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Opinião Pública

Os deuses que precisam pedir voto

Ademar Batista Pereira

Ademar Batista Pereira

Presidente do Insituto Destino Brasil

29/09/2026

A política é uma importante atividade humana. É pela política que uma sociedade organiza diferentes interesses, estabelece regras, define prioridades, distribui parte dos recursos públicos e escolhe caminhos para o futuro. Quem escolhe essa atividade deveria ter como princípio servir à sociedade, e não servir-se dela.

Política, portanto, não deveria ser palavrão. Mas, no Brasil republicano, construímos ao longo do tempo uma relação difícil com ela. Para muitos brasileiros, política passou a ser associada muito mais à disputa pelo poder do que ao exercício temporário de uma função pública.

Talvez o problema não esteja na política, mas  na maneira como organizamos a atividade política.

Os deuses descem do Olimpo

Há um momento curioso em toda democracia: a eleição. De tempos em tempos, alguns dos homens e mulheres mais poderosos do país precisam voltar ao cidadão.

Pedem atenção. Pedem confiança. Pedem voto.

É quando os deuses descem do Olimpo. Mas será que todos chegam diante do eleitor nas mesmas condições? A Constituição estabelece a filiação partidária como uma das condições para alguém ser elegível. Portanto, no Brasil, antes de pedir o voto do cidadão, quem pretende disputar uma eleição precisa passar necessariamente por um partido político.

E são partidos e federações que, nas convenções, escolhem oficialmente seus candidatos.  Isso nos leva a uma primeira pergunta: se os partidos são a porta de entrada da democracia representativa brasileira, quão democráticos devem ser por dentro?

Como são escolhidos e renovados seus dirigentes? Qual é a participação efetiva dos filiados? Como são construídas as candidaturas? Quem realmente possui condições de disputar os cargos mais importantes?

São perguntas especialmente relevantes nas disputas majoritárias, nas quais cada escolha partidária concentra enorme importância.

Chegar à urna não basta Depois de conseguir tornar-se candidato, aparece outro desafio: conseguir chegar ao eleitor. Campanhas custam dinheiro.

Para as eleições de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha — o Fundo Eleitoral — soma R$ 4,961 bilhões. A legislação determina critérios para a divisão desse dinheiro entre os partidos; depois, cada legenda precisa estabelecer os critérios para distribuir sua parcela entre seus candidatos, por deliberação da direção executiva nacional e observadas as regras legais.

Quanto poder existe em decidir quais candidaturas receberão estrutura e recursos suficientes para efetivamente chegar ao eleitor? Porque estar registrado como candidato e possuir condições reais de competir são coisas diferentes.

O voto também passa pela legenda

Existe ainda uma engrenagem que nem sempre é compreendida pelo eleitor. Para presidente, governador, prefeito e senador, usamos o sistema majoritário. Para deputados e vereadores, usamos o sistema proporcional.

Nas eleições proporcionais, não são considerados apenas os votos individuais dos candidatos. Os votos dados aos candidatos e às legendas participam da definição de quantas vagas caberão aos partidos ou federações, segundo as regras eleitorais.

Portanto, ao votar para deputado ou vereador, o cidadão não está participando apenas da escolha de uma pessoa.

Está também fortalecendo uma legenda. Talvez devêssemos compreender melhor o caminho percorrido pelo nosso voto depois que apertamos “confirma”.

Quem quer entrar e quem já está lá

Há ainda outra diferença importante. Alguns candidatos estão tentando entrar na política institucional. Outros estão tentando permanecer nela.

Quem já exerce um mandato passou os últimos anos ocupando uma função pública, participando do debate político, relacionando-se com governos, municípios e instituições e adquirindo exposição pública.

Isso não significa que gabinete, servidores ou recursos públicos possam ser utilizados livremente numa campanha. Existem regras eleitorais destinadas justamente a separar a função pública da campanha.

Mas existe uma questão institucional legítima: quais são as condições de competição entre quem tenta entrar e quem já está lá? E aqui aparecem também as emendas parlamentares.

Em 2026, elas somaram cerca de R$ 50 bilhões no Orçamento da União. São instrumentos do processo orçamentário e financiam ações, serviços e obras em estados e municípios.

Novamente, a questão não é afirmar que uma emenda seja irregular ou que sua execução constitua campanha eleitoral.

A pergunta é sobre o desenho do sistema: que efeito político produz um modelo em que quem exerce mandato participa da destinação de bilhões de reais do orçamento e depois retorna às mesmas comunidades para pedir a renovação desse mandato? Vale pensar.

Mandato não precisa ser profissão vitalícia

E essa discussão precisa alcançar também a duração da permanência no poder.

Hoje, presidente da República, governadores e prefeitos podem ser reeleitos para apenas um período consecutivo. A Constituição não estabelece limite equivalente de reeleições sucessivas para deputados, senadores e vereadores.

Por quê? Experiência parlamentar tem valor. Um Legislativo formado apenas por estreantes também teria custos: conhecimento acumulado, capacidade de fiscalização e domínio do processo legislativo são importantes.

Mas renovação também tem valor. Por isso, talvez valha discutir a possibilidade de limitar o número de mandatos consecutivos no Legislativo, preservando a possibilidade de retorno posteriormente.

Não precisamos decidir aqui se seriam dois, três ou quatro mandatos. A pergunta anterior é mais importante: se consideramos saudável limitar a permanência consecutiva de quem governa, por que não discutir também a permanência de quem legisla?

Resgatar a política

Talvez uma verdadeira reforma política não devesse começar mudando a urna. Talvez devesse começar antes dela.

Na democracia interna dos partidos. Na renovação de suas direções. Na escolha das candidaturas. Na transparência dos critérios para distribuição do dinheiro público destinado às campanhas. Nas condições de competição entre novos candidatos e quem já exerce mandato. Na forma como transformamos votos em cadeiras parlamentares. E na discussão sobre quanto tempo alguém deveria permanecer consecutivamente no mesmo cargo eletivo.

Não para afastar pessoas da política. Justamente para trazer mais pessoas para ela. Uma democracia não se renova simplesmente porque realiza eleições. Ela precisa permitir que novas pessoas tenham condições reais de chegar até elas.

Talvez seja hora de resgatar a política como aquilo que ela deveria ser: uma atividade humana necessária, digna e temporária, exercida em nome da sociedade.

Porque uma República precisa de políticos.

 Não  de deuses.

Esta reflexão faz parte da série Os Deuses do Olimpo Brasileiro, inspirada no livro 12 NÓS, do Instituto Destino Brasil.

Leia. Discorde. Proponha.

Pensar o Brasil também é uma forma de mudá-lo.

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