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Opinião Pública

Um certo Coronel Aurich

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

15/04/2026

Por Marcelo Rossoni

Há amizades que nascem na rotina. Outras, no atrito. E há aquelas mais raras — que conseguem fazer das duas coisas um mesmo território, sem a necessidade de reconciliações formais ao fim de cada conversa.

É mais ou menos assim a relação entre este escriba, um certo coronel Aurich e o nosso amigo em comum, Francisco Hilário Soares Brandão — homem de convicções inegociáveis, sangue azul assumido e, ao que tudo indica, proprietário de um brasão que observa a sala com a autoridade silenciosa de quem já viu de tudo.

O coronel Aurich, para situar o leitor, é desses personagens que não atravessam ambientes — ocupam. Militar de formação, homem de direita por convicção — e por gosto —, dono de uma personalidade que não flerta com meias-palavras. Ainda assim, ou talvez exatamente por isso, é correto. E, convenhamos, em tempos de coerência rarefeita, isso deixou de ser qualidade básica para se tornar diferencial.

Fomos vizinhos na Praia do Canto, na Rua Joaquim Lírio, quando ainda era possível conversar na calçada sem que cada frase precisasse carregar o peso de um posicionamento público. Aurich mudou-se com a família. Dizem — e sempre há um “dizem” bem colocado nessas histórias — que havia um vizinho pouco recomendável nas imediações. Não investiguei. Certos enredos perdem charme quando submetidos à apuração rigorosa.

Hoje, a convivência migrou para o WhatsApp. E ali se desenrola uma espécie de duelo civilizado, com regras não escritas e golpes calculados. O coronel provoca com método. Não é impulsivo — há cadência, há intenção. Algumas respondo com a sutileza possível; outras deixo repousar no silêncio, que, em determinados casos, é a forma mais elegante de resposta. Leio todas, invariavelmente.

E é nesse terreno que surge, com pontualidade quase britânica, a provocação preferida: “lá vai o socialista rico”. Não como acusação propriamente dita, mas como rótulo lançado com a precisão de quem sabe exatamente onde quer atingir — e, mais importante, como quer ser respondido.

Há mensagens que não pedem réplica, apenas registro.

Francisco Hilário, por sua vez, não cultiva esse tipo de contenção. Se há embate, ele comparece. E comparece inteiro. No Facebook — esse território onde tantos ainda acreditam travar batalhas decisivas — ele não apenas discorda: confronta. E, quando a ocasião pede, chuta o balde. Não como figura de linguagem, mas como gesto completo, com direção e convicção.

Entre nós três formou-se uma curiosa engenharia de convivência. Aurich provoca, Francisco reage e eu, em geral, observo — ora intervindo, ora anotando mentalmente. É um arranjo que poderia facilmente descambar para o desgaste, não fosse o elemento que sustenta tudo: o respeito. Não o respeito protocolar, de superfície, mas aquele que permite discordar sem romper — uma habilidade cada vez mais escassa.

Há, também, convergências. Eu e o coronel, por exemplo, compartilhamos uma mesma paixão: o Fluminense. O que, por si só, já nos ensinou algo sobre resistência, expectativa e a arte de sustentar a fé quando os fatos conspiram contra. Francisco Hilário, no entanto, coitado, é vascaíno. E aqui se estabelece uma das provas mais consistentes de que a amizade, quando verdadeira, suporta até divergências dessa natureza.

Nosso último encontro presencial — porque hoje até a presença precisa ser qualificada — não se deu em torno de uma mesa, nem em reuniões onde opiniões são servidas com café. Foi em um velório. O do empresário Sérgio Rogério de Castro, homem correto, daqueles que fazem falta não apenas pela ausência, mas pelo silêncio que deixam nas conversas.

Ali, entre cumprimentos contidos e lembranças que surgiam com certa hesitação, estávamos nós dois. Talvez menos combativos, é verdade. A ocasião não comportava disputas, nem ironias mais afiadas. Mas, mesmo no silêncio, havia algo reconhecível: uma espécie de entendimento tácito de que, apesar das divergências acumuladas ao longo do tempo — inclusive as que cabem dentro de rótulos fáceis como o de “socialista rico” —, existia ali um vínculo que não se desfaz com facilidade.

A morte, curiosamente, organiza. Reduz o excesso, reposiciona prioridades e expõe o essencial sem necessidade de retórica. E, naquele momento, o essencial não era quem havia vencido os últimos debates — até porque essa é uma disputa que raramente produz vencedores. O essencial era a presença. E, em alguma medida, a continuidade.

Porque, no fim, é isso que sustenta tudo: a possibilidade permanente do diálogo. Mesmo quando ele se apresenta sob a forma de provocação, ironia ou um comentário mais ácido. Talvez — e aqui reside o ponto — sobretudo nesses casos.

Seguimos, portanto. O coronel, firme em suas convicções e pontual em suas provocações. Francisco Hilário, sempre pronto para o próximo confronto, com ou sem plateia. E eu, entre uma resposta e outra, tentando manter o equilíbrio dessa convivência improvável — e, justamente por isso, duradoura.

Com uma certeza que dispensa alarde: amizades que resistem às divergências costumam durar mais do que aquelas construídas apenas na concordância.

E isso, em tempos de unanimidades apressadas, já diz o suficiente.


Marcelo Rossoni é jornalista

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