Por Marcelo Rossoni
Há profissionais da comunicação que parecem nascer com um microfone na mão. Outros — entre os quais humildemente me incluo — preferem a companhia mais silenciosa do teclado e da folha de papel.
O jornalista Eustáquio Palhares pertence claramente ao primeiro grupo. Com mais de meio século dedicado ao jornalismo e à comunicação no Espírito Santo, construiu uma trajetória marcada pela elegância no trato, pela curiosidade intelectual e por uma rara habilidade de conduzir conversas públicas sem transformar a entrevista em interrogatório.
Durante anos atuou como redator, editor e dirigente na Rede Tribuna de Comunicação, transitando com naturalidade entre a reportagem, a edição e a apresentação. Mais recentemente, tem levado essa experiência para programas de entrevistas, entre eles o semanal “Presença”, exibido pela Rede TV, espaço em que recebe convidados para conversar sobre política, cultura e os caminhos — às vezes tortuosos — da vida pública.
Eustáquio é daqueles profissionais que tratam a palavra falada como um artesanato. Sabe ouvir, sabe provocar o raciocínio do entrevistado e, sobretudo, sabe manter a conversa fluindo com leveza. Qualidade rara em tempos de perguntas que já nascem com resposta pronta.
Foi justamente para esse ambiente civilizado que ele, generosamente, resolveu me convidar.
A gentileza do anfitrião foi irrepreensível. Meu amigo, companheiro de profissão e — honra das honras — meu afilhado, recebeu-me com a cordialidade de sempre.
Entre nós existe ainda uma coincidência curiosa: somos ambos filhos da viúva — expressão tradicional usada, em certos círculos fraternos, para identificar discretamente aqueles que compartilham de uma mesma irmandade.
O cenário, portanto, era favorável. O entrevistador era experiente. O ambiente, acolhedor.
Faltava apenas um detalhe: o entrevistado.
Reconheço, sem falsa modéstia, que consigo produzir um texto de qualidade razoável. Tenho também alguma familiaridade com fatos e informações. No papel, as ideias costumam se organizar com certa disciplina.
Mas há um fenômeno curioso que ocorre quando um microfone se aproxima perigosamente da minha boca.
O raciocínio, antes ordenado, entra em estado de greve.
As frases resolvem sair sem autorização prévia.
E a clareza, que no texto se apresenta com alguma compostura, simplesmente pede licença e se retira.
Em resumo: o pane é total.
Quem quiser realmente me colocar em dificuldade não precisa recorrer a expedientes complexos. Basta aproximar um microfone e acender a luz vermelha da câmera. O restante da tragédia se desenrola sozinho.
Escrevo estas linhas agora, algumas horas depois, já recomposto — e devidamente amparado por um bom café. Enquanto as ideias voltam lentamente ao lugar, toca ao fundo “Concerto pour une Voix” (Concerto para uma Voz), peça composta em 1969 pelo músico francês Saint-Preux e eternizada na voz cristalina de Danielle Licari. A melodia, que mistura elementos da música clássica com sonoridades contemporâneas, tem algo de etéreo, quase suspenso no ar.
Talvez seja exatamente esse tipo de música que ajude a colocar as ideias em ordem — tarefa que, diante de um microfone, nem sempre se mostra simples.
Ainda assim, Eustáquio Palhares manteve a elegância que sempre marcou sua trajetória. Conduziu a conversa com habilidade, tentou resgatar algumas ideias dispersas e, com a paciência dos bons entrevistadores, evitou que o naufrágio fosse completo.
Se decepcionei meu amigo, reconheço o fato com serenidade de quem conhece as próprias limitações.
Mas também deixo registrado um consolo: entrevistas passam, programas terminam, gravações se encerram.
Já a amizade — especialmente aquela construída ao longo de anos de profissão e afinidades — costuma sobreviver até mesmo às piores performances diante de um microfone.
Felizmente.
Marcelo Rossoni é jornalista