Há mapas que contam a história de um povo. Outros contam apenas a história de quem venceu uma guerra. O mapa do Oriente Médio moderno pertence, em grande medida, à segunda categoria.
Durante 623 anos, entre 1299 e 1922, o Império Otomano figurou entre os maiores e mais duradouros impérios da História. Em seu auge, ocupava aproximadamente 5,2 milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se das proximidades de Viena, na Europa Central, até o Iêmen, na Península Arábica, e da Argélia, no norte da África, às margens do Golfo Pérsico.
Não era um conjunto de territórios dispersos nem um imenso vazio de areia, como muitas vezes sugere o imaginário ocidental. Era um universo complexo, onde conviviam árabes, turcos, curdos, armênios, gregos, judeus, cristãos de diferentes tradições, muçulmanos sunitas, xiitas, alauítas, drusos e dezenas de povos organizados em tribos e comunidades que, ao longo de séculos, construíram relações políticas, econômicas, religiosas e culturais próprias.
Como qualquer grande império, o Otomano conheceu guerras, revoltas, perseguições e disputas pelo poder. Mas também desenvolveu uma estrutura administrativa capaz de acomodar uma extraordinária diversidade de povos. Não era uma democracia nem um paraíso de convivência. Era, acima de tudo, uma ordem política consolidada pela História.
Nada disso cabia sobre uma mesa de negociações.
Quando a Primeira Guerra Mundial mergulhou a Europa na destruição, o Império Otomano escolheu o lado derrotado. Sua queda abriu um imenso vazio de poder justamente sobre uma das regiões mais estratégicas do planeta. Para Reino Unido e França, aquela não era apenas uma vitória militar. Era uma oportunidade geopolítica talvez única.
O discurso oficial era impecável. Falava-se em reorganizar o Oriente Médio, promover estabilidade e preparar aqueles povos para um futuro de autodeterminação. A retórica era sedutora. Nos bastidores, porém, a realidade seguia outro roteiro.
Enquanto diplomatas britânicos e franceses desenhavam mapas em gabinetes confortáveis de Londres e Paris, um jovem oficial britânico percorria milhares de quilômetros pelo deserto da Arábia. Seu nome era Thomas Edward Lawrence.
O mundo o conheceria décadas depois pelo cinema, no clássico Lawrence da Arábia. Antes de se transformar em personagem lendário, Lawrence era arqueólogo, estudioso da cultura árabe, falava o idioma local e conhecia profundamente aquela região. Incorporado ao serviço de inteligência britânico, foi enviado para atuar junto às forças árabes que combatiam o domínio otomano.
Sua missão era delicada. Convencer tribos historicamente divididas a unirem forças contra um inimigo comum.
Lawrence não comandou sozinho a Revolta Árabe, como muitas vezes sugere a narrativa cinematográfica. A liderança pertencia ao sharif Hussein de Meca e, sobretudo, ao seu filho, o emir Faisal. Coube ao oficial britânico desempenhar o papel de elo entre Londres e os combatentes árabes, levando recursos, armas, informações estratégicas e, principalmente, uma promessa.
Terminada a guerra, dizia ele, os povos árabes conquistariam sua independência e finalmente poderiam construir seu próprio destino.
A promessa funcionou.
Diversas tribos aderiram à Revolta Árabe. Lawrence participou de operações militares que entrariam para a História, como a tomada do porto de Aqaba, considerada uma das mais brilhantes ações da campanha. À medida que o exército otomano recuava, crescia entre os árabes a convicção de que lutavam não apenas contra um império decadente, mas pelo nascimento de uma grande nação árabe.
Mas a História já estava sendo escrita em outro lugar.
Enquanto Lawrence cruzava o deserto acreditando ajudar a construir um novo Oriente Médio, representantes do Reino Unido e da França negociavam secretamente o futuro daqueles mesmos territórios.
Em 1916, o diplomata britânico Sir Mark Sykes e o francês François Georges-Picot firmaram o acordo que entraria para a História como Acordo Sykes-Picot.
Na prática, tratava-se da partilha antecipada do espólio do Império Otomano.
Antes mesmo de a guerra terminar, britânicos e franceses já decidiam quais regiões ficariam sob sua influência política, militar e econômica. Os povos que habitavam aqueles territórios simplesmente não participaram da conversa.
A ironia histórica beira o cinismo.
Homens atravessavam desertos acreditando lutar pela liberdade enquanto governos aliados negociavam, em absoluto segredo, quem controlaria suas terras depois da vitória.
Lawrence foi um dos primeiros britânicos a compreender a dimensão daquela contradição. Seus escritos revelam profundo desconforto ao perceber que as promessas feitas aos árabes dificilmente seriam cumpridas. Tentou convencer autoridades britânicas a honrarem os compromissos assumidos durante a guerra, mas encontrou uma realidade conhecida de qualquer estudioso das relações internacionais: a geopolítica raramente se curva à consciência de seus próprios agentes.
Derrotado o Império Otomano, começou a grande engenharia política que daria origem ao Oriente Médio moderno.
E foi ali que a régua passou a valer mais do que a História.
As novas fronteiras nasceram muito mais preocupadas em preservar interesses estratégicos do que realidades históricas. Rotas comerciais, acesso ao Mediterrâneo, influência militar, equilíbrio entre as potências europeias e, pouco tempo depois, o controle das regiões produtoras de petróleo passaram a ocupar o centro das decisões. A distribuição dos povos, suas identidades religiosas, seus vínculos culturais e suas estruturas tribais foram tratados como questões secundárias.
Posteriormente, como tantas vezes acontece na política internacional, significou apenas que outros resolveriam o problema.
Sunitas, xiitas, alauítas, cristãos orientais, drusos e inúmeras outras comunidades passaram a integrar os mesmos Estados, embora muitas delas jamais tivessem compartilhado uma mesma estrutura política. Em outras regiões ocorreu exatamente o contrário. Povos historicamente unidos foram separados por fronteiras que nunca haviam existido.
Não é exagero afirmar que houve, no mínimo, uma profunda indiferença — e talvez até uma dose de maldade — na definição de parte dessas fronteiras.
Não porque Londres e Paris desejassem condenar o Oriente Médio a um século de guerras. Essa seria uma conclusão que a documentação histórica não permite afirmar com segurança. A maldade esteve em outra escolha: sabendo que lidavam com povos, religiões, culturas e tradições moldadas ao longo de mais de seis séculos sob o Império Otomano, decidiram que tudo isso valia menos do que seus interesses estratégicos.
Não foi simples desconhecimento.
Relatórios existiam. Arqueólogos, militares, administradores coloniais e diplomatas conheciam suficientemente a realidade da região. Quando a geografia dos povos entrou em conflito com a geografia do poder, venceu o poder.
Nenhum episódio simboliza melhor essa decisão do que o destino reservado aos curdos.
Os curdos já habitavam aquelas montanhas muito antes do nascimento do Império Otomano. Possuíam identidade própria, língua, cultura e forte sentimento de pertencimento. Ao final da Primeira Guerra Mundial, acreditaram que também teriam direito a um Estado nacional. Não era uma expectativa fantasiosa. O Tratado de Sèvres, assinado em 1920, chegou a prever a criação de uma entidade curda autônoma, abrindo caminho para a futura independência.
Mas a esperança durou pouco.
Em 1923, o Tratado de Lausanne abandonou completamente essa possibilidade. O mapa foi redesenhado mais uma vez e o povo curdo desapareceu dele como sujeito político. Seu território foi repartido entre Turquia, Iraque, Síria e Irã. Nascia ali a maior nação do mundo sem um Estado soberano.
É difícil acreditar que isso tenha ocorrido por mero descuido.
A criação de um Curdistão alteraria profundamente o equilíbrio regional. Exigiria retirar territórios da nova Turquia e das áreas de influência pretendidas por britânicos e franceses. Um Estado curdo ocuparia posição estratégica entre a Anatólia, a Mesopotâmia e o Levante, justamente onde as grandes potências desejavam preservar sua capacidade de influência.
Talvez nunca se descubra se alguém, naquela sala, imaginou que aquela decisão produziria conflitos durante mais de um século.
Mas certamente todos sabiam que estavam dividindo um povo.
A conta permanece aberta.
No norte do Iraque, os curdos conquistaram uma região autônoma com Parlamento, governo e forças de segurança próprios. No sul e sudeste da Turquia, sucessivos governos enfrentaram movimentos insurgentes, operações militares e uma permanente tensão envolvendo a questão curda. No norte da Síria, organizações curdas passaram a exercer papel decisivo durante a guerra civil, alterando o equilíbrio político e militar de toda a região.
Os curdos não são um fator natural de instabilidade.
A instabilidade nasce quando um povo com identidade própria é repartido entre diferentes países e vê negados, durante décadas, direitos culturais, políticos e, em alguns períodos, até o reconhecimento de sua própria existência.
Os curdos talvez sejam a maior prova de que uma fronteira não divide apenas territórios.
Ela pode dividir uma nação inteira.
Naturalmente, seria intelectualmente desonesto atribuir toda a violência do Oriente Médio às fronteiras desenhadas após a Primeira Guerra Mundial. A História jamais se explica por uma única causa. Vieram depois golpes de Estado, ditaduras, nacionalismos, disputas religiosas, terrorismo, intervenções estrangeiras, guerras civis e interesses econômicos ligados ao petróleo.
Mas também seria ingenuidade tratar a divisão do antigo Império Otomano como um detalhe sem importância.
Estados construídos ignorando identidades históricas tendem a nascer mais frágeis. Quando crises econômicas, disputas políticas ou conflitos externos surgem, antigas diferenças voltam à superfície. Não porque povos diferentes estejam condenados a viver em guerra, mas porque nenhuma sociedade se torna estável quando suas instituições são desenhadas por interesses externos e não pela vontade de seus próprios habitantes.
Foi exatamente nesse momento que a régua deixou de ser apenas um instrumento de cartografia.
Transformou-se em instrumento de poder.
Mais de um século se passou desde que aqueles mapas foram desenhados. As fronteiras permanecem praticamente intactas. O mesmo não se pode dizer da paz.
A Síria mergulhou em uma guerra civil devastadora. O Iraque ainda convive com profundas divisões sectárias. A questão curda continua sem solução definitiva. O Líbano enfrenta sucessivas crises políticas. A rivalidade entre diferentes correntes do islamismo segue influenciando governos, alianças e conflitos.
Evidentemente, nenhum desses acontecimentos decorre exclusivamente da forma como o antigo Império Otomano foi dividido. A História jamais se explica por uma única causa. Mas também é impossível compreender o Oriente Médio contemporâneo sem olhar para a maneira como seus alicerces foram lançados.
Talvez o maior equívoco daqueles diplomatas tenha sido acreditar que Estados podem ser criados com a mesma facilidade com que se desenham fronteiras.
Territórios podem ser repartidos.
Povos, não.
Uma linha traçada sobre um mapa separa montanhas, rios e desertos. Não apaga séculos de memória coletiva, identidade religiosa, vínculos culturais, tradições nem sentimento de pertencimento. Esses elementos sobrevivem aos tratados internacionais, às conferências diplomáticas e até aos impérios.
Foi exatamente isso que os negociadores europeus subestimaram.
Ao longo da História, os conquistadores sempre redesenharam mapas. Romanos, persas, mongóis, otomanos, franceses e britânicos fizeram isso em diferentes épocas. A diferença é que, no Oriente Médio, esse redesenho ocorreu justamente quando o mundo anunciava uma nova era baseada na autodeterminação dos povos e no respeito ao direito internacional.
O discurso era moderno.
O método permanecia imperial.
Talvez resida aí a maior contradição daquele período.
Enquanto se proclamava o direito dos povos decidirem o próprio destino, milhões de pessoas sequer sabiam que seu futuro já havia sido definido em salas de reunião a milhares de quilômetros de distância. Não participaram das negociações. Não foram consultadas. Apenas receberam um novo mapa e descobriram que agora pertenciam a países cuja existência jamais haviam imaginado.
A História costuma absolver os vencedores. Mas também possui o hábito de cobrar suas decisões, ainda que essa cobrança demore décadas — ou séculos.
O Oriente Médio talvez seja o exemplo mais eloquente dessa realidade.
Não porque seus povos sejam incapazes de conviver. Durante mais de seiscentos anos, o Império Otomano administrou uma imensa diversidade de etnias, religiões e culturas. Cometeu erros, praticou violências e conheceu guerras, como qualquer império. Ainda assim, existia uma ordem política construída ao longo do tempo. As comunidades conheciam seus espaços, suas relações e seus mecanismos de convivência.
O problema surgiu quando interesses externos decidiram reorganizar essa complexidade sem ouvir aqueles que nela viviam.
Foi nesse instante que a régua passou a valer mais do que a História.
Talvez seja exatamente por isso que, mais de um século depois, ainda existam fronteiras contestadas, povos sem Estado, disputas territoriais e milhões de pessoas pagando o preço de decisões tomadas por homens que jamais viveriam as consequências dos traços que desenharam sobre um mapa.
As fronteiras criadas após a queda do Império Otomano organizaram territórios.
Mas desorganizaram os povos.
Essa talvez seja a verdadeira herança do Acordo Sykes-Picot e dos tratados que o sucederam.
A régua desenhou fronteiras com admirável precisão.
A História encarregou-se de demonstrar que ela jamais seria capaz de desenhar nações.