Nos dias úteis da semana, ali estaciona o mini trailer do Maninho — uma espécie de ponto de equilíbrio entre o cotidiano burocrático e a informalidade quase praiana da Praia do Canto, em Vitória.
É uma cena curiosa — e, de certo modo, reveladora.
De um lado, o edifício Juan Les Pins, endereço conhecido por abrigar nomes de peso, como o ex-deputado estadual José Carlos Gratz, hoje reinventado no mercado imobiliário, com a discrição que o tempo costuma impor. Porta ao lado, o desembargador federal Macário Júdice Neto, personagem que recentemente ganhou projeção para além dos autos e acórdãos.
À margem da calçada, onde se alinham dezenas de bancos de plástico, quase como um contraponto silencioso, está o trailer do Maninho — onde o cheiro do filé mignon na brasa suspende, ainda que por instantes, a liturgia do poder e devolve tudo à escala humana.
É ali que a cidade se revela sem filtro, sem cerimonial e, sobretudo, sem a obrigação de parecer coerente.
Foi numa terça-feira à noite que saí para caminhar após o jantar, acompanhado da minha cadela Elke Maravilha — uma spitz alemã de rabo cor-de-rosa, cuja indiferença ao julgamento alheio é, convenhamos, uma qualidade que falta a boa parte do debate público nacional.
A proposta era simples: caminhar por trinta minutos, cultivar algum silêncio e desfrutar do raro luxo de não opinar sobre nada. Voltar para casa e dormir com a consciência leve e a glicemia sob controle.
Fracassei em poucos metros.
Ali encontrei meu amigo Marcelo Chiabai, irmão de uma dessas sociedades fraternais que sobrevivem menos por estatuto e mais por afinidade. Ao lado dele, a esposa — e, completando a cena, algumas dezenas de pessoas e, entre elas, um cidadão bem posicionado no circuito das vitrines caras e das colunas sociais generosas, degustando o já célebre churrasquinho do Maninho.
Na mão, uma Heineken. Verde por fora, estrela vermelha de cinco pontas no rótulo — um detalhe gráfico que, para observadores mais atentos (ou mais imaginativos), dialoga curiosamente com a iconografia historicamente associada ao Partido dos Trabalhadores. Nada que altere o sabor, evidentemente. Mas o simbolismo, esse, nunca vem sozinho.
Conversava com Marcelo Chiabai sobre temas do cotidiano — quase banalidades — quando surgiu uma cobrança leve:
— Anda sumido, não te encontro mais às quintas-feiras...
A conversa estava restrita a nós dois.
Foi então que, sem qualquer transição — nem sequer o cuidado básico de um “boa noite” — o cidadão, com a garrafa de Heineken firmemente acomodada na mão, como se fosse parte do argumento, disparou:
— O Lula está bilionário e tenho nojo do PT.
Não perguntou. Não ponderou. Afirmou como quem comenta o resultado da Mega-Sena — mas com menos compromisso com a realidade.
Respirei. Considerei seguir em frente. Há debates que não elevam — apenas ocupam espaço. Mas veio o complemento, aquele clássico do repertório nacional:
Com um sorriso atravessado, em tom de deboche — e um breve gole na cerveja, como quem pontua a própria convicção — soltou:
— Eu sei que você é de esquerda. Eu leio os seus artigos.
Foi aí que me lembrei de uma história contada por Juca Chaves, o “menestrel do amor”, ao encontrar uma fã após o lançamento de um livro.
Disse ela:
— Li o seu livro!
E ele respondeu:
— Foste tu?
Curioso. No Brasil, antes de qualquer argumento, vem o enquadramento. Como se o pensamento precisasse de uniforme para ser validado — ou descartado.
Respondi com a calma possível:
— O senhor está enganado. Não sou filiado a partido político algum. Reconheço, no entanto, que, em alguns momentos, posso demonstrar certa lucidez exagerada. Também reconheço que há pessoas que estudaram, leram, pesquisaram — e, talvez por isso, desenvolveram maior capacidade de análise e alguma sensibilidade social.
Não é bandeira. É formação.
Ele não pareceu interessado na distinção. Não era esse o objetivo.
Então devolvi, com a leveza que a situação permitia:
— Onde exatamente estaria esse patrimônio do presidente Lula?
Silêncio breve. Olhar desviado. Outro gole da cerveja — que, ironicamente, continuava ostentando sua estrela vermelha, firme, visível e absolutamente indiferente ao discurso que a acompanhava.
Avancei um pouco mais:
— Pelo seu ramo de atividade, vendendo apenas marcas consagradas, imagino que o senhor tenha um patrimônio bastante concreto. Digamos... menos teórico.
Alguns sorrisos surgiram ao redor. Nada espalhafatoso — o riso, ali, foi discreto, quase protocolar.
Porque, no fundo, não havia debate. Havia uma encenação.
Certas frases não são ditas para serem verificadas. São lançadas como senha de pertencimento. Quem concorda, integra o grupo. Quem questiona, quebra o clima — uma espécie de inconveniente funcional.
Olhei para a Elke, que já demonstrava impaciência legítima — pedindo colo, como quem percebe que a conversa se tornara desnecessária — e encerrei:
— Vamos embora.
Seguimos.
E, enquanto me afastava, ficou a impressão de que o país, às vezes, cabe inteiro naquela cena: entre um espeto de carne, uma cerveja com estrela vermelha e uma convicção inabalável que dispensa evidência, lógica ou, no limite, qualquer constrangimento com a realidade.
No trailer do Maninho, o churrasco é de filé mignon.
O debate — esse — segue sendo servido mal passado, quando não cru.