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Opinião Pública

Agora o Brasil resolveu apostar contra as bets

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

28/09/2026

O Brasil tem uma relação curiosa com o jogo. Joga, condena o jogo, administra jogos, arrecada com eles, proíbe alguns e, de tempos em tempos, descobre com espanto que apostar pode causar vício. É uma espécie de roleta institucional na qual a bolinha gira há décadas e ninguém sabe exatamente onde vai parar. Agora chegou a vez das bets.

A história começou oficialmente em 2018, no governo Michel Temer, quando a Lei nº 13.756 legalizou as apostas esportivas de quota fixa. A própria lei determinava que o governo regulamentasse o setor em até dois anos, prazo que poderia ser prorrogado por mais dois.

Veio então o governo de Jair Bolsonaro, hoje cumprindo pena em prisão domiciliar, e a regulamentação completa não saiu. O mandato terminou em dezembro de 2022 com as bets legalizadas, espalhadas pelo país e operando sem o regime regulatório abrangente que posteriormente passaria a exigir autorização, fiscalização e regras específicas para funcionamento. Em 2023, já no governo Lula, a legislação foi modificada e ampliada; em 2024, o Ministério da Fazenda publicou as normas que estruturaram efetivamente o mercado regulado. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas passaram a poder operar nacionalmente.

A sequência merece ser guardada porque ajuda a compreender a ironia: Temer legalizou, Bolsonaro não concluiu a regulamentação, Lula regulamentou e agora Lula resolveu proibir. O Brasil abriu a porta, deixou gente entrar sem conferir direito a lista de convidados, depois organizou a portaria, cobrou ingresso e, finalmente, resolveu apagar as luzes e avisar que a festa acabou.

E o ingresso não foi barato. As empresas autorizadas pagaram R$30 milhões pela outorga, contrataram funcionários, compraram publicidade, patrocinaram clubes e recolheram tributos. O argumento mais forte para acabar com as bets, entretanto, não está nos cofres públicos. Está dentro das casas brasileiras.

A aposta pode começar como diversão e terminar como necessidade. O sujeito perde R$50, coloca mais R$100 para recuperar os R$50, perde novamente e aposta R$200. Quando percebe, já não está tentando ganhar; está tentando voltar ao lugar onde estava antes de começar. É uma matemática cruel porque a esperança não aparece no extrato bancário.

Mas, se apostar pode provocar compulsão, aparece uma pergunta incômoda: o problema está exclusivamente nas bets ou também no ato de jogar? Porque o brasileiro não aprendeu a apostar quando inventaram o smartphone.

Muito antes da internet já existia o jogo do bicho. Proibido há décadas, atravessou governos, operações policiais, ditadura, democracia, inflação, troca de moeda e planos econômicos. Continua clandestino, embora seja exagero dizer que vive escondido. Em muitas cidades, o bicho pratica uma clandestinidade bastante sociável.

Em 1976, Joãozinho Trinta levou para a Beija-Flor de Nilópolis o enredo “Sonhar com Rei Dá Leão”, e a escola conquistou seu primeiro título entre as grandes do Carnaval carioca. Não havia algoritmo, aplicativo nem bônus de boas-vindas. Havia papel, lápis, palpite e esperança. Mudou a tecnologia; a vontade de descobrir o resultado permaneceu intacta.

Temos ainda as loterias oficiais. A Caixa Econômica Federal administra Mega-Sena, Quina, Lotofácil e outras modalidades. São jogos legais e fiscalizados, mas isso não transforma aposta em investimento.

Todos os dias, santos ou não, saio para caminhar com minha Elke Maravilha pelas ruas da Praia do Canto. Durante muito tempo, seguíamos em direção à Igreja Santa Rita para contornar parte do perímetro do bairro. Ultimamente mudei o roteiro e agora vamos para o Norte, passando pelo Supermercado São José, muito bem administrado por José Henrique Neffa, que herdou o talento dos pais, meus saudosos amigos Toninho e Maria Helena Murad Neffa.

A mudança nada tem a ver com trânsito ou recomendação médica. A culpa é da Elke. Quando nos aproximamos do tradicional Bar do Henrique, na esquina das ruas Aleixo Netto e Saul Navarro, ela tenta atravessar a rua. Do outro lado está a Loteria Premiada, do competente economista Benildo Denadai.

Elke quer que eu jogue na Mega-Sena. Não sei como descobriu a lotérica, mas puxa a guia naquela direção com uma convicção que faria inveja a muito consultor de investimentos. Eu resisto: numa aposta simples, a chance de acertar as seis dezenas é de aproximadamente uma em 50 milhões. Na Lotofácil, acertar os 15 números representa pouco mais de uma possibilidade em 3 milhões. O nome Lotofácil merece respeito como obra de publicidade. Fácil mesmo é preencher o volante.

Se eu ceder à Elke, atravessar a rua e entregar meu dinheiro na lotérica, estarei praticando uma atividade perfeitamente legal, administrada pela Caixa e autorizada pelo Estado. Se tirar o telefone do bolso e apostar numa bet, o mesmo Estado que até ontem regulamentava e tributava essa atividade decidiu agora que precisa me proteger dela. Elke talvez não compreenda a diferença. Confesso que seu dono também encontra alguma dificuldade.

A própria Caixa mantém um Programa de Jogo Responsável, inclusive para prevenir comportamento compulsivo. Portanto, a compulsão não nasceu com as bets. Existe, porém, uma diferença importante: velocidade. O jogador da Mega-Sena aposta e espera. A bet colocou o estádio, a banca e o caixa dentro do bolso do freguês. A velha fézinha ganhou banda larga.

As bets também não cresceram sozinhas. O futebol brasileiro descobriu nelas uma extraordinária fonte de receita. O Flamengo tem contrato de patrocínio máster da Betano de aproximadamente R$250 milhões anuais e, quando o governo anunciou a proibição, divulgou nota contrária à medida, argumentando que seus efeitos alcançam futebol profissional, categorias de base, futebol feminino, esportes olímpicos e milhares de empregos. R$250 milhões por ano não são propriamente uma moedinha encontrada debaixo do sofá.

A televisão também entrou no jogo. O Grupo Globo participa da operação brasileira da BetMGM. A Band tomou um caminho diferente: a BandBet é operada pela Bell Ventures Digital, com licenciamento da marca do Grupo Bandeirantes.

E nesse universo aparece Daniel Vorcaro. O ex-banqueiro e dono do Banco Master foi formalmente sócio da Bet.Bet entre 2023 e 2025. Mais recentemente, mensagens encontradas pela Polícia Federal passaram a indicar que ele também seria o verdadeiro proprietário da Pixbet, embora a empresa tivesse outro proprietário formalmente identificado. Nesse caso, é indispensável separar o que os documentos societários comprovam daquilo que uma investigação ainda procura esclarecer.

A mesa ficou bastante concorrida. Nela estavam casas de apostas, clubes de futebol, emissoras, empresários, anunciantes e o próprio governo, que recebeu pelas outorgas e arrecadou tributos. Faltava apenas alguém colocar dinheiro na máquina. Esse alguém era o apostador.

Forma-se um círculo curioso: o brasileiro aposta na bet; a bet patrocina o clube pelo qual ele torce; o clube aparece na televisão; a televisão recebe publicidade ou participa do negócio; e o governo arrecada. Depois, todos tiram os deles da reta, e explicam ao apostador que ele deve jogar com responsabilidade.

Em 2025, o governo ainda tentou elevar de 12% para 18% a tributação sobre o chamado GGR — Gross Gaming Revenue, expressão inglesa para a receita das casas depois do pagamento dos prêmios. A proposta encontrou resistência no Congresso e não prosperou. Ontem discutíamos quanto cobrar das bets; hoje discutimos como fazê-las desaparecer. Amanhã, conhecendo o Brasil, é prudente não apostar.

Proibir, porém, não significa necessariamente eliminar. O jogo do bicho talvez pudesse oferecer algumas aulas sobre o assunto. Está proibido há décadas e continua entre nós. Nada disso diminui o sofrimento provocado pelo jogo compulsivo: há famílias endividadas e pessoas que perderam dinheiro, patrimônio e tranquilidade. A ironia cabe nas contradições do Estado, dos clubes, das empresas e da política; não cabe na tragédia de quem perdeu o controle.

Talvez por isso a discussão precise ir além da palavra bet. O problema é mais antigo e chama-se jogo. Pode aparecer numa tela, num volante da lotérica ou num papel onde alguém anota o número de um animal. As modalidades e os riscos são diferentes, mas todas conversam com a mesma esperança humana de transformar pouco em muito graças a um resultado que ninguém controla.

O Brasil legalizou as bets, passou quatro anos sem concluir sua regulamentação, depois regulamentou o mercado, vendeu autorizações milionárias, arrecadou impostos e permitiu que elas financiassem o futebol e ocupassem a televisão. Agora resolveu proibi-las, enquanto continua vendendo loterias e combatendo um jogo do bicho que atravessou gerações.

Talvez Joãozinho Trinta tenha compreendido o Brasil antes de muita gente. Em 1976 colocou na avenida “Sonhar com Rei Dá Leão”. Meio século depois, governo, Congresso, clubes, emissoras, empresários e apostadores continuam tentando descobrir que bicho vai dar. Só não convém apostar.


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