum partido, líder ou ideologia pode reivindicar para si o monopólio dos valores cristãos. 

O texto de Isaías (45,1-6), aprofunda essa reflexão. Deus chama Ciro, rei da Pérsia, de seu ungido. Por meio dele, o povo de Israel seria libertado do exílio na Babilônia e poderia retornar à sua terra. A conquista da Babilônia pelos persas, em 539 a.C., abriu caminho para esse retorno. 

O surpreendente é que Ciro não pertencia ao povo de Israel e não conhecia o Senhor como o Deus da aliança. Mesmo assim, tornou-se instrumento de libertação. Essa passagem revela que a ação de Deus pode acontecer por caminhos inesperados, inclusive por meio de pessoas que não compartilham a nossa fé. 

Não podemos confundir a vontade de Deus com os interesses de um grupo político, nem considerar a identidade religiosa de alguém uma garantia de compromisso com o Evangelho. Isso não significa aprovar indistintamente as ações de qualquer governante, mas discernir os frutos de suas decisões, especialmente seus efeitos sobre a justiça, a liberdade e a dignidade humana. 

O cristão tem o direito e o dever de participar da vida política, analisar propostas e avaliar governos à luz de critérios éticos. Também precisa reconhecer que pessoas de boa-fé podem pensar diferentemente. Quando a divergência se transforma em ódio e desumanização do adversário, a convivência democrática e a fraternidade ficam ameaçadas. 

A fé não pode servir para legitimar interesses particulares ou silenciar questionamentos. Seu compromisso social se manifesta no acolhimento dos pobres, na defesa dos direitos humanos, no combate à fome, na promoção da paz e na denúncia das injustiças. 

Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, toda pessoa possui uma dignidade que independe de sua religião, condição social ou posição política. Fidelidade a Deus não significa fidelidade automática a um partido ou líder, mas coerência entre o Evangelho e nossas ações. 

Dar a César o que é de César é assumir nossas responsabilidades como cidadãos. Dar a Deus o que é de Deus é reconhecer que nenhum poder está acima da dignidade humana, da justiça e do amor. 

A fé não precisa transformar o altar em palanque. Precisa contribuir para que a sociedade seja um lugar onde os direitos sejam respeitados e ninguém seja esquecido. 

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