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Opinião Pública

O silicone entre as ruínas da civilização humana

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

11/05/2026

No ano terrestre de 2236, a humanidade já era apenas um comentário na história do planeta Terra.

Um comentário radioativo, é verdade, mas ainda assim um comentário.

As guerras nucleares do século XXI haviam encerrado, de maneira bastante objetiva, um antigo debate filosófico: afinal, o ser humano era racional ou apenas um animal selvagem com acesso a urânio enriquecido?

A resposta permanecia espalhada pelo planeta.

As antigas cidades haviam desaparecido sob florestas densas. Árvores monumentais rasgavam avenidas inteiras. Raízes atravessavam igrejas, bancos e parlamentos — sem demonstrar qualquer respeito. Em muitos lugares, cipós pendiam das fachadas de antigos prédios de luxo como se a própria natureza estivesse cobrindo de vergonha os restos da civilização.

O silêncio dominava quase tudo.

Silêncio e umidade.

À noite, ventos atravessavam esqueletos de arranha-céus produzindo sons melancólicos. Havia quem dissesse — entre os novos habitantes da Terra — que as ruínas ainda respiravam.

Os Kaelins chegaram 205 anos depois da hecatombe nuclear, vindos de Kepler-1649c, um mundo quase frio situado na constelação de Cygnus, distante cerca de 300 anos-luz da Terra.

Fisicamente, lembravam muito os antigos terráqueos. Tinham braços, pernas, olhos e a desagradável necessidade de trabalhar para sobreviver. A principal diferença era psicológica: os Kaelins não passavam horas fotografando a própria comida antes de comê-la.

Trouxeram em suas naves sementes, muitos animais domesticados e máquinas agrícolas compactas. Começaram devagar. Plantaram nas áreas menos contaminadas. Recuperaram os rios. Construíram pequenas cidades próximas às regiões férteis.

E descobriram algo inesperado: a Terra continuava absurdamente bela.

Mesmo depois dos humanos.

Com o passar dos anos, o solo voltou a produzir alimento em abundância. Frutas, vegetais e espécies adaptadas de Kepler-1649c cresceram em antigos estacionamentos e centros empresariais. Onde antes funcionavam hospitais, shoppings  ou campos de futebol, agora existiam plantações balançando ao vento.

Os Kaelins gostavam da simplicidade da nova vida terrestre.

Até começarem as escavações arqueológicas.

Foi o professor Zor-Kaal quem liderou as primeiras grandes expedições às ruínas das antigas metrópoles humanas. Alto, magro e dono daquele ar cansado típico de acadêmicos que já perderam a fé na inteligência universal, ele tinha obsessão pela espécie extinta.

— Nenhuma civilização desaparece sem deixar pistas sobre sua própria loucura — dizia aos alunos.

As primeiras descobertas foram previsíveis: armas, cofres, joias, aparelhos eletrônicos, óculos made in Itália, mas produzidos na China, veículos e milhões de recipientes plásticos que aparentemente sobreviveriam até o fim do universo.

Mas então surgiram as bolhas.

A equipe encontrou esqueletos femininos parcialmente preservados em antigas áreas residenciais de luxo. Muitos vinham acompanhados de estruturas arredondadas, translúcidas e resistentes.

Próteses mamárias.

O laboratório mergulhou numa perplexidade respeitosa.

— Talvez fossem bolsas térmicas internas — sugeriu um pesquisador.

— Ou órgãos de armazenamento de nutrientes — disse outro.

Lyrna-Kaal, filha do o professor Zor-Kaal, jovem arqueóloga conhecida pela inteligência e pelo sarcasmo pouco acadêmico, ergueu uma das peças contra a luz.

— Se isso servia para armazenar alimento, os humanos provavelmente planejavam sobreviver ao inverno dentro de boates.

Dias depois, surgiram novos exemplares.

Próteses glúteas.

Faciais.

Implantes labiais.

Estruturas nas maçãs do rosto.

Narizes remodelados artificialmente.

Alguns esqueletos apresentavam tantas intervenções que os cientistas tiveram dificuldade para determinar onde terminava a anatomia natural e começava a engenharia estética.

Os Kaelins acessaram então antigos arquivos digitais preservados em servidores subterrâneos.

E compreenderam tudo.

Ou quase tudo.

Os vídeos mostravam humanos obcecados em parecer mais jovens, mais fortes, mais desejáveis e, sobretudo, mais artificiais. Mulheres caminhavam diante de câmeras exibindo rostos esticados e corpos moldados cirurgicamente enquanto milhões de espectadores admiravam aquilo com seriedade quase religiosa.

Muitas pertenciam a um curioso grupo social da antiga humanidade: pessoas abastadas que gastavam pequenas fortunas não apenas para parecer jovens, mas também para serem fotografadas para colunas sociais de jornais provincianos, onde inauguravam boutiques, desfilavam em eventos beneficentes e disputavam silenciosamente quem possuía o rosto menos compatível com a anatomia humana original.

— Então elas não nasciam assim? — perguntou um estudante.

— Não — respondeu Zor-Kaal. — Pagavam fortunas para parecer versões infláveis de si mesmas.

Os vídeos seguintes deixaram os cientistas ainda mais abalados.

Os homens humanos também participavam do fenômeno.

Talvez com mais desespero.

Em antigas academias subterrâneas — templos dedicados ao culto da própria imagem — os arqueólogos encontraram próteses musculares inseridas em bíceps, tríceps e panturrilhas.

Panturrilhas artificiais.

A descoberta provocou vinte minutos de silêncio absoluto no centro de pesquisas.

Lyrna-Kaal foi a primeira a falar:

— Eles implantavam músculos… para evitar o trabalho de criá-los naturalmente?

— Ao que tudo indica, sim — respondeu Zor-Kaal.

— Extraordinário.

Os cientistas passaram semanas analisando registros audiovisuais daqueles homens terrestres bronzeados artificialmente, cobertos de óleo, exibindo braços enormes enquanto falavam frases motivacionais de profundidade intelectual comparável à de um micro-ondas.

Havia também os implantes penianos.

Esse foi o momento em que alguns pesquisadores começaram a questionar se a humanidade realmente havia dominado a energia nuclear ou apenas apertado botões aleatórios durante alguns séculos.

Um jovem pesquisador pigarreou:

— Isso… isso era voluntário?

— Sim — respondeu Lyrna folheando os arquivos históricos. — E aparentemente havia filas.

As imagens recuperadas mostravam homens desesperados para parecer eternamente jovens, fortes e sexualmente irresistíveis. Muitos mal conseguiam movimentar o rosto. Outros caminhavam como armários com problemas lombares.

Ainda assim, sorriam.

Ou pelo menos tentavam.

Os Kaelins tinham dificuldade em compreender aquilo.

Em sua cultura, envelhecer era considerado uma honra biológica. Rugas representavam experiência. Cicatrizes eram memórias visíveis. Ninguém escondia os anos vividos.

Já os humanos pareciam travar uma guerra permanente contra o espelho.

E perdiam diariamente.

Os relatórios arqueológicos tornaram-se célebres em toda a Nova Terra. Um deles, escrito por Lyrna, passou a ser leitura obrigatória nas universidades:

“A antiga humanidade desenvolveu computadores quânticos, satélites, medicina avançada e viagens espaciais. Contudo, parte considerável de sua população acreditava sinceramente que a felicidade dependia de colocar silicone nas nádegas.”

Outro trecho tornou-se ainda mais popular:

“Os humanos tinham pavor da velhice, mas curiosamente terminavam todos parecendo parentes da mesma tartaruga surpreendida por um incêndio.”

Com o tempo, as próteses humanas passaram a ocupar alas inteiras do Museu Histórico da Terra Restaurada.

Crianças kaelins visitavam aquelas vitrines em excursões escolares.

Observavam implantes mamários, bíceps artificiais, panturrilhas de silicone e antigos aparelhos estéticos com o mesmo espanto com que civilizações antigas observavam instrumentos de tortura medieval.

Descobriram também que dentes naturais também eram cobertos por lâminas artificiais extremamente brancas, numa tonalidade inexistente na natureza e aparentemente inspirada na cor de vasos sanitários recém-fabricados.

Os Kaelins inicialmente imaginaram tratar-se de algum tipo de blindagem alimentar. Depois descobriram que os humanos simplesmente acreditavam que sorrisos fluorescentes transmitiam juventude, sucesso e poder econômico — especialmente entre apresentadores de televisão, políticos, empresários e frequentadores de colunas sociais das pequenas cidades, onde um sorriso excessivamente branco funcionava quase como brasão de nobreza suburbana.

— Isso fazia parte do corpo deles? — perguntavam.

Os professores respiravam fundo antes de responder.

— Não exatamente.

E enquanto o planeta florescia novamente sobre as ruínas radioativas da velha humanidade, os Kaelins aprenderam talvez a mais importante lição deixada pelos antigos terráqueos:

Uma espécie capaz de destruir a própria civilização nuclearmente talvez não fosse tão perigosa quanto uma espécie disposta a transformar o próprio corpo num parque temático de silicone apenas para receber elogios de desconhecidos.



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