Muita gente ficou surpresa com a obsessão de Trump em relação ao nosso PIX, ferramenta de pagamento que, em pouco tempo, caiu nas graças do povo brasileiro. Os funcionários do Banco Central que desenvolveram essa tecnologia não imaginavam a velocidade de adesão de pessoas físicas e jurídicas que ocorreu. E isso se deu especialmente por conta de uma insatisfação ampla com os custos de transação por cartões de crédito e débito e também pelo extinto DOC e pela TED (Transferência Eletrônica Disponível).
Esse custo para pessoas físicas e jurídicas representa um ônus descabido, que suprime parte da renda do trabalho em benefício do sistema financeiro. Com o PIX, além de libertar o povo da ditadura dos cartões, permite aos comerciantes praticar políticas de descontos, reforçadas com o PIX agendado e parcelado.
Como sabemos, o mercado de cartões mundial é dominado pelo duopólio VISA e Mastercard, com exceção da China, que tem gigantes de meios de pagamento, entre as quais a UnionPay, a Alipay e a Wepay. Diariamente, bilhões de pessoas no mundo usam seus cartões de crédito e débito para pagar as mais variadas despesas. Um volume gigantesco de recursos alimentam o lucro das operadoras de cartões, que usam os programas de milhagem para seduzir os usuários e o poder de barganha para induzir os comerciantes a aceitar o pagamento com cartões, com seus prazos de repasse e taxas praticamente impostos pelas empresas de cartões. A Visa, maior empresa do setor, teve lucro líquido mundial de US$5,6 bilhões apenas de abril a junho deste ano. No Brasil, em 2011, bancos públicos e privados criaram uma bandeira nacional, a ELO, que tem crescimento importante, mas ainda é bem menor que as norte-americanas.
Em menos de seis anos, a estimativa é que o PIX já tenha gerado uma economia de mais de R$120 bilhões em taxas e tarifas às empresas, pessoas físicas e entidades sem fins lucrativos. Uma parte significativa desse montante seria pago às grandes empresas de capital estadunidense.
O sucesso do PIX chamou a atenção de países de todos os continentes. Demonstrou, de forma prática, que podemos fazer transações comerciais, inclusive internacionais, com baixo custo ou sem nenhum ônus.
Ademais, quem controla os sistemas de pagamento de mais de uma centena de países tem acesso a informações comerciais, de tendências de consumo, de transações de serviços, cujo valor é tão relevante quanto as próprias receitas do serviço.
Por isso, o PIX é um “mau exemplo”. Se muitos países adotarem o sistema, os EUA perdem dinheiro e poder de controle. Essa é a razão da preocupação do governo Trump, que percebe que o PIX, se internacionalizado, pode ser um fator adicional ao enfraquecimento do dólar como moeda de referência e pagamento. O PIX deve ser defendido, com todo o vigor, por todos que acreditam que o Brasil tem o dever e o direito de defender seus interesses diante do poderoso sistema financeiro internacional.