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Opinião Pública

Progressismo às avessas

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

29/01/2026

O saudoso jornalista Pedro Maia, respeitado pelos colegas e dono de uma perspicácia debochada, costumava dizer que o Espírito Santo era um estado sui generis. O senhor Neves era negro, o senhor Pacífico não costumava levar desaforo para casa e a Praia Comprida era curta. Era esse o estilo de Pedro: frases que soavam como piada, mas que carregavam diagnósticos profundos sobre um país que parece ter sido inventado para contrariar a lógica. Eu acrescento, com licença da memória do amigo, mais uma definição para sua coleção: no Brasil, até o Partido Progressista é de direita. Pode isso? Claro que pode. Aqui pode tudo.

O progressismo deveria ser sinônimo de olhar para frente, defender direitos, ampliar liberdades, acreditar que o futuro pode ser melhor do que o passado. Mas, no Brasil, a palavra ganhou função decorativa. Virou logotipo de legenda, enfeite de propaganda eleitoral, disfarce de conservadorismo. O Partido Progressista, que já atendeu por vários nomes, aprendeu cedo que o poder não exige coerência, apenas presença. O futuro que defende é sempre o próximo cargo, de preferência com orçamento recheado.

Pedro Maia sorriria diante dessa contradição. Diria que é típico do país onde a Praia Comprida é curta. O Brasil chama de progressista um partido que se dedica a preservar tudo como está. O eleitor lê o nome, imagina que ali possa haver algo novo, e descobre que o “progresso” oferecido é a mais antiga prática política nacional: estar sempre ao lado de quem manda. O único movimento real é o da porta giratória em direção ao governo de turno.

Ao longo das décadas, o Partido Progressista aprendeu a ser o que os cientistas políticos chamariam de “partido de coalizão permanente”. Em linguagem mais direta, trata-se de um grupo que se orgulha de nunca ficar de fora. Foi aliado de governos de esquerda, de direita, de centro e de qualquer coisa intermediária. A coerência é uma só: garantir ministérios, verbas e cargos. É a prova viva de que, no Brasil, o adjetivo importa menos do que o contracheque. Agora é opisição!

Enquanto isso, o verdadeiro progressismo — aquele que sonha com escola de qualidade, saúde pública decente, igualdade social, preservação ambiental — segue tratado como delírio juvenil. Quem ousa defender tais bandeiras é tachado de utópico, irresponsável ou inimigo da ordem. O progressista autêntico paga o preço de remar contra a maré. Já o Partido Progressista boia tranquilamente, flutuando na superfície do poder, sem nunca se preocupar com a profundidade.

É claro que não se deve confundir progressistas de verdade com a caricatura. Foram chamados de progressistas aqueles que lutaram pelo fim da escravidão, pelo voto feminino, pelos direitos trabalhistas. Também já foram chamados de loucos, ingênuos e perigosos. Hoje, muitos desses direitos parecem óbvios. Mas cada passo foi conquistado contra a resistência dos que juravam estar defendendo a tradição. No Brasil, o futuro sempre chega com atraso, como passageiro sem reserva que insiste em entrar no trem lotado.

Já o Partido Progressista nunca precisou forçar entrada. Estava sempre na cabine, de carona com o maquinista. E assim construiu sua reputação: não por defender ideias, mas por garantir espaço. Foi fisiologismo com crachá de modernidade, conservadorismo com nome de vanguarda. O partido que deveria simbolizar avanço se tornou especialista em garantir retrocessos bem embalados. É o paradoxo perfeito para um país que faz da incoerência um modo de vida.

Pedro Maia diria, com seu sorriso irônico, que não há motivo para espanto. Afinal, se o senhor Pacífico não levava desaforo para casa, por que esperar coerência de um partido que se chama progressista? O Brasil é, antes de tudo, uma anedota que insiste em se levar a sério. E dentro dessa anedota, as palavras perderam a ligação com as coisas. O que importa não é o conteúdo, mas a etiqueta.

No fim, ser progressista de verdade continua sendo remar contra a corrente, lutar por mudanças reais e aceitar o risco de perder. O Partido Progressista, por sua vez, prefere se deitar na maré mansa do poder, sem sobressaltos. A diferença é gritante: um paga o preço da impopularidade em nome de um projeto de país; o outro desfruta do aconchego do orçamento em nome de si mesmo.

E assim seguimos, nesse Brasil em que até o absurdo parece natural. O eleitor se acostuma, a imprensa registra, a classe política negocia, e o país repete o espetáculo como se fosse inevitável. O progressismo vira palavrão, mas o Partido Progressista é recebido de braços abertos em qualquer palácio. Acomodação travestida de ousadia, rotina fantasiada de mudança.

Talvez seja esse o segredo do Brasil: rir da própria contradição. Pedro Maia sabia disso melhor do que ninguém. Seu humor ácido era, no fundo, um exercício de lucidez. Se estivesse hoje entre nós, certamente repetiria que o Espírito Santo é um estado sui generis. E, com a mesma perspicácia debochada, acrescentaria que o Brasil inteiro também é. Afinal, só aqui um partido chamado progressista pode ser, sem constrangimento algum, de direita.

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