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Opinião Pública

Sessenta anos é muito tempo para qualquer convivência

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

24/05/2026

Tempo suficiente para nascerem bairros, desaparecerem manguezais, mudarem governos, crescerem avenidas e envelhecerem gerações inteiras respirando o mesmo ar. Tempo suficiente, também, para que a população da Grande Vitória aprendesse a reconhecer a poluição industrial não pelos relatórios técnicos, mas pelo pano de chão.

Agora, a Vale S.A. celebra os 60 anos da Unidade Tubarão — marco da instalação do gigantesco complexo industrial e portuário que transformou a economia capixaba e redefiniu a paisagem de Vitória. A campanha publicitária fala em desenvolvimento, integração logística, pioneirismo e modernização. Tudo isso existiu. E seria intelectualmente desonesto negar.

Mas existe outra memória, menos cinematográfica e muito mais humana.

Ela não aparece nas peças institucionais. Não cabe nos vídeos emocionais nem nas fotografias aéreas do porto ao pôr do sol. É a memória acumulada nas narinas, nos pulmões nas janelas, nas roupas estendidas e nas paredes dos apartamentos da capital.

Durante décadas, a população da Grande Vitória aprendeu a conviver com o pó de minério que se espalhava pelos bairros conforme o humor do vento nordeste. Vitória, especialmente. Jardim Camburi, Mata da Praia, Jardim da Penha, Camburi, Praia do Canto, ilhas do Boi e do Frade e tantos outros pedaços da cidade passaram a conhecer uma espécie de meteorologia própria: bastava o vento virar para que a fuligem industrial começasse lentamente a pousar sobre carros, varandas e móveis.

A faxina virou termômetro ambiental.

Há quem diga — não sem razão — que os verdadeiros sensores da qualidade do ar da Grande Vitória nunca estiveram apenas nas estações automáticas de monitoramento. Estiveram nas mãos das diaristas, das faxineiras de condomínio e das donas de casa que, diariamente, enfrentavam aquilo que mais tarde receberia um nome quase elegante: “pó preto”.

O nome ajuda.

“Poluição industrial” soa agressivo demais para campanhas institucionais, relatórios corporativos ou discursos oficiais. “Pó preto”, não! A expressão parece quase inofensiva, quase folclórica, como se fosse um inconveniente climático inevitável, uma excentricidade regional produzida pelo vento e não pela atividade humana.

O lobby econômico, às vezes, começa pelas palavras.

E o Espírito Santo aprendeu isso cedo.

Meu pai, Francisco Faria Filho — o velho Chiquinho Faria — conheceu essa história antes mesmo de ela se transformar em slogan empresarial, debate ambiental ou campanha publicitária. Nascido em São Mateus, em 8 de setembro de 1883, segundo sua certidão de nascimento, trabalhou praticamente toda a vida na estrada de ferro que mais tarde daria origem ao gigantesco sistema logístico da Vale. Meu pai faleceu em 25 de dezembro de 1960.

Segundo os registros funcionais, foram exatos 51 anos e oito meses de trabalho, dizia ele: Uma vida inteira!

Começou assentando dormentes na via permanente. Depois tornou-se telegrafista. Mais tarde chegou ao posto de inspetor-chefe da estação Pedro Nolasco quando se aposentou. Era um homem da ferrovia. Daquela geração que via o trem não apenas como transporte, mas como sinal de progresso, ligação com o mundo e esperança de desenvolvimento.

Talvez por isso eu jamais tenha conseguido olhar para a Vale apenas por um único ângulo.

Existe uma dimensão afetiva nessa história.

Poucas vezes estive nas dependências da empresa. Quando trabalhava em O Globo, no Rio de Janeiro, fui algumas vezes ao antigo prédio da Avenida Graça Aranha, número 26 — se a memória ainda não me traiu de vez: em Vitória, no Edifício Fábio Ruschi, estive apenas uma vez para conversar com o doutor João Crisóstomo Beleza, o Doutor Beleza, pai do meu amigo e irmão Lulu.

Já em Tubarão, não devo ter ido dez vezes na vida inteira.

Duas dessas visitas ocorreram a convite de Eugênio Fonseca, profissional competente, correto e extremamente gentil, daqueles executivos que sabiam ouvir antes de falar. Hoje está aposentado e continua emprestando experiência a outra empresa. Só houve uma segunda visita porque eu gostava muito dele. A comida, para ser absolutamente sincero, não era grande coisa.

Não por maldade do cozinheiro.

Cozinhar para milhares de pessoas diariamente nunca foi tarefa simples. Então convém absolver, com justiça humana, o chefe da cozinha da época.

Mas talvez essa pequena lembrança banal explique algo maior.

A Vale sempre foi assim no Espírito Santo: gigantesca, presente, inevitável e, ao mesmo tempo, estranhamente distante da vida comum da maioria das pessoas. Ela atravessava a paisagem, moldava a economia, movia os trilhos, cobria os carros de pó e fazia parte da rotina sem necessariamente produzir intimidade.

Por muitos anos, a Grande Vitória conviveu não apenas com o pó de minério, mas também com outro visitante atmosférico igualmente célebre: o odor ácido e apodrecido vindo do norte, associado ao processo industrial da antiga Aracruz Celulose, hoje incorporada à Suzano.

Quem viveu aquele período lembra bem.

Havia dias em que o vento parecia atravessar a baía carregando um cheiro pesado de enxofre, matéria orgânica e produto químico. Não precisava consultar boletim técnico algum. Bastava abrir a janela.

Com o passar dos anos, a tecnologia avançou. Filtros foram instalados. Sistemas industriais melhoraram. Parte importante daquela agressão atmosférica foi reduzida. Isso precisa ser reconhecido. A indústria evoluiu, os controles ambientais ficaram mais sofisticados e o cenário atual é incomparavelmente melhor do que o das décadas de 1970, 1980 e parte dos anos 1990.

Mas reduzir não significa apagar.

A memória ambiental da cidade permaneceu impregnada.

E talvez por isso a frase atribuída ao ex-governador Christiano Dias Lopes Filho continue atravessando gerações com tanta força política e simbólica: “a Vale do Rio Doce deixa apenas duas coisas no Espírito Santo: a poluição e o apito do trem.”

A frase não pode ser esquecida.

Não apenas pela contundência literária. Mas porque ela condensou, em poucas palavras, uma inquietação histórica do Espírito Santo diante do processo de industrialização: quanto da riqueza permaneceu efetivamente no Estado — e quanto simplesmente cruzou os trilhos da Estrada de Ferro Vitória a Minas rumo aos navios do Porto de Tubarão.

Christiano Dias Lopes Filho não era um militante ambiental nos moldes atuais. Era, paradoxalmente, um governador desenvolvimentista, homem de uma geração que acreditava profundamente na industrialização como caminho para modernizar o Espírito Santo. Seu governo ajudou a estruturar bases econômicas importantes do Estado. Talvez justamente por isso sua crítica tenha adquirido tanto peso histórico.

Ela vinha de dentro do próprio projeto desenvolvimentista.

Era quase um aviso.

Uma advertência de que crescimento econômico sem equilíbrio social e ambiental produz riqueza estatística e desgaste humano ao mesmo tempo.

É claro que a realidade é mais complexa.

A Vale ajudou decisivamente a moldar a economia capixaba. O Porto de Tubarão transformou Vitória em eixo logístico internacional. Vieram empregos, arrecadação, infraestrutura, expansão portuária, ferrovias e industrialização. O Espírito Santo moderno não pode ser explicado sem Tubarão.

Mas também não pode ser explicado sem o pó sobre os móveis.

Esse é o ponto delicado que a publicidade raramente alcança.

Quando a empresa comemora seis décadas de operação no complexo industrial do Tubarão, a população também faz sua própria contabilidade histórica. Uma conta silenciosa, feita longe dos relatórios corporativos. Ela mede quantas vezes foi necessário lavar a varanda, repintar paredes, fechar janelas, limpar a água acumulada sobre a mesa externa ou recolher roupas do varal antes que amanhecessem salpicadas de resíduos escuros.

Na Grande Vitória, a faxina virou ciência empírica.

As diaristas sabem identificar os bairros onde a sujeira se acumula mais rápido. Faxineiras de condomínio percebem quando o vento muda antes mesmo dos institutos meteorológicos. Donas de casa observam a água do balde escurecer conforme varia a direção do ar.

É um conhecimento invisível aos algoritmos.

Enquanto os boletins oficiais frequentemente classificam a qualidade do ar como “boa”, existe uma percepção cotidiana que insiste em discordar. Não necessariamente porque os relatórios estejam tecnicamente errados, mas porque medem coisas diferentes daquelas que pousam sobre o peitoril da janela.

O problema é que a vida real não respira metodologia.

Respira ar.

E, durante 60 anos, uma parte considerável da população da Grande Vitória respirou desenvolvimento econômico misturado com minério, fuligem, poeira sedimentável e fumaça industrial.

A campanha da Vale celebra um ciclo de progresso. E há mérito nisso.

Mas talvez a história completa da Unidade Tubarão só possa ser contada quando a publicidade institucional encontrar coragem para admitir que, junto com os navios gigantes, as pelotas de minério e os recordes de exportação, também viajaram pela atmosfera da capital pequenas partículas de uma conta ambiental que nunca deixou de existir inteiramente.

Porque, no fim das contas, existe uma verdade simples que nenhum relatório consegue esconder completamente: se o pano continua saindo preto, a cidade ainda está tentando limpar uma história que jamais terminou.


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