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Opinião Pública

Nossos mísseis são da classe Aedes!

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

21/09/2026

Se algum dia Donald Trump resolver invadir o Brasil, convém avisar ao Pentágono que talvez não seja necessário mobilizar toda a sua impressionante coleção de porta-aviões, bombardeiros, submarinos nucleares e mísseis. O Brasil dispõe de um sistema de defesa muito mais antigo, abundante e difícil de localizar no radar: nossos mísseis são da classe Aedes: aegypti, Haemagogus e Sabethes.

São armamentos orgânicos, nacionais e praticamente sem custos. Não precisam de combustível de aviação, dispensam satélites, não dependem de GPS e muito menos de autorização do Congresso Nacional para levantar voo. Pior: são capazes de infernizar qualquer tropa estrangeira que imagine que desembarcar nos trópicos seja apenas uma questão de superioridade militar.

O Aedes aegypti, conhecido transmissor da dengue, ficaria encarregado das operações urbanas. Nas matas, entrariam em cena mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, envolvidos na transmissão silvestre da febre amarela. Evidentemente, tudo isso pertence ao terreno da sátira: dengue e febre amarela são doenças graves, que atingem brasileiros e precisam ser combatidas. Aqui, nossos mosquitos receberam apenas uma licença literária para participar da defesa nacional.

Imagino Trump perguntando aos seus generais quantos bilhões de dólares seriam necessários para neutralizar a nova arma brasileira. Talvez alguém tivesse de explicar que não adiantaria enviar um porta-aviões. Mosquito não respeita poderio naval, não consulta nacionalidade e dificilmente ficará impressionado com o orçamento do Pentágono.

A brincadeira, porém, termina justamente onde começa a parte séria desta história.

No século XXI, uma grande potência não precisa necessariamente ocupar militarmente outro país para exercer pressão sobre ele. Existem instrumentos muito mais sofisticados. Tarifas, sanções, restrições financeiras, barreiras comerciais, domínio tecnológico e pressão diplomática podem atingir uma economia inteira sem que seja disparado um único tiro.

Em 15 de julho deste ano, o governo de Donald Trump  atendendo aos apelos do “Bananinha” e do neto do ditador que amava cavalos determinou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, depois de investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR. Washington afirma que determinadas políticas e práticas brasileiras prejudicam empresas, trabalhadores, agricultores e exportadores americanos.

Essa é a justificativa dos Estados Unidos e precisa ser registrada. Mas o Brasil tem o direito de olhar para seus próprios interesses e fazer uma pergunta muito mais antiga: até que ponto somos verdadeiramente soberanos?

É justamente aqui que entra uma velha desconfiança brasileira. Os Estados Unidos, de tempos em tempos, farão algum tipo de investida para impedir que o Brasil alcance uma soberania plena. Não necessariamente com soldados, tanques ou porta-aviões. A arma mais eficiente pode ser econômica.

Manter o Brasil na periferia do capitalismo — grande o bastante para comprar, produzir alimentos, fornecer matérias-primas e movimentar centenas de bilhões de dólares, mas dependente o suficiente para não ocupar o centro das grandes decisões — seria muito mais eficiente do que qualquer invasão militar.

Essa é uma interpretação política e histórica, naturalmente, e não uma intenção confessada pelo governo americano. Pode ser discutida, contestada e considerada exagerada. Washington certamente apresenta outra leitura de sua política externa. Mas permanece uma pergunta incômoda: ao longo da História, quantas grandes potências trabalharam espontaneamente para transformar países dependentes em futuros concorrentes?

Impérios não costumam criar adversários por filantropia.

É nesse ponto que soberania deixa de ser palavra bonita pronunciada diante de uma bandeira. Soberania plena significa, entre outras coisas, possuir autonomia fiscal, monetária, tecnológica e militar. Nenhuma delas é absoluta no mundo moderno, mas quanto maior a dependência, menor será a liberdade para contrariar quem controla aquilo de que dependemos.

O Brasil tem território continental, mais de 200 milhões de habitantes, petróleo, água doce, terras agricultáveis, minerais estratégicos e enorme produção de alimentos. O problema começa quando precisamos transformar tamanho e riqueza em poder.

Os Estados Unidos sabem perfeitamente como isso funciona. Sua força não está apenas nos porta-aviões. Está no dólar, no sistema financeiro, nas universidades, nos centros de pesquisa, na indústria militar, nas empresas de tecnologia e na capacidade de fazer com que uma decisão tomada em Washington produza consequências a milhares de quilômetros dali.

Um porta-aviões é uma extraordinária demonstração de poder. O dólar talvez seja ainda mais.

Talvez esse seja um dos nossos grandes problemas históricos. O Brasil possui dimensões de potência, riquezas de potência, população de potência e, em determinadas áreas, capacidade de potência. Mas frequentemente planeja o futuro com a duração de um mandato presidencial.

Projetos começam, governos terminam e projetos recomeçam com outros nomes. Enquanto algumas grandes potências pensam em décadas, nós muitas vezes pensamos na próxima eleição.

Se Trump e sua tropa algum dia resolverem aparecer por aqui, portanto, nossos mísseis da classe Aedes:  aegypti, Haemagogus e Sabethes estarão espalhados pelo território — na imaginação desta crônica — para assombrar gerações de invasores. Seria a mais barata força aérea da história militar brasileira.

O problema é que provavelmente estamos nos preparando para a guerra errada.

Quando a disputa chega pela economia, nossos valentes esquadrões alados perdem completamente a serventia. Não há Aedes aegypti capaz de derrubar uma decisão comercial tomada em Washington, nem Haemagogus que consiga atacar uma sanção econômica.

Mosquito não pica tarifas.

Contra esse tipo de pressão, a defesa é outra: economia forte, conhecimento, ciência, tecnologia, indústria, equilíbrio fiscal, capacidade militar e relações internacionais suficientemente diversificadas para que ninguém disponha de uma coleira curta demais para colocar em nosso pescoço.

Porque soberania não significa trocar Washington por Pequim, Moscou ou qualquer outro centro de poder.

Independência não é escolher de quem queremos depender.

É ter força suficiente para decidir o próprio destino.

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