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Opinião Pública

Quem vai querer ser professor no Brasil?

Alessandro Soares

Alessandro Soares

Advogado, pedagogo e presidente do CPP, com atuação desde 1998 na defesa da educação e na valorização dos profissionais da docência.

21/10/2026

Todos os anos, quando chega outubro, o professor ganha maior espaço nas homenagens, nas

escolas e no debate público. É um reconhecimento necessário. Mas, diante do cenário que

estamos construindo para o magistério, acredito que precisamos aproveitar esse momento

também para fazer uma pergunta: quem vai querer ser professor no Brasil nos próximos anos?

Não faço essa pergunta para diminuir a importância ou o compromisso de quem escolhe a

profissão hoje. Faço porque os números mostram uma mudança que merece nossa atenção.

Estudo recente do Instituto Semesp aponta que, entre 2015 e 2025, o número de professores de

até 24 anos no Ensino Médio caiu 31,1%, enquanto o contingente de profissionais com 60 anos ou

mais cresceu 104,5%. Hoje, para cada três professores que se aposentam, apenas um novo

profissional ingressa na carreira.

Ter professores experientes em sala de aula é uma riqueza para a educação. São profissionais que

acumularam conhecimento, vivências e aprendizados que não podem ser substituídos

simplesmente pela passagem do tempo. O problema está em não conseguirmos construir, na

mesma velocidade, uma nova geração disposta a seguir esse caminho.

Durante muito tempo, tratamos a escolha pelo magistério quase exclusivamente como uma

questão de vocação. É claro que identificação com a educação importa.

Mas nenhuma profissão pode depender apenas da disposição individual de seus profissionais para

superar dificuldades. O professor também precisa encontrar uma carreira que lhe permita planejar

o futuro, desenvolver-se profissionalmente e exercer seu trabalho com dignidade.

Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2026 ajudam a dimensionar essa questão.

Nas redes estaduais, os professores temporários passaram de 35,6% do quadro em 2015 para

48,6% em 2025. Em São Paulo, o movimento foi ainda mais expressivo: os temporários

representavam 17,9% dos docentes da rede estadual em 2015 e chegaram a 47,6% dez anos

depois.

O que estamos dizendo a um jovem quando apresentamos uma profissão em que a instabilidade

ocupa espaço cada vez maior? Como convencê-lo a construir uma trajetória no magistério se ele

não consegue enxergar com clareza as possibilidades de ingresso, permanência e evolução na

carreira?

A remuneração é parte fundamental dessa discussão, mas valorização não se resume ao salário.

Ela passa por jornada adequada, formação continuada, segurança dentro das escolas,

infraestrutura, autonomia, apoio institucional e redução de uma sobrecarga burocrática que

muitas vezes afasta o professor justamente de sua principal função: ensinar.

Também precisamos olhar para a porta de entrada. O Anuário mostra que, entre os estudantes

que ingressaram nas licenciaturas em 2024 e haviam realizado o Enem no ano anterior, apenas

14,7% estavam entre os 20% de maior desempenho no exame. Em 2018, eram 23,9%. Isso não

significa, evidentemente, que a nota de uma prova determine quem será um bom professor. O


dado importa porque ajuda a revelar o quanto as licenciaturas conseguem, ou não, disputar a

escolha dos jovens.

Não podemos esperar que essa realidade mude apenas com campanhas para estimular estudantes

a cursarem licenciaturas. Antes de perguntar por que um jovem não quer ser professor,

precisamos perguntar o que temos feito para que ele queira.

Esse debate também não pode colocar gerações em lados opostos. Precisamos valorizar os

profissionais que dedicaram décadas à educação e, ao mesmo tempo, criar condições para que

seus conhecimentos encontrem continuidade em uma nova geração de docentes. Renovar o

magistério não significa substituir experiência por juventude. Significa garantir continuidade.

É por isso que valorização e futuro são temas inseparáveis. Se queremos professores preparados e

comprometidos daqui a dez, vinte ou trinta anos, precisamos construir hoje uma carreira que faça

sentido para quem está começando e para quem já dedicou a vida à escola.

Neste mês em que celebramos os professores, o reconhecimento mais importante que podemos

oferecer não está apenas nas homenagens. Está na construção de condições concretas para que

ensinar seja uma escolha profissional respeitada, sustentável e capaz de oferecer futuro.

Porque a pergunta sobre quem vai querer ser professor amanhã começa pela forma como

tratamos quem ensina hoje.

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